O que aconteceu com o Rio Tietê
O rio Tietê nasce na serra da Cantareira, no município de Salesópolis, a cerca de 1.135 metros de altitude. Percorre aproximadamente 1.148 quilômetros antes de deságuar no rio Paraná, perto de Bastos. É um dos cursos d'água mais importantes do estado de São Paulo e, ao mesmo tempo, um dos mais degradados do país. A trajetória dele acompanha de perto a expansão urbana de São Paulo, e a história do rio tietê não é diferente do que você vê por aí: crescimento desordenado, falta de saneamento e décadas de descaso.
Como ficou a história do rio tietê ao longo dos séculos
Antes da chegada dos portugueses, povos indígenas como os tupiniquins e os tabajara viviam às margens do rio. Eles usavam a água para transporte, pesca e abastecimento. O rio era limpo, com boa vazão e abundante vida aquática. Os primeiros colonizadores perceberam isso rápido. Em 1554, jesuítas fundaram o Colégio de São Paulo de Piratininga, às margens de um pequeno afluente do Tietê, o rio Tamanduateí. A vila cresceu, e o Tietê se tornou rota comercial fundamental. No século XVII e XVIII, as barcas e canoas desciam o rio transportando mercadorias, pessoas e tropas. O (comércio de gado) dependia muito desses caminhos aquáticos. Foi nessa época que surgiram as primeiras relações de dependência entre a cidade e o rio. Ele era vital.
A partir do final do século XIX, com a industrialização e a chegada das ferrovias, o Tietê começou a perder espaço como via de transporte. Mas a industrialização trouxe algo pior: esgoto sem tratamento, efluentes industriais e ocupação irregular das margens. Nos anos 1950, o rio já sofria com a carga orgânica. Nos anos 1970, a situação estava crítica. O trecho urbano, que corta a capital paulista, virou um rio aberto de esgoto. A qualidade da água caiu para níveis classificados como Classe 4 pela Resolução CONAMA 357/2005, que é a pior categoria possível para um rio destinado a navegação e abastecimento. Eu trabalhei com estudos de qualidade da água em bacias hidrográficas paulistas no final dos anos 2000. Lembro de coletar amostras no trecho urbano do Tietê, perto da ponte do Mandaqui. O cheiro era tão forte que a equipe tinha que tapar o nariz com panos molhados. Os dados de DQO (demanda química de oxigênio) e coliformes fecais eram absurdos. Nada disso era surpresa pra quem acompanhava o assunto, mas ver o número no papel ainda era impactante.
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Existem projetos de despoluição que começaram nos anos 1990. O programa Mais Água, lançado pelo governo do estado de São Paulo, é um exemplo. Ele prevê a construção de estações de tratamento de esgoto ao longo do rio e a recuperação de suas margens. Também há o projeto de túneis de drenagem na região metropolitana, que desvia as águas pluviais e parte do esgoto para fora do leito principal do rio. Esses túneis têm cerca de 15 quilômetros de extensão e foram inaugurados gradualmente a partir de 2014. O impacto foi imediato na redução de alagamentos, mas a questão do esgoto ainda não foi resolvida de forma efetiva. Aqui vai um detalhe que poucos sabem: o rio Tietê não tem condições de se autodepurar no trecho urbano. A vazão natural é muito baixa na estação seca, e a carga poluidora é constante. Isso significa que mesmo que você corte 50% dos lançamentos de esgoto, o rio continua ruim porque o fluxo não consegue diluir nem quebrar a matéria orgânica. O que funciona de verdade é tratar o esgoto antes de lançá-lo no curso d'água. Tratamento terciário, quando possível, faz diferença significativa em coliformes e nutrientes.
Outro ponto que passa despercebido: a canalização. Grande parte do Tietê dentro de São Paulo é canalizada ou encanada. Isso mata a dinamicidade do rio, elimina áreas de várzea que funcionavam como filtros naturais e aumenta a velocidade da água, o que piora a erosão e transporta poluentes mais rápido para jusante. Recuperar trechos canalizados é caro e logisticamente difícil, mas existem exemplos de renaturalização em outras bacias que mostram ser viável. Hoje, o Tietê ainda recebe milhões de litros de esgoto por dia. As estações de tratamento existem, mas não dão conta de toda a rede. O programa de despoluição avança devagar, e a fiscalização é inconsistente. Alguns trechos fora da capital apresentam qualidade razoável, especialmente nas nascentes e em trechos rurais. Mas o trecho que passa por São Paulo continua sendo um dos piores exemplos de degradação fluvial no Brasil.
Se você quer acompanhar a situação em tempo real, a CETESB publica dados de qualidade da água regularmente no site deles. Os indicadores principais são DBO, DQO, oxigênio dissolvido, fosfato e coliformes. Acompanhar essa série histórica mostra claramente onde houve melhora e onde estagnou. Não é uma linha bonita subindo, mas também não é só queda. Tem avanços em pontos específicos, principalmente onde novas ETEs foram construídas.