Livros De Galileu Galilei - "galileu Galilei" De Antonio Banfi | Livros, à venda | Lisboa ...
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Os livros de Galileu Galilei que valem a pena ler hoje

A maior parte das pessoas procura livros de galileu galilei pensando que vai encontrar uma lista ordenada de obras completas com resumos bonitos. Não funciona assim. A produção escrita dele se divide em dois períodos bem distintos e a qualidade textual muda bastante entre um e outro.

Por onde começar com livros de galileu galilei

O Discursos e Demonstrações Matemáticas (1638) costuma ser a entrada mais tranquila. Galileu já estava velho, cego dos olhos direito, escrevendo de forma mais didática porque precisava publicar para sobreviver. Tem mecânica, tem cinemática, tem a questão do movimento dos corpos pesados caindo. É acessível se você tiver paciência com os diálogos teatrais que ele usava como estrutura argumentativa. O problema real aparece quando alguém tenta ler o Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo (1632) como se fosse um tratado científico moderno. Não é. É uma peça de argumento disfarçada de conversa entre quatro pessoas. Galileu coloca o protagonista defendendo o sistema copernicano num personagem chamado Salviati, mas o Simplicio — que supposedly representa a posição aristotélica — frequentemente argui com argumentos tão bons que parecem pertencer ao próprio Galileu. A estrutura é deliberada. Se você não perceber isso, passa vinte páginas confuso achando que Galileu está contradizendo ele mesmo.

O Ensaios sobre as Manchas Solares (1613) é curto. Trinta e poucas páginas em boa edição. Ele escrevia sobre as manchas solares porque foi obrigado a se pronunciar depois que alguns jesuítas começaram a atacar suas observações telescópicas. A defesa dele é elegante: as manchas são objetos reais na superfície do Sol, não fenômenos atmosféricos. A lógica que ele usa para provar isso é sólida, mas o tom é diferente do resto da obra — aqui ele está no modo polemista, e isso transparece em cada parágrafo.

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Edições disponíveis em português

A editora Abril Cultural fez uma coletânea em 1977 que ainda circula. O volume tem o Diálogo e os Discursos junto com textos menores. A tradução é competente mas datada, com termos técnicos que soam estranhos hoje em dia. Para quem quer algo mais recente, a Editora UnB lançou uma seleção com tradução atualizada do Diálogo. A nota de rodapé explica os trechos mais densos e evita que você precise abrir três dicionários filosóficos ao mesmo tempo. O O Assistente Celeste (emSidereus Nuncius, 1610) não tem edição portuguesa ampla. Você vai encontrar trechos em antologias, mas o texto integral fica em inglês ou italiano na maior parte dos catálogos nacionais. A edição inglesa de Charles Glen Wood (1989) tem tradução direta do latino e comentários úteis, mas exige que você saiba latim técnico para não depender dela cegamente.

O que ninguém conta sobre ler Galileu

O vocabulário matemático de Galileu é pré-Newton. Ele ainda não tinha cálculo diferencial e integral. Quando ele fala de proporcionalidade, razões e média proporcional, está usando geometria euclidiana aplicada. Isso significa que os trechos de mecânica nos Discursos precisam ser lidos com um livro de geometria clássica ao lado. Eu levei três semanas para acompanhar a Proposição I do Terceiro Dia até entender que ele estavamente provando algo que hoje se resolve com uma integral em cinco linhas — mas sem saber o raciocínio geométrico por trás, a demonstração dele parece apenas um exercício antiquado de proporções. Outro detalhe que causa confusão: Galileu não separava astronomia de física. Para ele, explicar o movimento dos corpos celestes exigia explicar gravidade, peso e meio resistivo. O Diálogo mistura argumentos astronômicos com argumentos físicos o tempo todo. Se você tentar ler só a parte copernicana como "astronomia pura", perde metade do raciocínio.

Um problema prático que eu encontrei na última vez que li os Discursos: as traduções brasileiras muitas vezes mantêm os nomes dos personagens em italiano (Salviati, Sagredo, Simplicio) mas traduzem os termos técnicos para o português contemporâneo. O resultado é que você lê "velocidade" num trecho onde Galileu estava discutindo algo que só se aproxima do conceito moderno de momento cinético. Recomendo usar a edição da UnB para o Diálogo e a da Bertrand Brasil para os Discursos, mas sempre compare com o original italiano quando um parágrafo não fechar.

Resumo sem resumo

Para quem quer entrar nos livros de galileu galilei, comece pelos Discursos, leia com geometria euclidiana ao lado e não confie na primeira tradução que encontrar. O Diálogo exige que você acompanhe a estrutura dramática, senão os argumentos parecem andar em círculos. O Sidereus Nuncius está disponível só em inglês ou italiano. E o O Ensaiador (emIl Saggiatore, 1623), escrito por ele mas publicado postumamente em coletâneas, é o texto onde ele formula a metáfora da filosofia escrita "como um livro aberto", mas também é onde ele mostra o método experimental de forma mais crua — é provavelmente o trabalho mais importante dele para a ciência moderna, mesmo sendo o menos conhecido em traduções brasileiras. Se você for seriamente estudar Galileu, pegue a edição crítica italiana del Le Opere de Galileo Galilei, editada pela Accademia Galileiana. É cara, não traduzida, e precisa de bom conhecimento de italiano técnico. Mas é a referência que elimina as inconsistências das traduções populares. O tempo que você gasta com o italiano compensa quando para de se perguntar se uma passagem foi mal interpretada ou se realmente não faz sentido.