Como identificar funções sintáticas dos pronomes relativos na prática
A maioria dos materiais didáticos explica isso de forma muito abstrata. Eu vou mostrar como funciona quando você realmente precisa fazer a análise, não apenas decorar a tabela.
Quais são as funções sintáticas dos prromes relativos
O pronome relativo retoma um termo anterior — o antecedente — e ocupa uma posição sintática dentro da oração subordinada. A função que ele exerce depende exclusivamente do papel que esse termo tinha na subordinada, nunca na principal. Isso já resolve metade dos erros que eu vejo em provas e em revisões de texto. Os pronomes relativos em português são: que, quem, onde, o qual (e flexões), cujo (e flexões), quanto (e flexões), e o que. Cada um deles se liga ao antecedente de maneira diferente. O "que" é o mais flexível. O "cujo" exige concordância. O "onde" só funciona para lugar. São regras simples, mas o jeito como elas se encadeiam na prática costuma confundir.
Chaminho direto para analisar
Toda vez que aparecer um pronome relativo, faça este passo: substitua-o pelo seu antecedente e verifique se a frase continua fazendo sentido com aquela posição. Se sim, a função sintática é aquela que o termo assumiria se fosse um sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, agente da passiva, adjunto adverbial ou predicativo. Pega um exemplo rápido. "O livro que li era interessante." Substitua "que" por "o livro": "O livro o livro lia era interessante" — isso não funciona porque a estrutura mudou. Mas "O livro eu li" faz sentido como oralidade. O pronome "que" aqui é objeto direto. A oração subordinada é "que li", e o "que" exerce a função de OD de "li".
Já em "A casa onde moramos é antiga", o "onde" retoma "a casa" e funciona como adjunto adverbial de lugar. Substituindo: "morávamos na casa". A preposição "na" revela que o pronome ocupa a posição de adjunto adverbial, não de sujeito ou objeto.
Cada pronome e sua função mais comum
O "que" pode ser sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, agente da passiva. Ele é versátil porque não traz preposição obrigatória quando funciona como sujeito ou OD. Quando entra com preposição, aí ele assume outras funções. "Que" como sujeito: "O candidato que venceu foi anunciado." Substituição: "O candidato venceu." Funciona perfeitamente. Sujeito.
"Que" como OD: "O filme que assistimos foi bom." Substituição: "assistimos o filme." OD. "Que" como OI: "O colega a que me refiro é confiável." Substituição: "me referir a ele." OI com preposição "a".
O "quem" só funciona para pessoas e sempre exige preposição. Ele exerce função de sujeito, OD, OI ou complemento nominal, dependendo da regência do verbo. "A pessoa com quem falei é médica." Preposição "com" indica que "quem" é complemento instrumental/adjunto adverbial de instrumento, na prática. O "onde" é o mais restrito. Só funciona como adjunto adverbial de lugar. Muitas pessoas erram usando "onde" para tempo ou situação abstrata. "O período em que estudamos" está correto. "O período onde estudamos" é erro grave. Lembre-se: onde = em lugar físico.
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O "cujo" é o que mais gera reclamação nos correios. Ele nunca aceita artigo depois. "Cujo" significa "de quem" e concorda em gênero e número com o substantivo que vem depois, não com o antecedente. "A autora cujo livro vencê o prêmio" — errado. O certo é "cujo livro venceu o prêmio". "Livro" é masculino singular, então "cujo" também. Se fosse "a autora cuja obra venceu", aí "cuja" porque "obra" é feminino. O "quanto" combina com "tudo" e funciona como pronome relativo de coisa. "Tudo quanto sei vem dele." Equivale a "que" mas só após "tudo".
O problema que todo mundo encontra e a solução que eu uso
Na prática, o maior bicho-papão é distinguir quando o "que" é pronome relativo e quando é partícula apassivadora ou índice de indeterminação do sujeito. Isso parece teoria pura, mas aparece em revisão textual todo dia. Eu tenho um caso específico que lembro até hoje. Revisava um texto jornalístico e aparecia: "Os processos que tramitam no Tribunal Regional foram suspensos." Minha primeira leitura automática marcou "que" como sujeito. Mas aí fiz o teste da substituição por sinônimo: "Os processos os quais tramitam..." soou estranho. Troquei por "aqueles que tramitam". Aí encaixou. O "que" ali era sim pronome relativo, sujeito de "tramitam". A dificuldade veio porque o verbo estava no plural e o antecedente também, então a concordância não me dava nenhuma dica visual. Se o verbo estivesse no singular, eu teria confundido com partícula apassivadora. A solução foi sempre fazer a expansão com "o qual/a qual/os quais" — se funcionar, é pronome relativo. Se não funcionar, é outra coisa.
Esse teste de expansão leva cerca de 10 segundos e evita 90% dos erros de identificação. Eu recomendo aplicar sempre, mesmo quando a solução parece óbvia.
Pegadinhas avançadas que material didático não mostra
Uma coisa que pouco se discute: a crase antes do pronome relativo. "A rua a que cheguei" tem crase porque o verbo "chegar" exige preposição "a" e o termo regido é feminino singular ("a rua"). Já "A rua que cheguei" também é aceitável emregistros informais, mas a norma culta prefere a forma com preposição explícita quando há ambiguidade. Outro ponto: o pronome relativo pode vir separado do verbo por um advérbio. "O motivo pelo qual claramente não concordo é diferente." O "pelo qual" continua sendo complemento nominal, mesmo isolado do verbo "concordo" pelo advérbio "claramente". Não deixe isso te enganar na hora de identificar a função.
Há ainda o caso do "que" que funciona como sujeito mas vem anteposto ao verbo emoração coordenada. "Ele pediu ajuda, e ninguém que ele conhecesse respondeu." Aqui "que" é sujeito de "conhecesse", e a oração inteira "que ele conhecesse" é adjunto adnominal de "ninguém". Duas camadas de subordinação num só trecho. Isso confunde muita gente porque o "ele" parece ser o sujeito, mas na verdade é o objeto de "conhecesse", e "que" é o sujeito.
Quando a análise falha e o que fazer
Nem sempre dá para identificar a função apenas substituindo. Quando o pronome relativo aparece em orações reduzidas de infinitivo, ou quando há elipse do verbo, a cosa fica mais complicada. Nesses casos, o melhor é reescrever a oração subordinada de forma completa, explicitando o verbo e os termos implícitos. Isso transforma uma análise ambígua em uma análise direta. Também vale notar que o "cujo" não pode ser usado como sujeito de oração subordinada adjetiva restritiva quando o antecedente é pronome pessoal. "Eu, cujo livro..." soa estranho porque o "cujo" exige um antecedente nominal claro. Prefira "eu, que publiquei o livro..." nessas situações. É mais natural e evita qualquer discussão sobre a função sintática.
A regra geral permanece: identifique o antecedente, substitua o pronome pelo antecedente na subordinada, verifique a função que o termo assume. Se ainda restar dúvida, expanda com "o qual/a qual/os quais/as quais". Funciona na grande maioria dos casos, exceto quando o pronome é "onde", "cujo" ou "quanto", que têm comportamentos próprios e previsíveis.