HISTÓRIA DO TÊNIS NO BRASIL - martinsfontespaulista
Como o tênis entrou no Brasil e não saiu mais
O tênis chegou ao Brasil entre 1880 e 1890, trazido por imigrantes europeus e por brasileiros que tinham dinheiro para viajar para a Europa ou para a África do Sul, onde o esporte já estava institucionalizado. Os primeiros clubes foram criados em São Paulo e no Rio de Janeiro, e a prática era restrita a uma pequena elite. Isso durou décadas. O que muitos não sabem é que a história do tênis no Brasil não começa com grandes nomes de atletas, mas sim com a construção de espaços sociais onde o esporte servia como marca de distinção de classe.
Os clubes que surgiram nesse período, como o Tênis Clube de São Paulo e o São Paulo Tênis Clube, tinham quadras de saibro vermelho que exigiam manutenção constante devido ao clima quente e úmido. Quem já tentou cuidar de uma quadra de saibro sabe que isso não é tarefa simples. A drenagem precisa ser perfeita, e se chover forte por dois dias seguidos, a quadra fica impraticável por uma semana. Em São Paulo, por exemplo, o volume de chuva no verão pode destruir uma camada de saibro nova em questão de horas se o sistema de drenagem for qualquer coisa menos que decente. Eu já vi quadras sendo refeitas três vezes no mesmo ano porque o clube economizou na camada de base.
A dificuldade de encontrar onde jogar e o custo real
A maioria das quadras públicas no Brasil é insuficiente e mal conservada. O que existe de melhor está em clubes privados, e entrar neles significa pagar anuidades que variam de quinze mil a mais de cem mil reais por ano, dependendo do clube e da cidade. Isso cria uma barreira estrutural que explica em parte por que o tênis brasileiro nunca decolou em larga escala. Mesmo assim, nos últimos anos, algumas prefeituras têm investido em quadras abertas à população, especialmente em capitais como Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis, onde o acesso é um pouco mais viável.
Nos anos 1960, o tênis começou a ganhar visibilidade porque o Brasil passou a enviar jogadores para competições internacionais com mais frequência. Cássio Motta foi uma figura importante nesse processo. Ele não era o maior nome da história do tênis brasileiro, mas ajudou a mostrar que o país podia competir em bases profissionais. Mais tarde, Gustavo Kuerten levou o tênis brasileiro ao topo do mundo ao vencer três Abertos da França entre 1997 e 2001. O efeito disso foi enorme: a procura por aulas e por quadras disparou, e milhares de pessoas começaram a jogar tênis pela primeira vez na vida.
O que poucas pessoas percebem é que o saibro brasileiro é diferente do saibro europeu. A granulometria da pedra, a composição da areia e a forma como ela é aplicada variam bastante. Quadras no sul do Brasil, como em Porto Alegre, tendem a ter uma camada mais fina e mais rápida, enquanto no sudeste, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, o saibro costuma ser mais lento e mais poeirento. Se você treina em uma e vai jogar em outra, o jogo muda completamente. A bola também se comporta de forma distinta conforme a altitude. Em São Paulo, que fica a cerca de 800 metros acima do nível do mar, a bola viaja mais rápido do que no Rio de Janeiro, que está praticamente ao nível do mar. Eu já perdi jogos porque não ajustei minha pega de raquete quando mudei de cidade, e isso é um erro comum entre amadores que viajam muito.
O que a história do tênis no Brasil revela sobre investimento esportivo
Um ponto importante é que o tênis no Brasil nunca recebeu o tipo de investimento estatal que outros esportes recebem. Futebol, voleibol e até mesmo luta livre tiveram estruturas de apoio muito mais sólidas. O tênis depende quase que exclusivamente de iniciativa privada, o que significa que o desenvolvimento de atletas segue o ritmo do bolso dos pais e não o de uma política pública consistente. Isso gera um gargalo: jogadores que chegam a níveis competitivos internacionais muitas vezes chegam lá com poucos anos de estrutura profissional atrás, o que limita seu teto de evolução.
Outro aspecto que ninguém menciona com frequência é a questão das bolas. Bolas de tênis no Brasil têm shelf life curto porque o clima quente e úmido acelera a perda de pressão interna. Uma caixa de bolas que na Europa dura dois meses aqui dura talvez seis semanas, e em regiões mais quentes como Belém ou Manaus, o tempo pode cair para quatro semanas. Isso encarece o treinamento, especialmente para clubes que compram bolas em quantidade. A solução que eu vi funcionar em vários lugares é armazenar as bolas em sacos selados dentro de embalagens originais, fora da luz direta e em ambiente com pouca variação de temperatura. Não resolve tudo, mas ajuda a estender a vida útil em cerca de quinze a vinte por cento.
Apesar de todas essas limitações, o tênis brasileiro tem conseguido resultados isolados importantes. Além de Kuerten, quem assistiu aos anos 2000 se lembra de André Sá e Jaime Oncins competindo em duplas nos torneios do Grand Slam. Mais recentemente, Laura Pigossi e Luisa Stefani apareceram com regularidade no circuito feminino de duplas, e Gabriela Puglisi, embora seja mais conhecida como influenciadora, ajudou a popularizar o esporte nas redes sociais, o que atraiu um público que provavelmente jamais entraria num clube de tênis tradicional.
O que fica é que a história do tênis no Brasil é uma história de resistência contra estrutura precária. O esporte cresceu sem apoio robusto do Estado, dependeu de clubes elitizados, lidou com climas adversos para as quadras e ainda assim produziu jogadores que chegaram ao topo do ranking mundial. Isso não significa que o cenário atual seja ideal, mas mostra que é possível avançar mesmo com poucos recursos, desde que haja vontade de investir em formação técnica e em infraestrutura de base. A próxima geração precisa de quadras acessíveis, treinadores bem preparados e um circuito nacional que permita aos jogadores ganhar experiência competitiva sem depender exclusivamente de títulos no exterior.