Livros Machado De Assis - Box Machado de Assis 11 Livros Capa Dura: Dom Casmurro, Memórias ...
Box Machado de Assis 11 Livros Capa Dura: Dom Casmurro, Memórias ...

Onde encontrar e como escolher edições confiáveis

Achei livros machado de assis em várias plataformas ao longo dos anos, e o problema real nunca foi a falta de opções. O que sempre deu trabalho foi saber qual edição vale o dinheiro. Machado tem centenas de reimpressões brasileiras, e a maioria delas é feita por editoras diferentes sem critério filológico. Você abre um livro e percebe que a pontuação foi modernizada, cortes foram feitos, ou trechos foram adaptados para "facilitar a leitura". Isso mata a experiência.

Por que livros machado de assis exigem cuidado na escolha da edição

A primeira coisa que todo mundo erra é comprar a edição mais barata disponível. A editora Record faz uma coleção bastante respeitável com os classadores de José Geraldo Vieira. Já a Editora Nova Fronteira, com os comentários de Luiz Costa Lima, também é sólida. Mas há edições de bolso que pululam em bancas de aeroporto e livrarias genéricas que usam como base textos desatualizados ou até mesmo edições escolares com notas irrelevantes. Eu cheguei a comprar um exemplar de Memórias Póstumas de Brás Cubas por dezesseis reais numa livraria online. Chegou com uma introdução que atribuía influências nietzschianas a Machado de forma completamente equivocada, e as notas de rodapé citavam edições que eu sabia não existir. Troquei por uma da Coleção Guilhermino César da Editora Nova Aguilha e a diferença era abismal. O texto original, as notas filológicas adequadas, a introdução de Antonio Candido. Custou pouco mais, mas foi noite e dia.

Quais obras ler e em qual ordem

Muita gente começa por Quincas Borba por causa do relativismo e do humor ácido, mas esse é um erro. O romance ainda está construindo a voz madura de Machado. Se você quer entrar de cabeça no estilo dele, comece por Memórias Póstumas de Brás Cubas. O narrador morto já está plenamente formado. A prosa é mais acessível do que parece, e o narrador quebra a quarta parede de um jeito que ninguém fazia no Brasil naquele momento. Depois disso, vai para Dom Casmurro. O romance mais famoso dele, e também o mais mal compreendido. As pessoas discutem se Capitu traiu ou não Bentinho como se Machado tivesse deixado essa questão resolvida. Ele não deixou. O narrador é parcialmente confiável, e a ambiguidade é intencional. Quem lê achando que vai encontrar uma resposta clara fica frustrado. Leitura recomendada para acompanhar: o ensaio de Eula Glotman sobre a narração em Dom Casmurro, ou trechos da obra de John Gledson sobre o romance brasileiro do século XIX.

Ressurreição é um romance precoce, quase realista, distante do Machado que todo mundo conhece. Vale ler se quiser entender a evolução dele, mas não espere as ironias ou o tom psicológico que marcam a fase madura. Helena e Iaiá Garcia são bons exemplos dessa transição. Iaiá Garcia especialmente tem uma observação social aguçada sobre o Rio de Janeiro do século XIX, mas a estrutura narrativa ainda é convencional.

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Dica técnica sobre edições e notas

Quando for escolher uma edição, olhe sempre a referência base. Edições com notas de José Geraldo Vieira ou de Luiz Costa Lima são seguras. A coleção da Coleção Guilhermino César segue o texto das primeiras edições e faz colação com as variantes. Já edições da coleção "Obras Completas" da Ediouro ou da Martins Fontes antigas às vezes usam textos híbridos que misturam alterações editoriais de diferentes épocas. Se você quer estudar o texto machadiano de forma rigorosa, isso é um problema sério. Um caso que vejo recorrente: pessoas compram livros digitais sem checar a fonte tipográfica ou a procedência do arquivo. Muitos PDFs de Dom Casmurro circulam na internet com trechos retirados de edições escolares dos anos 1970, cheios de erros de digitação e cortes arbitrários. Se for usar versão digital, prefira o Projeto Domínio Público ou o site da Biblioteca Nacional. O Acervo Digital da USP também tem exemplares escaneados das primeiras edições, que são úteis para quem quer ver as ilustrações originais e a diagramação da época.

O que não funciona

Não adianta ler resumos ou ver adaptações antes do livro. As minisséries e filmes mudam estruturas inteiras. A de Dom Casmurro da TV Globo em 2018, por exemplo, resolve a dúvida sobre Capitu de um jeito que o romance propõe deliberadamente não resolver. Isso estraga a experiência leitora. Leia o livro primeiro, e só depois consuma adaptações se quiser. Também não recomendo edições com traduções para português contemporâneo ou linguagem "simplificada". Machado escreveu num português do século XIX que exige algum esforço. Esse esforço é parte da leitura. Cortar arcaísmos, modificar a sintaxe e transformar períodos longos em frases curtas remove a textura do texto e transforma tudo num produto genérico. Existe um movimento pequeno no Brasil de "atualização" de clássicos que já causou polêmica com Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Com Machado o problema é ainda pior porque a prosa dele carrega ironia construída exatamente na forma como as frases são articuladas.

Listagem prática das obras principais

O volume de contos é subestimado. Machado começou como contista e os best sellers muitas vezes têm mais densidade do que os romances intermediários. O conto "O Alienígena", por exemplo, mostra uma preocupação com imigração que antecipa debates muito atuais. "Cosmos" é um microconto filosófico que cabe numa página e resume boa parte da visão de mundo dele.

Questões que poucos consideram

Há uma discussão acadêmica importante sobre a racialização da obra de Machado. Ele foi filho de uma artesã mulata e de um barbeiro pardo, e cresceu em contexto de mobilidade social precária no Rio de Janeiro imperial. Alguns leitores contemporâneos leem os romance como se ele fosse um escritor branco e elitista, o que não corresponde à biografia. Ao mesmo tempo, Machado não escrevia sobre raça de forma temática da maneira como autores posteriores fariam. A questão está nas entrelinhas, na construção de personagens e nos espaços sociais que ele descreve. Outro ponto: as crônicas jornalísticas de Machado, reunidas principalmente nas coleções da Editora Nova Aguilha, são tão importantes quanto os romances. Elas foram escritas para o Diário de Notícias e para o Journal do Rio de Janeiro. Têm um ritmo diferente, vão da crítica política à observação do cotidiano, e mostram o Machado em conversação direta com o leitor. Recomendo pelo menos uma coletânea de crônicas antes de mergulhar fundo nos romances, porque ela prepara o terreno para entender o tom irônico que aparece em tudo.

Sobre onde comprar fisicamente: a Livraria da Vila em São Paulo e a Livraria Lello no Porto costumam ter boa curadoria de edições brasileiras de literatura clássica. Para online, a Amazon e a Magazine Luiza têm preços variados, mas sempre confira a descrição da editora e o ISBN antes de fechar. A Shopee e mercados livres têm muitas edições piratas ou de procedência duvidosa. Evite. Se o orçamento for apertado, a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú e o Domínio Público oferecem versões gratuitas de várias obras. Não são edições críticas, mas servem para leitura individual. Para uso acadêmico, invista numa edição com notas filológicas.