O filme de Zhang Yimou que todo mundo recomenda mas poucos analisam direito
Ninguém a Menos é o terceiro longa-metragem de Zhang Yimou, lançado em 1999, e foi o responsável por dar a ele seu primeiro Leão de Ouro em Veneza. O filme segue Wei Minzhi, uma professora substituta de 13 anos numa aldeia rural da província de Shaanxi, que recebe a ordem do diretor da escola de não perder nenhum aluno. Quando o menino Zhang Huike vai embora em busca do pai que trabalha na cidade, ela segue ele até lá. O que é interessante nessa história não é o enredo em si, mas a construção realista que Zhang Yimou faz. Ele usou atores não profissionais em praticamente todos os papéis principais, incluindo a protagonista principal, que era uma estudante de ensino médio na época. Isso dá ao filme uma textura que atores treinados raramente alcançam.
Por que filme nenhum a menos ainda importa
O filme trabalha com um tema que parece simples à primeira vista, mas carrega camadas importantes sobre educação rural na China dos anos 90, migração interna e a pressão por matrículas escolares como política governamental. A personagem de Wei Minzhi começa como alguém que mal entende a responsabilidade que recebeu e, ao longo do filme, vai se transformando sem que isso pareça forçado. A atuação da atriz não profissional funciona justamente porque ela não está "atuando" — o que você vê é muito próximo do que ela seria na vida real. Um detalhe técnico que muita gente perde: Zhang Yimou usou iluminação natural praticamente em todas as cenas exteriores. Isso significa que muitas tomadas tiveram que ser refeitas por causa de mudanças de luz, o que explica alguns cortes bruscos no ritmo que podem parecer amadores para quem não está acostumado com cinema documental chinês da época. Na prática, isso dá ao filme uma sensação de tempo real que acaba funcionando a favor da narrativa.
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Também vale notar que o final do filme gera bastante discussão. Há uma metalinguagem ali que muitos espectadores identificam como artificial ou manipulativa, mas que na verdade é consistente com a estética do diretor. Zhang Yimou vinha de um background de cinema documental e isso transparece em escolha de enquadramentos e na forma como ele trata os personagens secundários como partes do ambiente, não como complementos da trama principal. Se você está procurando onde assistir, o filme está disponível em algumas plataformas de streaming na China e ocasionalmente aparece em seleções de festivais. Fora isso, encontra-se em versões físicas importadas com boa qualidade de imagem, já que a película original foi restaurada depois do lançamento.
Ainda tem um ponto que passa despercebido: a trilha sonora é extremamente contida. Diferente de muitos filmes chineses da mesma geração que usam música sinfônica para manipular emoção, Ninguém a Menos quase não tem partitura. O som ambiente — o vento, os pássaros, o barulho da cidade quando Wei chega em Xian — carrega grande parte do peso emocional. Isso é uma escolha deliberada de Zhang Yimou que reflete sua formação em fotografia antes de entrar na direção. Em resumo, é um filme que pede paciência. Não é cinematográfico no sentido convencional, mas é honesto na forma como retrata a realidade chinesa daquele período. Se você consegue passar pelas primeiras trinta minutos, o resto flui naturalmente.