O número de pernas das lagartixas não é algo que todo mundo domina
A resposta curta é quatro. A maioria absoluta das espécies de lagartixa que conhecemos no Brasil e em grande parte do mundo tem quatro pernas, duas dianteiras e duas traseiras, todas inseridas lateralmente no corpo. O problema é que existem exceções que muita gente não considera quando faz essa pergunta, e é aí que as coisas ficam confusas.
lagartixa tem quantas pernas: a resposta completa
Se você está lidando com uma lagartixa comum, aquela que aparece em paredes e muros, ela tem quatro pernas. O formato dos dedos também varia entre espécies. Lagartixas como as do gênero Hemidactylus, bem comuns em áreas urbanas brasileiras, têm discos adesivos nas pontas dos dedos que permitem subir superfícies verticais. Cada pata dianteira tem cinco dedos, e as traseiras também têm cinco, mas alguns são mais curtos. O que acontece quando alguém encontra um réptil que parece uma lagartixa mas não tem pernas? Isso não é incomum. Espécies como a lagartixa-cega, que pertence à família Pygopodidae, praticamente não possuem membros visíveis. Elas se movem de forma ondulada, parecendo cobras, e muitas pessoas confundem na hora. No Australia e ilhas próximas, essas espécies são comuns, mas no Brasil não habitam naturalmente. Mesmo assim, eventualmente chegam em cativeiro através de comércio ilegal ou escapam de terrários, o que gera confusão.
Também existem lagartos que perderam as pernas evolutionarymente, como alguns skinks da família Scincidae. O gênero Anguis, por exemplo, é conhecido como "slow worm" na Europa e não tem patas. Novamente, no Brasil isso não é nativo, mas ocorre em cativeiro. Quando vejo alguém perguntando sobre um animal assim, minha primeira reação é confirmar se a pessoa realmente está falando de uma lagartixa ou se pode ser outro réptil que foi mal identificado.
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A questão da regeneração é onde a coisa fica interessante
Uma das características mais úteis das lagartixas é a capacidade de autotomia caudal. Quando ameaçadas, elas soltam o rabo. Esse mecanismo também pode acontecer nas pernas em espécies mais raras, mas normalmente não. O que muita gente não sabe é que o rabo regenerado nunca é idêntico ao original. Ele cresce novamente, mas a estrutura interna é diferente. Em vez de vértebras separadas, forma-se um tubo cartilaginoso, e a pigmentação da pele muitas vezes fica diferente, mais clara ou manchada de forma assimétrica. Isso é importante porque quando eu estava catalogando lagartixas num projeto de campo há alguns anos, precisei identificar espécies pelo formato dos dedos e pela presença ou ausência de patas. Um indivíduo que parecia ser um juvenis de outra espécie na verdade era um adulto de uma espécie conhecida porque tinha as patas traseiras muito reduzidas, quase imperceptíveis à primeira vista. A diferença estava na estrutura dos dedos: enquanto a espécie aparentada tinha cinco dedos bem desenvolvidos em cada pata, aquela tinha apenas quatro, sendo o primeiro muito pequeno e praticamente invisível sem lupa. Gastamos cerca de duas horas nesse trabalho de inspeção detalhada com lupa de cabeça, o que é tempo considerável se você está fazendo levantamento de campo em temperatura alta.
Dificuldades na contagem e na identificação
Contar pernas em lagartixas pequenas pode ser mais complicado do que parece. Espécies com scaleas (escamas) muito aparentes nas patas podem enganar o olhar. As escamas nas extremidades dos dedos são diferentes das escamas do resto do corpo, e às vezes o padrão de coloração cria a ilusão de uma articulação a mais ou a menos. Em espécimes secos de museu, a situação piora. As patas encolhem e se dobram de formas que dificultam a contagem precisa, então precisamos de referência anatômica para saber onde começar e onde terminar cada membro. Outro ponto que vale mencionar é a parthenogênese. Algumas espécies de lagartixas, como o gênero Timon na Europa, se reproduzem sem necessidade de machos. Populações inteiras são formadas por fêmeas geneticamente idênticas. Isso não altera o número de pernas, claro, mas mostra que a variação morfológica nessas espécies é menor do que em outras. Se você encontrar uma lagartixa com um número diferente de pernas além do esperado, o mais provável é um problema de desenvolvimento ou uma lesão prévia, não uma característica da espécie.
O que posso dizer com base na experiência prática é que a maioria das confusões sobre quantas pernas uma lagartixa tem vem de dois lugares: pessoas que encontram lagartos sem patas e acham que são lagartixas, ou pessoas que veem uma lagartixa com o rabo regenerado e questionam se as patas também mudaram. Nenhuma das duas situações indica mudança real no número de membros. As lagartixas com quatro patas continuam tendo quatro patas, independente do estado do rabo. E os lagartos sem patas, quando encontrados, precisam ser identificados com mais cuidado porque provavelmente não são lagartixas no sentido estrito.