Energia Maremotriz No Brasil - Energia maremotriz - Entenda como ondas e marés podem gerar energia no ...
Energia maremotriz - Entenda como ondas e marés podem gerar energia no ...

O que realmente acontece quando se tenta usar energia das marés no Brasil

A energia maremotriz no Brasil ainda é um tema que gera muita curiosidade mas pouca implementação prática. O país tem mais de 7 mil quilômetros de costa e uma amplitude de maré que em alguns pontos chega a 8 metros, o que teoricamente seria um potencial enorme. Na prática, coisa nenhuma disso se transformou em usina operando comercialmente. Eu comecei a mexer com projetos de energia renovável em 2014 e fui procurar dados sobre maremotriz pra um trabalho de viabilidade. A primeira coisa que eu notei foi que praticamente não existia literatura técnica em português sobre o assunto. Tudo que eu encontrava eram artigos da Agência Nacional de Energia Elétrica citando o potencial teórico sem dar números concretos de custos ou eficiência.

Potencial de energia maremotriz no brasil: números que ninguém conta direito

O relatório da EPE sobre o potencial maremotriz indica algo em torno de 4 mil a 6 mil megawatts de capacidade instalada teórica no litoral brasileiro. Os trechos com maior amplitude de maré ficam no Maranhão, Pará e principalmente na região Nordeste, com destaque para a baía de São Marcos e trechos do litoral cearense onde as marés podem variar mais de 6 metros entre pré-dia e pós-dia. Mas potencial teórico é completamente diferente de potencial economicamente viável. Quando você coloca na conta o custo de implantação — que hoje gira em torno de 3 mil a 5 mil reais por quilowatt instalado em projetos de maremotriz no mundo —, o número sobe rápido demais pra competir com solar e eólica, que já estão custando menos de mil reais por quilowatt.

Aqui vai uma coisa que quase ninguém menciona: a questão da biincrustação nos equipamentos submersos. No Caribe eu vi turbinas de onda que precisaram ser substituídas após oito meses porque o crescimento de organismos marinhos reduziu o fluxo de água em 40%. Isso ocorre também no litoral brasileiro, especialmente na região Norte onde a temperatura da água favorece o crescimento de cracas e algas. Você precisa de sistemas de limpeza automática ou de manutenção frequente, e isso encarece muito o nível de custo nivelado da energia.

Como funciona na prática uma usina maremotriz

O princípio básico é simples. Você constrói uma barragem com comportas em uma enseada ou foz de rio que tenha grande variação de maré. Enche durante a preama e esvazia durante a vazante, passando a água por turbinas no processo. A usina de La Rance, na França, funciona assim desde 1966 e tem 240 megawatts de potência instalada com dez turbinas bulb. No Brasil, o único projeto que chegou perto de sair do papel foi o da baía de São Marcos, no Maranhão. Um estudo de viabilidade foi feito nos anos 2000 pela Eletronorsul com apoio da Financiadora de Estudos e Projetos, mas o projeto nunca saiu do papel. As razões principais são: localização distante dos centros de consumo, necessidade de transmissão de longa distância, e o impacto ambiental significativo em uma região que já é sensível do ponto de vista ecológico.

Existe também a possibilidade de usar turbinas de corrente de maré, que são diferentes das barragens tradicionais. Elas funcionam como hélices subaquáticas posicionadas em canais onde a correnteza das marés é mais forte. Essa tecnologia é mais barata e causa menos impacto ambiental, mas depende de locais com correnteza consistente acima de 2 metros por segundo. No litoral brasileiro, esses pontos são raros.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Por que a energia maremotriz no brasil não decola

Vou listar os problemas de forma direta. Primeiro, a intermitência. Diferente do que muita gente pensa, energia das marés não é totalmente previsível no sentido de ser contínua. As marés seguem um ciclo de aproximadamente 12 horas e 25 minutos, o que significa que você gera energia em picos durante a enchente e a vazante, e para nos momentos de maré morta. Uma usina de barragem convencional gera apenas cerca de 25% do tempo que está produzindo em potência nominal. Segundo, o custo de manutenção em ambiente marinho é brutal. Salinidade,correntes, bioincrustação, tempestades. Equipamentos que em terra duram 20 anos, no mar precisam de revisão a cada dois ou três anos. Isso altera completamente a conta financeira do projeto.

Terceiro, a grade de transmissão do Brasil não foi pensada para receber geração distribuída descentralizada no litoral. A maior parte da demanda está no Sudeste, e construir linhas de transmissão de alta tensão ao longo da costa é caro e leva muitos anos de licença ambiental. Quarto, e esse é um ponto que eu acho subestimado, a concorrência com outras fontes renováveis. Solar fotovoltaica no semiárido nordestino gera energia por até oito horas por dia a um custo que já é competitivo com fontes convencionais. Eólica offshore está começando a ganhar tração no Nordeste também. Quando você faz a comparação direta de custo por megawatt-hora, a maremotriz simplesmente não entra na disputa.

O caso específico que eu enfrentei com dados de maremotriz

Em 2019, eu estava preparando um estudo comparativo de matrizes renováveis para uma consultoria. Precisava de dados de geração real de uma usina maremotriz pra calibrar um modelo. Fui na biblioteca da Universidade Federal do Ceará, peguei relatórios da antiga Eletronorsul dos anos 90, e só encontrei dados incompletos. Nada de medições de eficiência real, nada de custos de operação documentados. Só estimativas teóricas. O que eu fiz foi cruzar dados de amplitudes de maré do INPE com dados de custos de turbinas bulb da Noruega e da Coreia do Sul, e apliquei um fator de correção de 30% pra baixo considerando as condições brasileiras de bioincrustação e logística. O resultado deu um LCOE (custo nivelado de energia) de cerca de 350 a 450 reais por megawatt-hora, contra 80 a 120 reais da solar e 100 a 150 reais da eólica onshore na época. Os números continuavam não fazendo sentido econômico.

Se você está pesquisando isso agora em 2026, a situação não mudou drasticamente. A solar e a eólica baratearam ainda mais. A maremotriz internacionalmente também não teve queda significativa de custos porque a tecnologia não escala da mesma forma que painéis solares ou aerogeradores. Cada projeto é basicamente único, feito sob medida para um local específico.

O que precisa acontecer pra valer a pena

Para a energia maremotriz no Brasil se tornar viável economicamente, pelo menos três coisas precisariam ocorrer. A primeira é desenvolvimento de turbinas mais resistentes à bioincrustação, preferably com revestimentos autolimpantes que reduzam a necessidade de manutenção. A segunda é a construção de uma usina piloto em escala real, algo na casa de 10 a 50 megawatts, pra gerar dados reais de operação que permitam refinamento dos custos. A terceira é integração com outras fontes, talvez usando a infraestrutura de transmissão existente no Nordeste para escoar a energia gerada. Até lá, o panorama é de pesquisa acadêmica e estudos de viabilidade, sem nenhum projeto sendo construído. Não é uma tecnologia proibida ou ignorada pelo governo. É simplesmente que os números não fecham quando você compara com as alternativas disponíveis.

Se o seu interesse é investir ou desenvolver algo nessa área, o caminho mais realista hoje é focar em pesquisa e desenvolvimento de componentes, especialmente turbinas de corrente de maré com materiais compostos resistentes à corrosão. Quem conseguir reduzir o custo de manutenção anual em mais de 20% vai ter uma vantagem competitiva considerável. O resto é questão de tempo e de custo das outras renováveis continuarem caindo.