Uma olhada prática nos instrumentos de matriz africana no Brasil
Os instrumentos de matriz africana estão presentes no cotidiano de muita gente, mas raramente as pessoas param para pensar na estrutura por trás deles. O que separa um instrumento como o berimbau de qualquer outro objeto musical é basicamente a forma como a vibração é produzida e amplificada. No caso do berimbau, é uma corda tensionada sobre um cavalete móvel, com uma cabaça presa na base que serve de ressonador. Parece simples, mas é exatamente essa simplicidade que causa confusão para iniciantes. Muita gente acha que qualquer percussionista já nasce sabendo tocar. Na prática, o passo mais difícil não é o ritmo em si, mas o controle da tensão da corda. A mão esquerda no berimbau faz toda a diferença. Eu tive um problema específico comigo quando tentei aprender o toque de angola: eu apertava o moedinha demais e o som ficava abafado, sem aquele sustain característico. A solução foi mais ou menos essa: usar uma moeda de cinqüenta centavos, colocar entre os dedos indicador e médio da mão esquerda, e ajustar a pressão conforme o momento da música. Se você aperta forte no início da frase e alivia no final, o berimbau responde quase como uma voz.
Por que instrumentos de matriz africana são tão diferentes dos ocidentais?
A principal diferença está na concepção de escala e timing. Instrumentos ocidentais geralmente seguem uma grade fixa de notas, enquanto a maioria dos instrumentos de matriz africana funciona com microtons e variações que não cabem num piano tradicional. O violão africano, por exemplo, não tem trastes. Isso permite que você deslize entre notas de uma forma que seria impossível numa guitarra com captadores magnéticos. O mesmo vale para os tambores. Um pandeiro tradicional brasileiro tem as dobrinhas metálicas presas com cola e pregos finos. Quando a umidade sobe acima de 70%, a couro estica de forma desigual e o pandeiro começa a cantar falso em certas posições. A solução que eu descobri foi aplicar uma camada fina de silicone transparente nas dobrinhas antes de costurá-las de volta, o que reduz o atrito e mantém a sensibilidade mesmo em condições úmidas.
Outra coisa que pouca gente menciona é a questão dos materiais. Instrumentos de matriz africana frequentemente usam madeiras tropicais que secam de maneira diferente das madeiras europeias. Um tan-tan feito de jacarandá vai envelhecer de forma distinta de um feito em ipê. A madeira mais densa tende a produzir um som mais encorpado com o tempo, mas também fica mais difícil de ajustar o afinamento nos primeiros meses após a compra. Eu recomendo deixar o instrumento descansar por pelo menos sessenta dias antes de fazer qualquer ajuste de ação ou troca de cordas.
Quais são os principais instrumentos e como funcionam
O berimbau é talvez o mais conhecido fora do Brasil, mas existem dezenas de instrumentos com origens diferentes. Cada região da África produziu soluções distintas para problemas semelhantes: como gerar som com materiais disponíveis localmente, como transportar instrumentos grandes, como criar ritmos complexos com recursos limitados. Essa diversidade é o que torna o estudo desses instrumentos tão rico. O djembe, por exemplo, é um tambor de formato de ampulheta feito de uma única peça de madeira. A pele da membrana é presa com cordas que passam por anéis metálicos. O segredo para um bom som está na tensão uniformemente distribuída. Se você apertar mais de um lado do que do outro, o djembe vai soar desafinado em certas notas e o couro vai desgastar irregularmente. Eu aprendi isso na prática quando comprei um djembe de segunda mão e tentei afinar apenas pelo ouvido. Demorei três horas para perceber que o anel metálico estava torto e puxando a pele de um lado só.
