A confusão mais comum na sismologia prática
Magnitude e intensidade são duas coisas completamente diferentes, e praticamente todo mundo que trabalha na área leva tempo até parar de tratar como sinônimos. A diferença não é apenas semântica; ela muda completamente como você analisa um evento e como comunica os riscos para a população. A magnitude mede a energia liberada no foco do terremoto. É um valor único por evento. O que a maioria das pessoas conhece é a escala de Richter, mas essa escala na verdade só funciona para sismos pequenos e rasos na Califórnia. O que se usa hoje em dia é a magnitude de momento (Mw), calculada a partir da área de ruptura, do deslocamento médio e da rigidez das rochas. O que a escala diz, literalmente, é: quanta energia esse sismo gerou. Um sismo de magnitude 6 libera aproximadamente 32 vezes mais energia que um de magnitude 5. Isso é uma escala logarítmica, não linear. Então um 7 não é "um pouco mais forte" que um 6.
Como explique a diferença entre magnitude e intensidade de um terremoto na prática
A intensidade, por outro lado, não é uma propriedade do sismo em si. É o que aquele sismo provoca em um local específico. A escala mais usada é a Mercalli modificada (MMI), que vai de I a XII e se baseia em observações: coisas que caem, trincas no solo, reações das pessoas, danos a construções. A intensidade varia de lugar para lugar dependendo da distância do epicentro, da profundidade do hipocentro, do tipo de solo, da qualidade das construções. Um mesmo terremoto pode ter intensidade VII em uma cidade e intensidade III a cem quilômetros de distância. Isso significa que magnitude e intensidade têm uma relação, mas não são proporcionais de forma simples. Um sismo raso de magnitude 5,5 numa região com solo mole pode causar mais danos que um de magnitude 6,5 numa zona de rocha cristalina e construções bem reforçadas.
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Já vi isso acontecer na prática de uma forma que quebrou bastante a cabeça da equipe em que eu trabalhava. Tivemos um sismo de magnitude 5,8 no interior de São Paulo, perto de uma cidade com muitas construções antigas de alvenaria não armadada em solo aluvionar. A magnitude parecia moderada, nada de outro mundo. Mas as intensidades registradas em algumas ruas chegaram a VIII na escala Mercalli. O problema era que os instrumentos sismográficos mais próximos tinham saturado e não estavam dando conta de capturar a resposta de frequência correta do solo local. A gente precisou refazer a análise usando registros de acelerógrafos de edifícios vizinhos e questionários sistemáticos de campo para mapear a variabilidade espacial da intensidade. Se a gente tivesse confiado só na magnitude, teria subestimado completamente o risco naquela área. Outro ponto que as pessoas quase sempre erram: magnitude não se esgota. Um sismo de magnitude 7 é o mesmo valor independentemente de onde você o meça. Mas a intensidade depende do local e diminui com a distância, normalmente seguindo uma lei de decaimento que é afetada pela atenuação das ondas sísmicas no caminho. Em regiões com crosta muito fraturada, como o leste dos Estados Unidos, as ondas viajam mais longe e você pode sentir intensidade significativa a centenas de quilômetros do epicentro. No oeste dos EUA, com crosta mais heterogênea, a atenuação é muito mais rápida.
Tem também a questão da profundidade. Sismos muito profundos, acima de quinhentos quilômetros, podem ter magnitudes altas e causar intensidades muito baixas na superfície. O Japão registra esses eventos frequentemente e, embora a magnitude seja impressionante, o dano potencial é quase zero porque a energia se dissipa no trajeto. Já um sismo rasa de apenas magnitude 4,5, se acontecer debaixo de uma área urbana densa, pode gerar intensidade suficiente para trincas em paredes e sustos generalizados. A limitação mais séria da intensidade Mercalli é que ela depende de observação humana e de existência de construções. Em regiões desabitadas ou oceânicas, você pode ter um sismo enorme com intensidade praticamente indeterminável porque não há nada ali para observar. Nesses casos, a magnitude é a única medida confiável. E a magnitude de momento, por sua vez, precisa de dados de campo suficientes para calcular a área de ruptura com precisão. Em sismos muito antigos, sem registros instrumentais, a gente recorre à paleossismologia, que é muito mais incerta.
O que eu recomendo sempre é: use os dois valores junto. Magnitude para entender a energia do evento, intensidade para entender o impacto real em cada lugar. Se você ver um boletim sismológico falando só em magnitude, já sabe que falta a outra metade da informação.