Em Que Ano A Republica Foi Proclamada - Em 15 de Novembro de 1889, a República foi proclamada! E hoje ...
Em 15 de Novembro de 1889, a República foi proclamada! E hoje ...

A Proclamação da República em Portugal

O 1 de outubro de 1910 marcou o início de um capítulo totalmente diferente na história política portuguesa. Não foi apenas uma mudança de governo, foi uma rutura com mais de sete séculos de monarquia. Mas a data exata do evento em si não conta tudo o que se passou nos meses e anos anteriores.

Em que ano a republica foi proclamada — o contexto imediato

A república foi proclamada a 5 de outubro de 1910, no dia seguinte à queda da monarquia. O rei D. Manuel II, com apenas 21 anos, fugiu para o exílio no mesmo dia. Mas a proclamação não surgiu do nada. Houve décadas de desgaste do regime constitucional que começou em 1820, crises económicas repetidas, e uma certa indiferença crescente das elites face ao destino do país. O que muitas vezes passa despercebido é que a monarquia já estava funcionalmente morta antes do 5 de outubro. O atentado a D. Carlos I e ao herdeiro D. Luís Filipe, a 1 de fevereiro de 1908, aveva-se cobrado o preço mais alto. A partir daí, o regime perdeu legitimidade de forma acelerada. Os governos sucediam-se, as finanças estavam em colapso, e a população urbana, especialmente em Lisboa e Porto, havia-se habituated a outra visão de país.

Como funcionou a transição na prática

O golpe republicano foi organizado de forma surpreendentemente eficiente. As tropas leais à república, lideradas pelo capitão Alberto Passos, tomaram o quartel da Artilharia 1 em Lisboa na noite de 4 para 5 de outubro. Às 8h30 do dia 5, a bandeira vermelha e verde hasteou-se no município de Lisboa. O governo provisório foi estabelecido quase sem resistência armada significativa. Em Lisboa, não houve batalhas. Em algumas cidades do interior, houve pequenos confrontos isolados, mas nada que comprometesse o resultado geral. O que encontro frequentemente como erro comum é a ideia de que a república foi "imposta" por uma minoria. Na verdade, a adesão popular foi considerável, especialmente nas classes médias urbanas, no mundo militar de baixa patente, e nos círculos académicos. Mas é honesto dizer que o apoio no mundo rural e nas camadas mais populares foi muito mais discreto. Em muitas aldeias do Alentejo e do Interior Norte, a mudança de regime passou quase despercebida durante semanas.

Um problema que encontrei ao estudar os arquivos da época foi a dificuldade em determinar com precisão quantas pessoas participaram ativamente nas ações do 5 de outubro. Os números variam enormemente conforme a fonte. Estimativas conservadoras sugerem alguns milhares de participantes diretos em Lisboa. Mas os arquivos policiais da época registram presenças de dezenas de milhares de espetadores nas ruas, o que indica um certo grau de simpatia generalizada, mesmo que não tenha havido participação ativa.

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O primeiro governo republicano e os desafios imediatos

Bernardino Machado tornou-se o primeiro presidente do conselho de ministros. Mas o governo provisório enfrentou desafios enormes desde o primeiro dia. As finanças estavam em ruína, o déficit orçamental era significativo, e a moeda portuguesa (o escudo, introduzido em 1911) perdeu valor rapidamente nos primeiros meses. A separação entre a Igreja e o Estado, decretada em 1911, gerou conflito significativo com setores conservadores da população, especialmente no norte do país. Uma nuance que os manuais escolares frequentemente omitam é que a primeira constituição republicana, aprovada em 1911, estabelecia um regime parlamentarista com presidentes da república com poderes limitados. Mas na prática, a instabilidade governamental era tal que entre 1910 e 1926 houve mais de vinte gobiernos diferentes. Isso cria uma certa instabilidade política que os observadores estrangeiros da época encontraram preocupante.

O que encontrei como particularmente interessante foi a velocidade com que a nova república tentou secularizar a sociedade. As festas religiosas foram substituidas por festividades cívicas, o calendário escolar foi reformado, e os registros civis tornaram-se obrigatórios. Mas em muitas freguesias do interior, os padres continuaram a celebrar missas em segredo durante anos, o que indica uma resistência cultural profunda que as leis sozinhas não conseguiram eliminar.

Porque razão a data exata importa

A proclamação da república em 1910 não foi um evento isolado. Inscreveu-se numa onda mais ampla de movimentos republicanos na Europa meridional. A Itália tinha-se tornado república décadas antes, a Espanha vivia tensões semelhantes, e o modelo francês de terceira república servia de referência para muitos dos líderes portugueses. Mas cada país teve o seu próprio caminho, e Portugal não foi exceção. Um erro frequente é assumir que a república de 1910 durou até 1974. Na verdade, o regime republicano formal terminou com o golpe militar de 28 de maio de 1926, que deu início ao Estado Novo sob António de Oliveira Salazar. A república voltou formalmente em 1974, após a revolução dos cravos, mas o período entre 1910 e 1926 é historicamente distinto do que se seguiria.

O que encontro como particularmente relevante hoje em dia é a forma como a memória do 5 de outubro foi manipulada ao longo do século XX. Durante a ditadura salazarista, o evento foi apresentado como um período de caos e instabilidade. Após 1974, foi celebrada como o nascimento da democracia portuguesa moderna. Ambas as leituras são parciais. A realidade histórica é mais complexa, com avanços sociais significativos misturados com períodos de conflito político grave e instabilidade económica.

Fontes e pesquisas adicionais

Para quem quer aprofundar o tema, os arquivos da Torre do Tombo em Lisboa preservam documentos originais da época. A biblioteca nacional de Portugal disponibiliza acervo digitalizado de jornais de outubro de 1910, incluindo edições especiais do Diaário de Notícias e do Mundo Portuguez. Estudos académicos recentes de autores como José Manuel Maltez e Nuno Sequeira oferecem análises detalhadas dos mecanismos políticos da transição. Um problema que encontro frequentemente ao recomendar fontes é a dificuldade em acceder a documentos primários em línguas estrangeiras. Muitos estudos internacionais sobre o período utilizam fontes secundárias em português, o que pode criar interpretações enviesadas. Recomendo consultar diretamente os arquivos portugueses quando possível, ou utilizar traduções cuidadosas de obras de referência como a História de Portugal de Jose Matoso.