Jurandyr Ross Relevo Brasileiro - Relevo brasileiro: classificação de Jurandyr Ross
Relevo brasileiro: classificação de Jurandyr Ross

Entendendo o modelo de Jurandyr Ross na prática

O relevo do Brasil nunca foi uma coisa simples de desenhar no mapa. Ab'Saber fez seu trabalho nos anos 1960, criou as cinco grandes paisagens, e durante décadas todo mundo copiou aquilo. Mas a classificação dele tinha um problema real: era muito dependente da interpretação visual do cerrado, da mata, do clima. Geólogos e geomorfólogos de campo começavam a notar que as divisões não batiam com a estrutura geológica de verdade, especialmente nas bordas dos escudos antigos e nas bacias sedimentares do Norte. Jurandyr Luciano Ross resolveu o problema de um jeito mais pragmático. Em 1989, lançou Geografia do Brasil e, dentro dele, apresentou uma nova divisão do relevo brasileiro baseada em três unidades morfoestruturais: planaltos, planícies e depressões. Cada uma delas se subdividia em funções tectônicas e formas de erosão acumulada, o que permitia mapear o território com muito mais precisão técnica do que os contornos puramente climáticos e vegetacionais.

Eu trabalhei com isso diretamente num projeto de mapeamento geomorfológico no estado de São Paulo há alguns anos. A dificuldade não era entender a teoria — a teoria é clara — mas aplicar as unidades de depressão periférica às áreas de transição entre o Platô Paulistano e a Bacia do Paraná. O que muita gente não leva em conta é que a depressão não é só um espaço "entre planalto e planície". Ela tem origem tectônica definida: rebaixamento por falhamento ou soerguimento diferencial adjacentes. Quando você trata depressão como sinônimo de "terreno mais baixo", o mapa sai errado. A correção que eu adotei foi cruzar dados de altitude com a litologia do subsolo usando arquivos shapefile do IBGE e do CPRM, o que eliminou boa parte da ambiguidade nas bordas.

Como funciona o jurandyr ross relevo brasileiro

A lógica é a seguinte. Você parte da estrutura geológica — o que existe debaixo da terra — e sobe para as formas da superfície. Isso é o que diferencia o modelo de Ross do modelo anterior. Ab'Saber começava pelo reverso: clima e vegetação ditavam a paisagem, e a geologia ficava em segundo plano. Ross inverteu isso, e o resultado foi uma classificação que os professores do ensino médio usam até hoje, mesmo que muitos não saibam exatamente por quê. Planaltos são superfícies acima de certo nível, sujeitas a processos predominantemente erosivos. Não importa se estão a 200 metros ou a 1.200 metros; o importante é que a ação de desgaste supera o acúmulo de sedimentos. Dentro dessa categoria, Ross separou planaltos de escudo, planaltos de plataforma e planaltos de bordo de bacia. Cada um responde a uma história estrutural diferente.

Planícies são áreas de acumulação, onde os sedimentos chegam mais rápido do que saem. Aqui o erro mais comum é achar que planície é sinônimo de área plana. Uma planície pode ser extremamente irregular em pequena escala, com dunes, lagoas e várzeas. A definição é estritamente funcional: predomínio deposicional. Depressões são o diferencial do modelo. Ross as dividiu em dois tipos: depressão relativa (rebaixamento entre áreas mais altas, sem necessariamente terem origem tectônica direta) e depressão absoluta ou periférica (associada a falhamentos e soerguimentos diferenciais nas bordas das bacias sedimentares). Essa distinção é onde a maioria dos estudantes trava, e é também onde o modelo mostra sua real utilidade prática.

Eu já vi material didático tratar todas as depressões como se fossem a mesma coisa. O efeito prático é um mapa que parece bonito mas não serve para nada além de decorar para prova. Se você precisa trabalhar com planejamento territorial, gestão de riscos ou estudos de impacto, essa confusão vira problema real. No meu caso, a solução foi consultar o mapa geomorfológico do state de Minas Gerais no site do CPRM e comparar com as cartas topográficas do IBGE na escala 1:250.000. A sobreposição dos arquivos revelou que boa parte do que o livro chamava de "depressão relativa" na região do Triângulo Mineiro era, na verdade, uma depressão periférica estruturalmente ligada ao sistema de falhas da borda leste da Bacia do Paraná.

