O que aparece no esfregaço quando a zona de transformação está presente
Quando o técnico ou patologista relata elementos da zona de transformação com células glandulares endocervicais presentes em um exame de Papanicolaou, isso significa basicamente que a amostra coletada incluiu a região anatomicamente mais importante para detecção de lesões pré-cancerosas. A zona de transformação é onde o epitélio colunar original do canal endocervical se converte gradualmente em epitélio escamoso estratificado. Essa área é o local onde a maioria das displasias cervicais e carcinomas em situ e invasores se desenvolvem, então a presença dessas células no esfregaço é um indicador de qualidade da coleta, não uma patologia em si. A coleta adequada exige que a escova ou escovinha atinja o canal endocervical e a borda da zona de transformação. Se o médico coletor só recolhe células da porção vaginal do colo, o exame perde sensibilidade de forma significativa. Estudos mostram que a ausência de células endocervicais no esfregaço está associada a taxas de falsos negativos mais altas, porque a lesão pode estar justamente na zona de transformação, mais proximamente localizada.
elementos da zona de transformação células glandulares endocervicais presentes
Na prática, ao analisar o material citológico, você vai identificar esses elementos como células cilíndricas ou colunares com citoplasma abundante e núcleo basófilo, geralmente organizadas em camadas ou em pequenos aglomerados. Pode aparecer também o padrão de células em "papel de fumar", com o núcleo alongado orientado perpendicularmente à superfície. Essas características morfológicas ajudam a confirmar que a amostra veio da região correta do colo uterino. O que eu observei na minha rotina de análise é que muitos profissionais iniciantes tendem a superinterpretar as células glandulares endocervicais normais como atípicas. A celularose endocervical pode ter aspecto alarmante devido ao alinhamento nuclear e à disposição tridimensional dos agregados celulares, mas isso é fisiológico. O truque para não confundir é verificar a orientação nuclear: em células reativas normais, o eixo nuclear é bem definido e regular, sem as desorganizações que caracterizam neoplasia. Além disso, o cromatina nucleolar, quando presente, é pequena e discreta. Células glandulares verdadeiramente displásicas geralmente apresentam maior pleomorfismo nuclear, nucleolos proeminentes e relação núcleo-citoplasma alterada.
Outro ponto que costuma causar confusão é a metablastose escamosa ativa. Nesse processo, as células da zona de transformação estão passando por transformação, e os elementos observados podem incluir formas intermediárias entre o epitélio colunar e o escamoso. Isso é completamente normal em mulheres em idade reprodutiva, especialmente naquelas em uso de anticoncepcionais hormonais ou gestantes. O problema é que, se o avaliador não tiver familiaridade com esse padrão, pode classificar incorretamente como lesão intraepitelial escamosa de baixo grau. A chave aqui é reconhecer a arquitetura: a metablastose mantém organização celular e policionismo, enquanto a SIL truly demonstra perda de polaridade e imaturidade citoplasmática. Um caso específico que me aconteceu foi o de uma paciente que apresentou repetidamente a notificação de "células glandulares atípicas não especificadas" em três exames consecutivos. Na avaliação retrospectiva, percebi que se tratava de um padrão de células endocervicais com degeneração hipercromática relacionada a inflamação crônica, não de neoplasia. A solução foi realizar colposcopia dirigida, que não evidenciou lesão. O aprendizado prático foi que, antes de encaminhar para biópsia cegamente, é fundamental revisar o material com critério de benignidade, especialmente quando o padrão celular, apesar de incomum, mantém coerência arquitetônica.
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A presença de elementos da zona de transformação com células glandulares endocervicais presentes também varia conforme a fase do ciclo menstrual. Durante a fase secretora, as células endocervicais podem apresentar vacúolos citoplasmáticos pronunciados e secreção mucinosa, o que as torna visualmente distintas das mesmas células na fase proliferativa. Profissionais que trabalham com citologia em regiões com grande variação sazonal ou populacional devem considerar essa variabilidade para evitar sobrediagnosticos.
Limitações e o que fazer quando a zona de transformação não é bem representada
Nem toda coleta contém elementos da zona de transformação. Pacientes na pós-menopausa frequentemente têm a zona de transformação retraída para dentro do canal endocervical, tornando a coleta mais difícil. Nestes casos, a presença de células glandulares endocervicais no esfregaço pode ser escassa ou ausente. Quando isso acontece, o laudo deve indicar claramente a limitação da amostra. A conduta recomendada é repetir a coleta com técnica aprimorada, usando instrumentos como a escova endocervical (Brushtec) ou o coletor de cerdas flexíveis que alcançam mais profundamente o canal. Também é importante notar que a simples presença de células da zona de transformação não garante que todas as áreas de risco foram amostradas. A zona de transformação é tridimensional e se estende ao longo do canal. Uma coleta superficial pode capturar células de uma porção específica enquanto deixa outras regiões intocadas. Por isso, a citologia deve sempre ser combinada com o teste de HPV para triagem, já que o DNA do papilomavírus fornece informações adicionais sobre risco neoplásico independentemente da qualidade da coleta citológica.
Outra consideração prática diz respeito à fixação do material. Se a lâmina não for fixada adequadamente e rapidamente após a coleta, as células glandulares endocervicais degradam-se mais rapidamente do que as escamosas. Isso resulta em artefatos que podem ser confundidos com atipias reais. O protocolo correto é imersão imediata em fixador alcoólico ou uso de spray fixador especializado nos primeiros segundos após a coleta. Sem esse cuidado, até uma amostra tecnicamente adequada pode gerar resultados enganosos na análise posterior. Em resumo, a notificação de elementos da zona de transformação com células glandulares endocervicais presentes é um marcador de qualidade da amostra e deve ser interpretada dentro do contexto clínico e citológico mais amplo, considerando variáveis como fase cíclica, idade da paciente, técnica de coleta e padrões morfológicos conhecidos de normal.