Análise sintática no nono ano — o que realmente funciona na prática
No meu primeiro ano lecionando português, deixei os alunos decorarem classificações sem contexto. Dois meses depois, na prova, uma turma inteira apontou o sujeito de "Choveu ontem" como se existisse um agente oculto. A correção era simples: verbo impessoal, sujeito inexistente. Mas o hábito da decorar — e não do entender — já estava instalado. A partir daí, mudei tudo.
Exercícios de análise sintática com gabarito para 9 ano
A seguir, dez exercícios baseados em textos reais, com gabarito detalhado ao final. Cada questão testa um ponto específico que costuma cair em provas do Enem, concursos e avaliações estaduais. O gabarito não é só a resposta: inclui o raciocínio, o erro comum e a exceção relevante.
Exercício 1 — Identificação do sujeito
Assinale a alternativa em que o sujeito está corretamente identificado: a) Fazem dois anos que ele chegou. — Sujeito: "Fazem dois anos"
b) É necessária paciência. — Sujeito: "É necessária paciência" c) Aqui não se cultiva milho. — Sujeito: "não se cultiva milho"
d) Vende-se casa. — Sujeito: "casa" e) Algum aluno chegou atrasado. — Sujeito: "chegou atrasado"
Exercício 2 — Predicado e núcleo
Indique a alternativa em que o núcleo do predicado está corretamente identificado na frase: "Os alunos estudaram bastante para a prova."
Exercício 3 — Objeto direto e indireto
Na frase "Entreguei o documento ao diretor", os complementos são, respectivamente: a) OD direto e OO indireto
b) OO indireto e OD direto c) OD preposicionado e OD indireto
d) OD direto e OD indireto e) Predicado nominal e objetiva indireta
Exercício 4 — Complemento nominal e agente da passiva
Assinale a alternativa que contém, respectivamente, um complemento nominal e um agente da passiva: a) "amor à pátria" / "por Maria"
b) "medo de cães" / "pelo governo" p(c) "história do Brasil" / "pelo autor"
d) "desejo de viajar" / "por nós" e) "resposta correta" / "por eles"
Exercício 5 — Adjunto adnominal e adjunto adverbial
Em "O livro novo de João foi comprado na livraria antiga", os termos destacados são, respectivamente: a) AA / CA
b) OD / OO p)c) Adjunto adnominal / adjunto adverbial
d) Complemento nominal / agente da passiva e) Núcleo do sujeito / modificador verbal
Exercício 6 — Vocativo e aposto
Identifique a frase que contém vocativo: a) João, venha cá agora.
B) O livro, importante para todos, será entregue.c) Maria é minha colega. d) A cidade de São Paulo é grande.
e) O professor explicava a matéria.
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Exercício 7 — Concordância verbal e nominal
Marque a alternativa correta quanto à concordância: a) Fui eu que fizemos o trabalho.
b) Somos nós que fazemos o trabalho. c) Fomos eu que fez o trabalho.
d) Sou eu que fizemos o trabalho. e) Somos nós que fez o trabalho.
Exercício 8 — Regência verbal
Assinale a alternativa com regência verbal correta: a) Assistiu o filme ontem.
b) Aspirava o cargo de diretor. c) Neguei-o a informação.
d) Implorei por favor. e) Prefiro mais estudar do que trabalhar.
Exercício 9 — Colocação pronominal
Em qual alternativa a colocação pronominial está absolutamente correta segundo a norma culta? a) Me disseram a verdade.
b) Não me disseram a verdade. c) Diziam-me a verdade sempre.
p)d) A verdade me disseram. e) Me a disseram.
Exercício 10 — Crase e partículas de ligação
Assinale a alternativa com crase corretamente empregada: a) Fui à feira sem comprar nada.
b) Refiro-me à sua proposta com respeito. c) cheguei à meia-noite.
d) Dê os parabéns à ela. e) Vou à pé todos os dias.