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Pegadinhas e limites do modelo

O modelo de Ross não é perfeito, e honestamente não deveria ser. Nenhum modelo geográfico é. A principal limitação é que ele foi construído numa escala que não permite capturar processos locais com fidelidade. Em áreas de cobertura vegetal densa, como a Amazonia, a leitura por sensoriamento remoto é limitada e as bordas entre unidades ficam borradas. Eu mesmo perdi duas semanas tentando delimitar a fronteira entre o Planalto da Amazônia Oriental e a Depressão Periférica do Amazonas usando imagens Landsat, porque a diferença altimétrica era de apenas 30 a 50 metros em uma faixa de mais de 200 quilômetros. O que resolveu foi cruzar com dados LiDAR do projeto MapBiomas, mas isso exige hardware e conhecimento técnico que a maioria dos usuários não tem. Outro ponto fraco é a datação. O modelo foi publicado em 1989, e desde então o Brasil teve transformações significativas no uso do solo que alteraram processos erosivos em várias regiões. A Mata Atlântica remanescente, o avanço da agricultura no Centro-Oeste e a mineração no quadrilátero ferrífero modificaram padrões que o modelo original não previa. Isso não invalida o modelo, mas exige que você o use com consciência de que ele captura uma estrutura, não um estado permanente.

Se o seu objetivo é apenas estudar para concurso ou vestibular, o modelo de Ross é suficiente e amplamente cobrado. Se o seu objetivo é trabalho técnico de campo, o ideal é complementar com o mapa geológico do CPRM e com dados altimétricos recentes. A combinação dos três remove a maior parte das ambiguidades.

Onde encontrar os dados

O IBGE mantém o Código de Área de Relevante Interesse Ecológico e os mapas de divisão regional do Brasil, mas o mapa de relevo em si está disponível no site do instituto na seção de mapas temáticos. O CPRM, por sua vez, disponibiliza o Sistema Geológico do Brasil com camadas que permitem sobrepor estrutura, litologia e relevo. Para quem trabalha com GIS, o formato Shapefile do CPRM é o mais prático, porque já vem com as coordenadas geográficas corretas e o atributo "unidade de relevo" preenchido de acordo com a classificação de Ross. Existe também a opção de usar o QGIS, que é gratuito, e carregar os dados do IBGE e do CPRM diretamente. Eu configurei um projeto assim há alguns anos e ele roda tranquilo em qualquer computador com 8 gigabytes de RAM. O único passo que exige cuidado é o sistema de referência de coordenadas: o padrão para esses dados é o SIRGAS 2000, e se você misturar com algum arquivo em WGS 84 sem reprojetar, a sobreposição fica deslocada em alguns metros, o que parece pouco mas distorce bastante as bordas das unidades de relevo.

Se você quer só consultar sem instalar nada, o site do IBGE tem visualizadores online, mas eles são lentos e não permitem exportação de dados. Para uso pontual funcionam. Para trabalho seriado não. O que resta dizer é que o jurandyr ross relevo brasileiro continua sendo a referência mais usada no país, e com motivo: a lógica morfoestrutural é mais honesta do que a lógica paisagística que a antecedeu. O problema não é o modelo em si, é a preguiça de quem o aplica sem consultar as fontes originais. Eu já vi engenheiros civis usarem o mapa de relevo do IBGE como se fosse mapa geotécnico, o que é um erro grave. O relevo diz respeito à forma da superfície, não à resistência do subsolo. Misturar as duas coisas já causou problema reais de fundação em obras que eu conheci de perto.

Se você está começando agora, o caminho mais seguro é: leia o capítulo de relevo do livro do Ross, baixe os shapefiles do CPRM, abra no QGIS, reprojet para SIRGAS 2000 e compare as unidades com uma imagem de satélite atual. Em duas horas você vai saber mais do que muita gente que decorou o modelo sem nunca ter visto um mapa aberto na tela.