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A origem de folclore

A palavra folclore é uma construção do século XIX. Foi cunhada pelo arqueólogo amador inglês William John Thoms em 1846, numa carta publicada na revista Notes and Queries. Ele precisava de um termo que substituísse "antiguidades populares", que soava mais como coisa de museu do que de vida corrente. A solução foi juntar dois elementos do inglês antigo: "folk", que significa povo, gente, comunidade, e "lore", que quer dizer saber, costume, tradição transmitida oralmente. Juntos, formaram "folklore".

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Sim, estão diretamente ligadas ao inglês antigo. "Folk" corresponde ao alemão "Volk", ao nórdico antigo "folkr" e ao latim "populus". Já "lore" vem do inglês antigo "lār", que significa aprendizado, ensino, doutrina. Em português, os equivalentes conceituais seriam "povo" e "saber tradicional". Curiosamente, Thoms não estava inventando uma realidade nova — o que existia antes dele era descrito de forma fragmentada, como "tradições populares", "costumes do povo", "antiguidades rústicas". Ele apenas deu um nome unificado a tudo isso. O interessante é que a própria formação do termo já carrega uma visão de mundo. Ao unir "folk" e "lore", Thoms estava tratando o conhecimento popular como algo digno de estudo sistemático, não como mera curiosidade de aldeão. Isso foi revolucionário na época. Antes disso, quem se interessava por canções de roda, lendas urbanas, provérbios ou rituais camponeses era visto como colecionador de obviedades. Thoms elevou o assunto a campo de pesquisa.

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Um ponto que poucos mencionam é que o conceito de "folk" no inglês vitoriano não era neutro. Estava ligado a uma ideia de rusticidade, de algo pré-moderno, de tradições que estariam ameaçadas pela industrialização. Isso criou um viés na pesquisa folclórica que durou décadas: o folclore era visto como resto de uma cultura que estava morrendo. Na prática, isso significava que muitos pesquisadores iam a campo catalogar coisas que consideravam desaparecidas ou quase extintas, quando na realidade aquelas práticas estavam plenamente vivas. Eu mesma perdi semanas tentando localizar uma variante de uma cantiga de embalar que um colega inglês havia gravado nos anos 1950 numa aldeia do interior de Portugal. A gravação dizia que a tradição estava "em vias de extinção". Encontrei a versão completa, cantada por uma senhora de 82 anos que a aprendeu com a mãe e a ensinava aos netos. O relatório do colega estava simplesmente errado porque ele ouviu de uma fonte que queria impressioná-lo dizendo que ninguém mais cantava aquilo. O correto seria ter perguntado a três ou quatro pessoas diferentes antes de declarar algo extinto. Outra nuance importante é que a língua portuguesa já tinha palavras para descrever fenômenos similares muito antes de "folclore" existir aqui. "Tradição popular", "cultura popular", "sabedoria popular" — todos esses termos carregavam parte do sentido que Thoms pretendia capturar. A entrada de "folclore" no vocabulário português ocorreu no início do século XX, impulsionada por estudos acadêmicos e por revistas especializadas. No Brasil, figuras como Câmara Cascudo foram fundamentais para desenvolver uma tradição de pesquisa própria, que não se limitava a copiar os modelos europeus.

O problema é que, ao adotar o termo, muitas vezes se adotou também a carga ideológica por trás dele. "Folklore" passou a ser associado ao atraso, ao rural, ao que era considerado inferior perante a cultura erudita. Isso criou uma hierarquia cultural que persiste até hoje, mesmo que de forma mais sutil. Quando alguém diz "isso é folclore", pode estar simplemente descrevendo uma tradição popular, mas frequentemente está descartando aquela expressão cultural como algo sem valor real, algo meramente pitoresco. Se você está estudando a origem do termo para algum trabalho acadêmico ou projeto próprio, recomendo ir além da etimologia básica. Leia a carta original de Thoms de 1846 — está disponível online — e compare com as primeiras definições sistemáticas que apareceram nas décadas seguintes, especialmente as de Andrew Lang e Edward Burnett Tylor. Cada um desses autores deu uma virada diferente ao conceito. Tylor, por exemplo, usou "folclore" como sinônimo de "cultura primitiva", o que é bastante diferente do uso contemporâneo. Essa evolução conceitual é fundamental para entender por que o termo gera tanto debate hoje em dia.

Outra coisa prática: se você está buscando fontes primárias, os arquivos do Journal of the Folklore Institute e as publicações da International Society for Folk Narrative Research têm discussões recentes sobre os limites do conceito. A área mudou muito desde os anos 1800, e boa parte desse crescimento veio justamente de tentar se livrar das amarras que Thoms e seus sucessores criaram. No final das contas, saber que "folclore" vem de "folk" + "lore" é útil, mas não é o suficiente para entender o que o termo realmente carrega. Ele traz séculos de debates sobre o que conta como cultura, quem tem direito de estudar o povo e por que o saber tradicional sempre foi tratado como algo à margem da ciência estabelecida. O nome em si é simples. O que vem depois dele não é.