Crase com "noite" — quando usar a, à, ou nada
Esse assunto aparece todo dia em revisão de texto. Parece simples, mas dá trabalho porque tem situação em que a crase é obrigatória e situação em que ela é vedada por regras antigas que a maioria dos falantes nem conhece mais. Vou direto ao ponto.
domingo a noite ou à noite
O uso correto depende do sentido. "À noite" com crase é a locução temporal fixa, equivalente a "pela noite". Já "a noite" sem crase funciona quando "noite" está sendo determinada por um adjunto adnominal, um pronome, ou quando o termo "domingo" modifica a noção de horário de forma específica. Exemplo: "Encontramos-nos domingo à noite" leva crase, porque se trata de uma indicação temporal genérica, uma locução adverbial. Mas se você quiser ser preciso e delimitar a noite daquele dia específico, a norma culta clássica permite "domingo a noite", sem crase, tratando "a noite" como um substantivo determinado por "domingo". Na prática editorial moderna, vejo "domingo à noite" como mais comum e seguro, mas não é erro grave usar a forma sem crase quando há intenção de especificação.
A regra geral para locuções adverbiais femininas que indicam tempo é o uso de crase antes de palavras como "noite", "tarde", "manhã". O problema é que "domingo" interfere na leitura, e muita gente acaba oscilando.
Como decidir na prática
Substitua "noite" por uma palavra masculina equivalenta. Se aparece "ao", usa-se crase. "Domingo ao pôr-do-sol" — o "ao" indica que a crase existe em "à noite". Esse truque funciona na maioria dos casos temporais. Quando não usar crase: antes de palavras masculinas, depois de preposição que não admite crase, e em expressões como "de noite", "em noite", onde "noite" funciona como substantivo sem artigo definido.
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Eu já perdi tempo revisando um contrato jurídico em que o redator tinha escrito "à noite" quando se referia a "noite em que ocorreu o evento" como fato delimitado, não como locução adverbial. O contexto pedia "a noite" com sentido específico. A correção mudou o tom de "numa-noite-genérica" para "na-noite-aquela". É um detalhe pequeno, mas em textos legais faz diferença na interpretação.
Pegadinhas comuns
Primeira: "fomos a noite inteira" — aqui não há crase, porque "noite" é complemento direto sem artigo. A crase só aparece quando há a combinação de "a" + "a" (artigo definido). Segunda: expressões fixas como "à tarde", "à noite", "à moda" levam crase por serem locuções adverbiais. Terceira: depois de verbos que pedem preposição "a" e antes de nome feminino que aceita artigo, a crase é opcional em algumas construções, mas a norma padrão recomenda o uso quando o artigo estiver presente. Um caso que me atrapalhou semana passada: um autor escreveu "ela ficou a noite toda trabalhando". A forma correta aqui é "a noite toda", sem crase, porque "toda" atua como pronome indefinido e impede a artigo definido que geraria a crase. É o tipo de erro que passa despercebido até você notar o determinante.
O que a norma realmente diz
O Acordo Ortográfico não resolve explicitamente essa questão, então a referência continua sendo o Novo Doutrina da Crase e manuais como o do Celso Cunha. A posição consolidada é: locução adverbial de tempo feminina = crase. Substantivo determinado por adjunto ou pronome = sem crase, salvo quando o artigo definido estiver presente e houver fusão com a preposição. Em resumo, para "domingo a noite ou à noite", ambas as formas aparecem em uso, mas a tendência contemporânea favorece "domingo à noite" como locução temporal. Se quiser evitar dúvida, aposte na crase e revise o contexto quando houver um determinante específico sobre qual noite se fala.
Se precisar de um recurso rápido para consultar, o site da Secretaria de Normas Jurídicas da ABNT não entra nesse nível de detalhe, mas o manual do setor editorial de grandes editoras brasileiras costuma ter uma tabela simples que resume os casos. Não tenho link útil agora, mas a consulta direta ao vocabulário ortográfico da língua portuguesa resolve para a maioria das dúvidas.