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O kalimba, ou sanza, é um instrumento de palhetas preso a uma tábua de madeira. As palhetas são tiras finas de metal fixadas em uma barra de apoio. Quando você vibra uma palheta com o polegar, o som passa pela tábua e sai amplificado por uma cabaça ou caixa de ressonação. A afinação depende do comprimento e da espessura de cada palheta. Se você quiser ajustar uma nota, o caminho correto é lixar a ponta da palheta gradualmente, non milímetro por vez, testando após cada ajuste. Liçar demais e a palheta quebra. É um processo que exige paciência. O axatixi é outro instrumento importante. Consiste em um tubo de madeira oco com sementes ou grãos dentro, agitados manualmente. O som é puramente rítmico. A versatilidade do axatixi vem da possibilidade de variar a velocidade, a intensidade e até a posição das mãos sobre o tubo para modificar o timbre. Eu notei que muitos iniciantes cometem o erro de bater o axatixi contra a perna ou contra o chão para sincronizar o ritmo. Isso destrói as sementes internas e altera o peso do instrumento de forma permanente. O correto é segurar com firmeza e usar apenas o movimento do pulso.
Questões práticas que ninguém conta
Uma das dificuldades mais comuns ao lidar com instrumentos de matriz africana é a manutenção. Muitos desses instrumentos usam couro animal para as membranas. Couro é sensível a mudanças de temperatura e umidade. Se você mora em um lugar seco, como o sertão nordestino, o couro tende a ressecar e perder tensão. A solução mais econômica é aplicar uma mistura de água e glicerina vegetal (proporção 3:1) na face interna da pele, deixando secar naturalmente por doze horas. Isso hidrata sem emborrachar o material. Já em regiões úmidas, o problema é o oposto. O couro incha e o instrumento fica abafado. Nesses casos, o ideal é armazenar o instrumento com um sachê de sílica gel dentro da bolsa ou estojo, trocando o gel a cada semana durante os períodos mais úmidos. Não exponha o instrumento ao sol direto para secar. O calor rápido trinca o couro e danifica a madeira permanentemente.
Outro ponto importante é a diferença entre instrumentos reproduzidos comercialmente e os feitos artesanalmente. Instrumentos de matriz africana produzidos em escala industrial muitas vezes usam madeiras tratadas quimicamente e couro sintético. Eles são mais baratos e duráveis, mas não têm a mesma resposta tonal. Se o seu objetivo é estudar seriamente, vale investir em um instrumento feito à mão por um artesão local. A diferença de preço pode ser de dois ou três vezes, mas a qualidade sonora justifica o investimento a longo prazo. Existe ainda a questão da apropriação cultural. Esses instrumentos têm significados rituais, sociais e espirituais profundos em suas culturas de origem. Usá-los apenas como adereço exótico ou para fins puramente estéticos pode ser visto como desrespeitoso. O mais adequado é buscar aprendizado genuíno, preferencialmente com mestres ou comunidades que mantenham as tradições vivas. Isso não significa que você precise se tornar devoto de uma religião específica, mas pelo menos entender de onde vêm as coisas antes de reproduzi-las.
O que esperar ao começar a estudar instrumentos de matriz africana
O progresso inicial costuma ser lento porque muitos desses instrumentos exigem coordenação motora fina que não é naturalmente desenvolvida. O berimbau, por exemplo, pede que você use uma mão para controlar a tensão e a outra para percutir a corda. Parece simples, mas leva semanas para coordenar os dois movimentos de forma fluida. A prática diária de quinze a vinte minutos é mais eficaz do que sessões longas esporádicas. Para o djembe, o desenvolvimento das técnicas básicas de bass, tone e slap leva cerca de três a seis meses com prática regular. A maioria das pessoas desiste antes disso porque o som ainda não soa "certo". Isso é normal. O couro novo precisa assentar e suas mãos precisam ganhar sensibilidade. Um indício de progresso é quando você consegue manter um ritmo constante por cinco minutos sem cansar a mão.
O kalimba é talvez o mais acessível para iniciantes. Não requer força nas mãos nem coordenação complexa. O desafio principal é a memorização das posições das palhetas, especialmente se o instrumento estiver afinado em uma escala não ocidental. Eu sugere começar com um kalimba afinado em dó maior, que é a escala mais comum no Brasil, e depois expandir para outros afinações conforme a confiança aumentar. Um erro comum é tentar tocar todos os instrumentos ao mesmo tempo. Foque em um primeiro. Domine os fundamentos antes de migrar para outro. A transição entre instrumentos de matriz africana de famílias diferentes traz benefícios, mas só depois de você ter construído uma base sólida. Tentar aprender berimbau e djembe simultaneamente no início apenas dilui o progresso de ambos.