Globalização Segundo Milton Santos - GLOBALIZAÇÃO SEGUNDO MILTON SANTOS
GLOBALIZAÇÃO SEGUNDO MILTON SANTOS

O que é a globalização segundo Milton Santos

A abordagem de Milton Santos sobre globalização não segue o senso comum que aparece em livros didáticos. Ele construiu uma teoria específica, diferente das correntes dominantes, analisando como o espaço geográfico se transforma quando os fluxos globais se intensificam.

globalização segundo milton santos

Santos distinguia duas fases na evolução do sistema-mundo. A primeira, chamada de globalidade, corresponde ao momento em que as conexões internacionais ainda são assintéticas. Ou seja, os elementos globais coexistem sem se integrarem de fato. Você observa isso em cidades brasileiras onde torres de telecomunicação convizam com comunidades que vivem à revelia da internet banda larga. A segunda fase, a sistemática, surge quando os meios técnicos passam a circular em rede e o espaço se reconfigura por inteiro. É aqui que a coisa fica interessante, porque muita gente confunde simplesmente com modernização ou desenvolvimento. Não é. Santos dizia que a globalização sistemática cria uma topologia específica: alguns pontos da superfície terrestre se tornam nodos críticos, enquanto vastas regiões ficam em desuso relativo.

Eu me lembro de uma pesquisa de campo em 2013 no Agreste pernambucano. Tínhamos que mapear a infraestrutura de fibra óptica e perceber algo que os modelos teóricos ignoravam: a rede existia, mas o acesso era seletivo. Empresas de logística tinham conectividade de primeira linha, enquanto cooperativeiras agrícolas dependiam de rádio enlace que falhava com chuva forte. O espaço não era homogêneo, mesmo quando os cabos cruzavam o mesmo município.

Como aplicar essa análise na prática

O método de Santos exige que você observe o espaço geográfico em três camadas. Primeiro, os meios técnicos tradicionais: estradas, portos, ferrovias. Depois, os meios técnicos modernos: telecomunicações, data centers, redes de distribuição digital. Por fim, a camada dos fluxos: capitais, informações, mercadorias, pessoas. Um erro comum é analisar apenas a presença física da infraestrutura. Eu já vi relatórios que listavam torres de celular por quilômetro quadrado e concluíam que a região estava conectada. A torre existia, mas o sinal não chegava às comunidades ribeirinhas porque o relevo bloqueava a propagação. Ou então a tarifa era tão alta que os moradores preferiam usar telefone fixo comunitário.

A chave é cross-tabular dados de infraestrutura com dados de uso real. Pegue levantamentos do Caged, consulte pesquisas do IBGE sobre acesso a internet, cruze com mapas de rede de energia e transporte. Quando você faz essa triangulação, percebe que a globalização não é um fenômeno binário. Ou existe, ou não existe. Ela é gradual, descontínua, e varia dentro de uma mesma área urbana.

Pontas soltas e limitações da abordagem

A teoria de Santos tem pontos que a literatura subsequente questionou. Um deles é o carácter determinista dos meios técnicos. Alguns autores argumentam que a tecnologia não determina sozinha a reconfiguração espacial. As relações de poder, os interesses corporativos, as políticas estatais também moldam o processo. Outra limitação é o foco excessivo no espaço físico. A globalização digital, as redes sociais, os fluxos imateriais de dados representam dimensões que Santos não acompanhou em detail. Ele faleceu em 2001, e a explosão da internet mobile e das plataformas digitais aconteceu depois.

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Se você quer uma alternativa complementar, considere a abordagem de David Harvey sobre acumulação flexível. Ou a de Manuel Castells sobre sociedade em rede. Juntas, essas perspectivas cobrem lacunas que a escola santosiana deixou abertas. Na prática, a análise de globalização segundo milton santos funciona bem para estudos regionais e municipais. Para análises globais em larga escala, você precisa combinar com dados de redes internacionais e fluxos financeiros transnacionais. O método exige tempo, acesso a bases de dados diversificadas, e paciência para lidar com informações incompletas.

O que eu aprendi depois de anos trabalhando com isso é que a teoria não substitui a observação direta. Você pode ler Santos dez vezes e ainda assim perder detalhes importantes se não sair ao campo, não conversar com atores locais, não ver como a infraestrutura funciona na prática. O espaço geográfico não é abstrato. Ele é concreto, material, e muitas vezes contraditório.

Exemplo concreto de aplicação

Vamos a um caso específico. Uma cidade do interior paulista, população cerca de 80 mil habitantes. A rede de fibra óptica havia chegado dois anos antes, anunciada como modernização. Mas ao mapear os pontos de acesso, percebi que apenas o centro urbano e o distrito industrial tinham conectividade real. As comunidades rurais, representando 40 por cento da população, ainda dependiam de rádio enlace instável. Cruzei dados do Caged com informações da Anatel, e constatei que os empregos formais concentravam-se nos setores que exigiam conectividade estável. As atividades tradicionais, agricultura familiar, comércio local de pequena escala, permaneciam em economia de subsistência relativa.

Isso não significa que a globalização não havia chegado. Significa que ela havia chegado de forma desigual, criando divisões internas que os mapas oficiais ignoravam. Santos chamava isso de divisão interna do espaço. Eu prefiro chamar de fragmentação seletiva, porque captura melhor a natureza descontínua do fenômeno.

Quando a abordagem não funciona

Existem cenários em que a análise de globalização segundo milton santos perde utilidade. Regiões com infraestrutura quase inexistente, como algumas áreas da Amazônia legal, podem exigir abordagens diferentes. A teoria pressupõe a presença de meios técnicos, mesmo que desiguais. Quando eles simplesmente não existem, a análise perde o eixo. Também não funciona bem para estudos de fluxos puramente imateriais, como mercados financeiros de alta frequência ou redes de criptomoedas. Nesse caso, a dimensão espacial é secundária, e outras abordagens, como as de Gilles Deleuze sobre sociedade de controle, podem ser mais pertinentes.

O que recomendo é usar a teoria de Santos como ponto de partida, não como destino. Combine com dados empíricos, valide com observação de campo, e esteja preparado para ajustar o quadro teórico quando a realidade mostrar suas contradições. O espaço geográfico é maleável, e as teorias precisam ser igualmente flexíveis.

Referências básicas para aprofundamento

Os livros principais de Milton Santos sobre o tema incluem A Natureza do Espaço, Tecnosfera, Espaço e Método, e A Globalização do Brasil. Cada um aborda aspectos diferentes, e a leitura sequencial ajuda a construir uma compreensão sólida. Para aplicações práticas, consulte artigos de autores como Edna Dias Canclini e Carlos Alberto Zarur Ricupero, que trabalham com o legado santosiano em contextos brasileiros específicos.