Duas Pessoas Saem De Suas Casas - ENEM 2023 PPL - Duas pessoas saem de suas casas para se exercitarem ...
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O Problema do Encontro: uma explicação sem rodeios

A frase duas pessoas saem de suas casas é o início de um dos problemas mais recorrentes de probabilidade geométrica que você vai encontrar em qualquer lista de exercícios decente. A versão canônica diz assim: duas pessoas combinam de se encontrar num certo local entre 12h e 13h. Cada uma chega num instante uniformemente distribuído nesse intervalo e espera exatamente 15 minutos. Se a outra não aparecer, ela vai embora. Qual a probabilidade de eles se encontrarem?

duas pessoas saem de suas casas e o cálculo real

A resposta não é intuitiva para a maioria das pessoas. O jeito mais limpo de resolver é desenhar o quadrado unitário no plano cartesiano, onde o eixo X representa o tempo de chegada da pessoa A e o eixo Y representa o tempo de chegada da pessoa B. Ambos variam de 0 a 1, medidos em horas a partir do meio-dia. O evento "eles se encontram" acontece quando e somente quando o valor absoluto da diferença entre os dois tempos de chegada é menor ou igual a 15 minutos, ou seja, 1/4 de hora. Matematicamente, a condição é |X - Y| 1/4. No quadrado [0,1] x [0,1], a região que satisfaz essa desigualdade forma uma faixa diagonal que atravessa o quadrado inteiro. O cálculo da área dessa faixa é mais fácil subtraindo as duas regiões triangulares nos cantos opostos — onde a diferença excede 15 minutos — da área total do quadrado, que é 1. Cada triângulo tem catetos de comprimento 3/4, então a área de cada um é (3/4)² / 2 = 9/32. A área favorável fica sendo 1 - 2 × (9/32) = 1 - 9/16 = 7/16. A probabilidade é 7/16, ou cerca de 43,75%.

Se você alterar o tempo de espera, o resultado escala de forma previsível. Com w como fração da janela total de encontro, a probabilidade é 1 - (1 - w)², desde que w 1. Quando w = 1/4, você recupera 7/16. Quando w = 1/2, a probabilidade sobe para 3/4. Quando w = 1, ou seja, ambos esperam o tempo inteiro, a probabilidade é 1 — óbvio. O interessante é que a função é quadrática, não linear, então dobrar o tempo de espera não dobra a probabilidade de encontro. Na prática, eu já vi esse problema aplicado de formas bem diferentes. Já corrigi listas onde o enunciado pedia algo como "e se a pessoa A esperar 10 minutos e a pessoa B esperar 20 minutos?" Aí a simetria quebra. O cálculo ainda é geométrico, mas a faixa central deixa de ser simétrica. Nesse caso específico, você precisa integrar manualmente as áreas dos trapézios resultantes. A resposta para aquela variação com janelas assimétricas de 10 e 20 minutos numa janela de 60 minutos era aproximadamente 0,472. Não vale a memória de cabeça, você tem que refazer o desenho todo.

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Onde as pessoas erram

O erro mais comum é tratar o problema como uma série temporal discreta, contando minutos como se fossem eventos independentes. Isso funciona se você aproximar por simulação, mas a resposta exata vem da geometria contínua. Outro erro frequente é aplicar a regra da probabilidade condicional de forma cega, sem considerar a restrição de que ambos estão no mesmo intervalo de tempo fixo. Se o intervalo fosse infinito, o problema não teria solução finita — a probabilidade de encontro tenderia a zero. Também é importante notar que o modelo assume distribuição uniforme e independência completa entre os horários de chegada. Na vida real, duas pessoas que combinam um encontro costumam ter preferências temporais correlacionadas. Um deles pode tender a chegar mais cedo sistematicamente. Isso aumenta a probabilidade de encontro se os vieses forem compensatórios, mas pode diminuir se ambos forem tardios ou ambos forem cedo. O modelo padrão não captura isso.

Extensões que valem a pena

Se você quiser complicar, o problema se generaliza naturalmente para n pessoas e para janelas temporais diferentes. O caso de três pessoas com a mesma regra de espera já não tem uma resposta fechada tão elegante. A região favorável no cubo unitário fica com uma forma geométrica que exige integração tripla, e o resultado numérico para w = 1/4 é aproximadamente 0,614, contra 0,438 do caso binário. A probabilidade sobe, como era de se esperar, mas não linearmente. Outra variação útil é substituir o intervalo fixo por uma distribuição exponencial de chegadas, típica de processos de Poisson. Nesse cenário, a probabilidade de encontro entre duas pessoas que chegam independentemente com taxa e esperam tempo fixo w é 2w / (1 + 2w), para w finito. Isso é mais próximo de modelos reais de filas e atendimentos. Note que quando w é pequeno, a expressão se aproxima de 2w, mas cresce assintoticamente para 1 à medida que o tempo de espera aumenta, sem nunca atingi-lo totalmente.

O problema clássico continua sendo uma ferramenta pedagógica útil porque força o estudante a visualizar espaços amostrais contínuos e a traduzir restrições temporais em regiões geométricas. A limitação principal é que ele ignora fatores comportamentais reais, como a tendência humana de chegar adiantado propositalmente ou de ajustar o tempo de espera com base em sinais externos. Mesmo assim, para fins de treinamento de raciocínio probabilístico, ele entrega muito pelo esforço que exige.