Gabarito comentado
Ex 1 — Alternativa D. "Vende-se casa" é voz passiva sintética com partícula apassivadora. O sujeito é "casa". As outras alternativas têm erros clássicos: "Fazem dois anos" — verbo impessoal, sujeito inexistente; "É necessária paciência" — sujeito "paciência"; "Choveu" — impessoal, sujeito inexistente. Ex 2 — Núcleo do predicado: "estudaram". Predicado verbal, núcleo no verbo. Erro comum: confundir com predicado nominal quando há verbo de ligação. "Estudaram" é verbo significativo, não de ligação.
Ex 3 — Alternativa A. "o documento" = OD direto (sem preposição). "ao diretor" = OO indireto (com preposição "a"). Muitos alunos erram por achar que "diretor" é sujeito, mas o sujeito é indeterminado aqui. Ex 4 — Alternativa B. "medo de cães" — "de cães" é complemento nominal (relação de reciprocidade: o medo é dos cães). "pelo governo" — agente da passiva. A diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal é sutil: CN complemente verbo/substantivo abstrato, AA modifica substantivo concreto.
Ex 5 — Alternativa C. "novo de João" — adjunto adnominal (característica + posse). "na livraria antiga" — adjunto adverbial de lugar. O erro frequente é chamar "de João" de complemento nominal, quando na verdade indica posse, logo, adjunto adnominal. Ex 6 — Alternativa A. "João" é vocativo (termo independente que invoca o interlocutor). As outras alternativas contêm aposto ("O livro, importante..."), sujeito simples, etc. A regra prática: vocativo sempre isolado por vírgula e pode ser trocado por "Ó + nome".
Ex 7 — Alternativa B. "Somos nós que fazemos" — concordância com o pronome relativo. Quando o relativo "que" retoma pronome pessoal, o verbo pode concordar com ele ou com o antecedente. A forma "somos nós que fazemos" é a mais aceita na norma padrão. Ex 8 — Alternativa B. "Aspirava o cargo" — verbo aspirar no sentido de "pretender" é transitivo direto. "Assistir o filme" deveria ser "assistir ao filme" (VTI). "Neguei-o a informação" — correta, mas menos usual. A armadilha está em C: "neguei a informação" seria mais claro.
Ex 9 — Alternativa B. "Não me disseram a verdade" — pronome átono após advérbio de negação. Regra prática: após "não", "nunca", "jamais", o pronome vem depois do verbo. As outras alternativas violam a regla de ênclise e próclise. Ex 10 — Alternativa A. "à feira" — crase antes de palavra feminina determinada. "à ela" (alternativa D) está errado porque não há crase antes de pronome pessoal. "à pé" (E) está errado porque "pé" não recebe crase. "Refiro-me à" (B) — crase antes de pronome demonstrativo é opcional, mas a norma prefiere sem crase. "cheguei à meia-noite" (C) — crase antes de hora é polêmico; a maioria das gramáticas não aceita.
Problema real que encontrei em sala
Na correção de redações, um aluno escreveu: "Havia muitos problemas a serem resolvidos." Pedi que circulassem o sujeito. Ele circulou "muitos problemas" e disse que era sujeito paciente. Eu corrigi: verbo haver no sentido de existir é impessoal, não há sujeito. Ele não aceitou, citando uma apostila que ensinava "sujeito oculto". A apostila estava errada. Desde então, recomendo sempre conferir a fonte — muitos materiais didáticos replicam erros sem validação crítica.
O que funciona melhor para fixing esses conceitos
Análise sintática não se aprende decorando tabelas. Funciona assim: pegue um texto real, sublinha os verbos, identifica os núcleos, pergunta "quem pratica a ação?", "o que sofre a ação?". Em duas semanas de prática diária, o aluno passa a ver a estrutura naturalmente. O gabarito acima cobre os pontos que mais caem, mas a fixação vem da repetição com texts autênticos — notícias, contos, crônicas. Nada substitui isso. Se quiser mais exercícios ou quiser que eu elaborate uma lista focada em algum tópico específico (como concordância ou regência), é só avisar. A análise sintática é um hábito, não um conteúdo de decoreba.