Entendendo o uso correto da expressão
A expressão "isso não tem nada a ver" é uma das construções mais frequentes no português brasileiro do dia a dia. Muita gente usa sem pensar na origem, mas o que acontece ali é bem interessante quando a gente para pra analisar. O verbo "ter" aqui não funciona como posse, ele opera como um marcador de relação ou pertinência. Quando alguém diz "isso não tem nada a ver com o que você disse", está basicamente dizendo que não existe conexão entre dois assuntos.
isso nao tem nada a ver ou haver
Existe uma variante que causa bastante confusão: "isso não tem nada a ver ou haver". Alguns falantes usam "haver" como se fosse sinônimo de "ter" nesse contexto, mas essa mistura é problemática. O verbo "haver" no sentido de existência não combina com essa estrutura. A forma tradicional e amplamente aceita é apenas "ter". Dizer "não tem nada a ver ou haver" soa como uma junção equivocada entre o registro culto e o coloquial. Eu já vi muita gente misturar essas formas em e-mails profissionais e reuniões. Uma vez, em um relatório técnico, li "isto não tem nada a ver ou haver com os procedimentos definidos". O corretor do sistema marcou o erro, mas o colega que escreveu achou que era pedantismo. Na verdade, é só uma questão de padronização. Se o documento é formal, use "ter". Se quiser usar "haver", mude a estrutura inteira para algo como "não há nada que se relacione com". São construções diferentes que servem ao mesmo propósito comunicativo.
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O problema real começa quando as pessoas tentam justificar o uso de "haver" dizendo que "é mais correto" ou "soa melhor". Isso não é verdade. "Haver" nesse contexto seria um barbarismo, ainda que muito comum em certas regiões e emfalantes que têm contato frequente com normas cultas. A gramática normativa recomenda manter o "ter" como único verbo aceitável nessa fixação idiomática. Outra coisa que pouca gente considera é a variação regional. No sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, é mais comum ouvir versões alongadas como "isso não tem a menor relação com". No Nordeste, você ouve mais "isso não tem nada a ver mesmo" com ênfase no final. Essas variações são naturais e não precisam ser corrigidas, desde que o objetivo seja a comunicação cotidiana. Em textos formais, no entanto, a forma padrão permanece "isso não tem nada a ver com".
O que acontece na prática é que muitos falantes nativos internalizam a expressão sem saber exatamente como ela funciona. Isso não é necessariamente um problema, porque a comunicação acontece mesmo assim. Mas quando alguém precisa ensinar a regra — seja num ambiente acadêmico, num material didático ou num guia de redação — é importante deixar claro qual a forma padrão e por que a variação com "haver" não se sustenta. Se você está escrevendo algo formal e quer evitar essa armadilha, o caminho mais seguro é usar sempre "ter". Não existe risco de ser considerado errante por isso. O risco maior é usar "haver" num contexto onde o revisor ou o leitor valoriza a norma padrão e interpretar a mistura como descuido ou falta de domínio da língua. Em resumo, a expressão funciona, se mantém dentro do uso esperado, e o resto é questão de contexto e intenção comunicativa.