Instrumento Musical Afro Brasileira - Atividades de instrumentos musicais da cultura Afro-Brasileira para ...
Atividades de instrumentos musicais da cultura Afro-Brasileira para ...

Instrumentos de origem africana na música brasileira na prática

Muita gente fala em instrumentos afro-brasileiros como se fosse um bloco só. Não é. A bateria de samba, o maracatu, o capoeira, cada tradição tem sua lógica própria, e os instrumentos não funcionam da mesma forma em nenhum desses contextos. Se você tentar tocar um tan-tan de maracatu com a técnica de surdo de escola de samba, simplesmente não vai dar certo. Antes de qualquer coisa, preciso deixar claro que o termo instrumento musical afro brasileira se refere a uma série de percussões trazidas por populações escravizadas e que se adaptaram ao território brasileiro de maneiras completamente diferentes dependendo da região e da tradição. O que eu vou abordar aqui são os mais relevantes no uso cotidiano de músicos profissionais.

Conhecendo o instrumento musical afro brasileira

O termo abrange na verdade um conjunto de instrumentos. Os mais centrais são o tan-tan, o repinique, o surdo, oagogô, a cuíca e o tambor-de-crioula. Cada um com sua construção específica. O tan-tan de maracatu, por exemplo, é feito de madeira entalhada de árvores como jacarandá ou ipê, com pele de couro cru pregada ou amarrada. O afino depende da tensão das cordas ou tachas, e isso muda drasticamente com a umidade. Eu já passei o dia inteiro ajustando um tan-tan num ensaio externo porque a temperatura caiu 8 graus em duas horas e o couro contraiu demais. A solução foi levar um pano úmido e cobrir a pele por alguns minutos antes de afinar, e só então apertar as tensões restantes. Sem esse truque, o instrumento fica praticamente intratável. Já o surdo de escola de samba é outra história completamente diferente. Ele é de fibra ou alumínio, com pele sintética, e responde muito mais rápido às mudanças climáticas. O problema comum aqui é que iniciantes acham que o surdo serve só para marcar o tempo grave. Na prática, o surdo de cutoff e o surdo de resposta têm funções rítmicas distintas dentro da bateria. O de cutoff marca a batida seca no segundo tempo, enquanto o de resposta faz as variações e contra-tempos que dão o balanço. Misturar esses dois papéis é o erro mais frequente que eu vejo em gravações amadoras.

Cuicada: o instrumento que todo mundo acha fácil e não é

A cuíca tem uma fama injusta. As pessoas ouvem o som característico e pensam que é apenas esfregar o bastão com a corda. A técnica correta envolve usar a mão livre dentro do reservatório de ar do instrumento para modular a tensão da pele interna. Sem essa manobra, o som fica achatado e sem definição. Eu já vi músicos profissionais tocando cuíca sem modulação interna e o resultado era basicamente um barulho constante, sem os acentos e silêncios que o gênero pede. O acabamento da cuíca também importa muito. A cola usada na pele, a espessura do bastão, o material da corda — tudo isso altera o timbre de forma perceptível. Cuícas baratas, feitas com cola sintética e pele curtida industrialmente, tendem a emperrar com frequência e exigem manutenção constante. Recomendo investir em uma peça de fabricante regional conhecido, mesmo que o preço seja mais alto. A relação custo-benefício compensa porque você gasta menos tempo em ajustes e mais tempo tocando.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Agogô e repinique: detalhes que fazem diferença

O agogô é formado por dois ou mais sinos metálicos unidos por uma haste. A diferença entre eles é que o menor toca a nota mais alta e o maior a mais grave, e a sequência rítmica padrão do candomblé e do samba exige padrões específicos que variam conforme o terreiro ou a escola. O erro comum é tocar sempre o mesmo padrão fixo, ignorando que cada contexto ritual ou musical pede variações. Eu já tive que regravar uma parte de agogô inteira porque o baterista não reconheceu que a seqüência do candomblé angola é diferente da do jurema, e isso muda completamente a feel da música. O repinique de comando, usado nas escolas de samba, exige técnicas específicas de execução. Ele não é apenas um tambor agudo. O toque de marcha, o toque de enredo, o toque de abertura — cada um tem padrões de baqueta e mão diferenciados. Iniciantes costumam tratar o repinique como um tambor genérico e acabam soando fora do contexto. A prática recomendada é estudar os manuais de cada escola, que estão disponíveis em DVDs e canais especializados, e treinar com metrônomo em andamentos variados, começando em 90 bpm e subindo gradualmente até 140 bpm para o repinique de marcha.

Problemas práticos que ninguém conta

Um dos maiores problemas com instrumentos afro-brasileiros é a disponibilidade de peças de reposição. Pele de couro natural, por exemplo, não se encontra facilmente em muitas cidades do interior. A alternativa é usar pele sintética, mas isso muda o timbre e a resposta do instrumento. No caso do tan-tan, a pele sintética funciona bem para ensaios e apresentações externas, mas para gravação de estúdio o couro natural ainda é preferível por dar mais corpo ao ataque inicial. Outro problema real é a sustentabilidade. Espécies como o jacarandá-da-bahia estão na lista de ameaçadas, e muitos fabricantes passaram a usar madeiras substitutas ou madeira de reflorestamento. Isso não é necessariamente ruim, mas exige que o músico verifique a procedência do instrumento antes de comprar. Instrumentos feitos com madeira inadequada podem empenar com o tempo e perder o afinamento.

Quando usar cada instrumento e quando não usar

Nem todo instrumento afro-brasileiro funciona em qualquer contexto. O tan-tan, por exemplo, tem um volume muito alto e uma projeção que não se adapta bem a espaços fechados pequenos. Em um estúdio acústico mal tratado, o tan-tan vai dominar a mixagem e drowning outros instrumentos. Nesses casos, o ideal é usar microfones de condensador com padrão cardióide posicionados a cerca de 15 centímetros da pele, com filter de cut em 200 Hz para reduzir o excesso de graves. O surdo, por outro lado, funciona razoavelmente bem em pequenos espaços, desde que você use damping com travesseiros ou toalhas dobradas nos laterais. Isso reduz o sustain natural do instrumento sem eliminar completamente o corpo do som. Em gravações ao vivo, essa técnica economiza tempo de mixagem e evita a necessidade de processamento pesado posterior.

Considerações finais sobre aprendizado e prática

Aprender instrumentos afro-brasileiros leva tempo. Não existe atalho. A maioria dos músicos que domino esse repertório levou de três a cinco anos de prática consistente para desenvolver independência rítmica adequada. O caminho mais eficiente é estudar com professores que tenham formação tradicional, seja em escola de samba, em terreiro de candomblé ou em grupo de maracatu. Aulas online podem complementar, mas não substituem a correção presencial de postura e técnica de execução. Se você está começando, foque em um instrumento de cada vez. Tentar dominar surdo, tan-tan e cuíca simultaneamente é uma receita para desenvolver vícios que depois são difíceis de corrigir. Escolha um, domine o básico com repertório próprio, e só então avance para o próximo. Esse método, apesar de parecer lento, reduz o tempo total de aprendizado em pelo menos 40% comparado a tentar aprender tudo ao mesmo tempo.