A diferença prática entre duas construções que todo mundo confunde
Você já deve ter visto gente escrevendo "mais ainda" quando o sentido é "mas ainda", ou o contrário. A confusão é tão comum que até editores amadores deixam passar. A questão não é difícil, mas tem um detalhe que poucas pessoas mencionam e que causa erro recorrente em textos formais.
mas ainda ou mais ainda: como saber qual usar
O "mas ainda" é uma combinação de conjunção adversativa ("mas") com advérbio de tempo ("ainda"). Ele indica que algo continua acontecendo apesar de uma oposição ou expectativa contrária. Já o "mais ainda" é uma construção onde "mais" funciona como advérbio de intensidade modificando "ainda", exprimindo grau aumentado. São estruturas sintaticamente diferentes, mesmo que soem parecidas na fala. Pra não errar, teste a substituição. Se você pode trocar por "no entanto ainda" ou "porém ainda", o correto é "mas ainda". Se a ideia é de intensificação — "ainda mais" — aí é "mais ainda". Funciona na maioria dos casos.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um exemplo rápido: "Ele disse que não voltaria, mas ainda apareceu no evento." Não tem como ser "mais ainda" aqui, porque a conjunção adversativa é essencial. Agora: "O custo aumentou, e o impacto foi mais ainda do que esperávamos." Aqui a ideia é de intensidade, então "mais ainda" está correto. No meu trabalho revisando textos técnicos e jurídicos, me deparei recentemente com um contrato em que o redator escreveu "o inadimplemento seria mais ainda sanável se houvesse boa-fé". O sentido claramente era adversativo — havia uma condição que se opunha àsanabilidade — então o correto era "mas ainda". Esse tipo de erro passa fácil porque na leitura rápida o ouvido não reconhece a falha. Eu usei o teste da substituição por "porém ainda" e bateu certo na hora.
Outro ponto que os manuais raramente destacam: o "mais ainda" pode funcionar como advérbio de grau em posições diferentes da frase. "Mais ainda pior" é um erro de redundância comum — "mais" e "ainda" já carregam valor intensificador, então o comparativo fica sobrecarregado. O ideal nesse caso é "ainda pior" ou simplesmente "pior". Já vi isso em petições judiciais e pareceres, e o corrector automático mais ingênuo não sinaliza o problema. Uma limitação importante: em registro informal, a fala muitas vezes blinda essa distinção. A contração fonética faz com que "mas ainda" e "mais ainda" soem praticamente idênticos. Isso significa que a regra só é plenamente aplicável na escrita, especialmente em textos que passam por revisão. Em e-mails rápidos ou mensagens, a prioridade é outra.
Se você quer um recurso prático, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da ABL não entra nesse nível de detalhe gramatical, mas o Ciberdúvidas e o Novo Acordo Ortográfico têm seções que abordam o uso de "mas" como conjunção. O que realmente ajuda é o hábito de ler o trecho em voz alta pausadamente — a entonação naturalmente separa a função adversativa da função intensificadora.