O que é concordância nominal e como fazer direito
A concordância nominal é a parte da gramática que trata do ajuste entre o substantivo e os elementos que a ele se ligam: artigos, adjetivos, pronomes, numerais. Parece simples até você se deparar com uma frase como "Eles chegaram atrasado" e não saber se o adjetivo vai para o plural. A coisa complica rápido quando os casos fogem do padrão.
Regra básica: gênero, número e grau
O adjetivo deve concordar em gênero (masculino/feminino), número (singular/plural) e grau (normal/superlativo) com o substantivo a que se refere. Isso é o que todo mundo aprende na escola. O problema é que existem exceções que os livros didáticos raramente explicam com a profundidade necessária. Aqui vai um exemplo de concordância nominal que ilustra o básico:
"As casas antigas ficam escondidas atrás dos muros altos." — o artigo "as", o adjetivo "antigas" e "altos" concordam em gênero feminino e número plural com "casas" e "muros". Nada excepcional.
Os casos que realmente confundem as pessoas
Existem três situações em que até pessoas com formação sólida erram frequentemente, e eu vi isso acontecendo repetidamente em revisões de texto ao longo dos anos. A palavra "anexo" e seu irmão "incluso". Muitas pessoas escrevem "Segue anexo o documento" quando o certo seria "Segue anexa a documento" — ou, melhor ainda, reescrever a frase para evitar a ambiguidade. A regra é: "anexo" é adjetivo e deve concordar com o substantivo. Se o documento é feminino, fica "anexa". Se são várias folhas, "anexas". A palavra "incluso" funciona da mesma forma, mas aqui a maioria das pessoas já erra mais rápido porque soa estranho dizer "inclusa a relação". No entanto, está correto.
"Obrigado" não tem gênero fixo. Se você é homem, diz "obrigado". Se é mulher, diz "obrigada". Esse já é consenso, mas o erro mais comum vem quando o sujeito é composto ou indeterminado. "Fomos obrigados a sair" está certo para um grupo misto ou masculino. "Fomos obrigadas a sair" só se todas forem mulheres. Erro frequente: "Muito obrigado" escrito por mulheres que acham que é uma expressão fixa. Não é. Adjetivos compostos de cor. Aqui é onde a maioria trava. "Os olhos verde-escuros" — o adjetivo composto não varia porque a primeira palavra é invariável. Mas "os olhos verde-escurros" seria um erro gritante. A regra prática: se o adjetivo de cor é formado por duas ou mais palavras (verde-escuro, azul-marinho, rosa-chiclete), só o último elemento varia, e apenas se for um adjetivo propriamente dito. "Rosa" e "cinza", quando compostos, ficam invariáveis: "camisas rosa", "calças cinza"."Azul-marinho" também: "fatos azul-marinho". Já "cor-de-rosa" é invariável por ser uma locução adjetiva: "blusas cor-de-rosa".
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Casos de ambiguidade e a solução prática
Um problema que encontrei pessoalmente e que não aparece em manuais comuns é quando temos dois substantivos regidos pela mesma preposição e um adjetivo que deveria se referir a ambos. Por exemplo: "Preocupada com a saúde e a alimentação saudável", ela decidiu mudar de hábitos. Aqui, "preocupada" concorda com o sujeito feminino, mas "saudável" no final pode ser lido como se se referisse só a "alimentação". A solução que uso na revisão é rearranjar a frase: "Preocupada com a saúde e com a alimentação, ela decidiu adotar um estilo de vida mais saudável." Fica claro, sem ambiguidade. Outro cenário delicado é a concordância com predicativos do sujeito quando este é composto. "O diretor e a coordenadora estiveram satisfeitos." Se ambos são do mesmo gênero, o adjetivo vai para o plural daquele gênero. Se forem de gêneros diferentes, o plural masculino prevalece: "O diretor e a coordenadora estiveram satisfeitos." Isso é rule of thumb, não uma lei absoluta, e há gramáticos que defendem a concordância pela proximidade em alguns contextos. O importante é manter a consistência dentro do mesmo texto.
A concordância facultativa: quando você tem escolha
Nem sempre a regra é única. Existem casos em que duas formas estão corretas, e a escolha depende do nível de formalidade ou da preferência regional. Um exemplo clássico: "É necessário os relatórios" versus "Os relatórios são necessários." A primeira construção, com o adjetivo antes do verbo, permite concordância facultativa com o sujeito posposto. Na prática, prefira sempre a segunda opção, que é mais clara e soa mais natural na linguagem escrita. Outro caso facultativo é com pronomes de tratamento. "Vossa Senhoria está preocupado" ou "preocupada"? Tecnicamente, o adjetivo concorda com a pessoa representada pelo pronome, não com o pronome em si. Se quem fala é uma mulher falando de si mesma, mesmo usando "Vossa Senhoria", o adequado seria "preocupada". Mas isso depende do contexto e do registro.
O exemplo de concordância nominal mais difícil que já vi
Em uma revisão recente, me deparei com esta frase: "As matérias sobre economia e finanças estavam bastante abrangentes." O erro estava em "bastante". Nesse contexto, "bastante" funciona como advérbio de intensidade e é invariável. O correto seria "bastante abrangentes" mesmo, porque o adjetivo é que varia, não o advérbio. A confusão vem do fato de "bastante" também poder ser adjetivo sinônimo de "muitos" — e aí sim varia. A dica prática: se você pode substituir por "muito", é advérbio e não varia. Se pode substituir por "muitos", é adjetivo e varia.
Dica prática para revisar concordância nominal em textos longos
Quando o texto tem dezenas de páginas, revisar concordância nominal linha por linha é inviável. O que faço é um processo em duas etapas: primeiro uma leitura focada exclusivamente nos adjetivos e seus substantivos, sublinhando cada par. Depois, verifico se há concordância entre artigo e substantivo, principalmente em frases com orações intercaladas que quebram a proximidade natural. Uma ferramenta útil (quando disponível) é o corretor do Word configurado para português do Brasil, mas ele falha feio em casos como os que citei acima. O corrector automatizado não distingue entre "bastante" advérbio e "bastante" adjetivo, por exemplo. Então a revisão humana continua sendo insubstituível para textos que precisam de rigor, como documentos jurídicos ou artigos acadêmicos.
Resumo prático
A concordância nominal segue regras claras na maioria dos casos, mas os erros mais comuns vêm de: palavra compostas de cor, advérbios que parecem adjetivos, e ambiguidades de regência. O exemplo de concordância nominal mais seguro é sempre aquele em que o adjetivo vem imediatamente após o substantivo, sem intermediários. Quanto mais longe o adjetivo ficar do substantivo, maior a chance de erro — e maior a chance de ambiguidade na interpretação. Manter a proximidade sintática é a técnica mais eficaz para evitar problemas, mesmo que isso signifique reescrever trechos que pareceriam corretos à primeira vista.