Por que esse livro continua aparecendo em bibliografias mesmo após mais de um século
A primeira vez que li Memórias Póstumas de Brás Cubas, com onze anos, não entendi nada. O narrador morre no capítulo um, passa o resto do livro se queixando da vida e termina escrevendo literalmente "ó raios, ó tempestade, ó vendavais". Chorei achando que tinha perdido algo. Na verdade, era isso mesmo: o livro não entrega respostas, apenas registra a indiferença de um homem rico que nunca se importou com ninguém.
O que é machado de assis memórias póstumas de brás cubas
É um romance publicado em 1881, narrado por um defunto autor que conta sua própria biografia do além. Quatro movimentos, capítulos curtos, digressões constantes. O livro se estrutura em: O Vermelho, O Amarelo, O Verde e O Roxo. Não é um acidente. Cada parte corresponde a um momento ou estado da consciência do protagonista, e Machado alterna entre o irônico e o melancólico sem avisar. O que a maioria dos estudantes não percebe na primeira leitura é que Brás Cubas não é um vilão. Ele é um retrato preciso de como o privilégio desumaniza: ele é capaz de ser gentil, generoso, até sensível, mas sempre dentro de uma bolha que nunca o obriga a confrontar as consequências reais das próprias ações. A genialidade do livro está em fazer você sentir empatia por alguém que não merece empatia.
Quando comecei a usar o romance em oficinas de literatura brasileira, meu problema recorrente era que os leitores jovens tentavam "consertar" o personagem. Eles queriam que ele mudasse, que tivesse uma revelação, que aprendesse algo. Ninguém na sala gostava de Brás Cubas. Eu já avisei desde o início que esse incômodo é intencional: o romance não é sobre redenção, é sobre a ilusão de controle. Uma edição confiável e acessível é a da Projeto Gutenberg (domínio público no Brasil desde 1965, quase sessenta anos após a morte do autor). O texto integral pode ser baixado gratuitamente em sites como gutenberg.org. Sempre recomendo a versão com notas de autoria de William AGuiar ou a Editora Garnier, porque as variantes entre manuscrito e edição original geram confusão em passagens-chave, especialmente nos versos soltos no meio do texto.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Como ler o livro sem perder a cabeça
Não existe ordem obrigatória. Machado insiste que o leitor pode pular, voltar, ignorar os interlúdios. Eu recomendo pelo menos duas leituras: uma rápida para capturar a superfície narrativa e uma segunda passando um marca-texto nos versos que aparecem no meio de capítulos. Esses versos não são enfeite. São o dispositivo mais importante do romance, porque revelam o que Brás Cubas não consegue dizer em prosa. O famoso Capítulo LXXXIV, onde ele explica sua teoria do "divórcio entre a obra e o autor", é essencial para entender qualquer ensaio sobre modernismo brasileiro posterior. Se você for analisar o livro academicamente, esse capítulo é o ponto de partida. Se for ler por prazer, pode ignorá-lo na primeira vez. A vantagem de Brás Cubas ser narrador-autor é que ele te permite escolher o nível de complicação.
Um detalhe técnico que passei anos negligenciando: o romance tem três versões principais. A original de 1881, a revisão de 1882 (com pequenas alterações em digressões), e a edição póstuma da família, que introduziu mudanças que Machado não aprovou. Para fins acadêmicos, a versão de 1882 é a mais segura. A edição Garnier reúne as variantes com transparência suficiente para você decidir.
Pontos que ninguém ensina sobre a estrutura
O livro funciona como um espelho invertido. Em vez de o narrador construir sua identidade a partir das memórias, ele usa as memórias para escapar da própria identidade. Cada capítulo é uma tentativa frustrada de fixar um significado, e cada fracasso é registrado com precisão cirúrgica. Os versos intercalados, por exemplo, são frequentemente lidos como momentos de lyrismo, mas na prática são o oposto: Brás Cubas recita poesia quando a prosa o trai, quando ele não consegue disfarçar emoção. Outro aspecto negligenciado é a presença constante de personagens que não recebem nomes. Mãe, avó, o amigo, a amante. Machado usa artigos definidos como substitutos onomásticos para sugerir que essas relações são trocáveis. Virgília poderia ser qualquer mulher rica, Praslin qualquer amigo conveniente. A despersonalização é estrutural, não estilística.
Uma edição barata e razoável que uso para indicar a leitores casuais é a da Editora Nova Aguilar, coleção "Os Classicos". Custa cerca de trinta reais em sebos online. Evite edições de papelaria que não têm aparato crítico; a ambiguidade machadiana exige notas para não virar mero entretenimento. A dificuldade real ao ensinar ou analisar essa obra é que ela se recusa a ser didática. Tentar transformar o romance em um conjunto de teses claras produz interpretações rasas. O livro foi escrito para confundir o leitor educado do século XIX tanto quanto o leitor adolescente de hoje, e isso continua funcionando exatamente da mesma maneira.