O problema dos pronomes oblíquos átonos em português
O sujeito "eu" pede "mim" e "comigo". O sujeito "tu" pede "ti" e "comtigo". A confusão acontece porque a língua portuguesa mantém duas camadas de tratamento diferentes que se sobrepõem. Na prática, a maioria das pessoas trava exatamente quando precisa combinar preposição com pronome correto, especialmente na construção com "com". Eu mesma já levei bronca de professor universitário por escrever "com eu" num trabalho de redação.
Como usar corretamente: me mim comigo te ti contigo
A lógica básica é essa: "mim" e "ti" são usados quando o pronome vem depois de preposição. "Comigo" é a fusão de "com" + "mim", e "comtigo" é a fusão de "com" + "ti". Já "me" e "te" são oblíquos átonos que funcionam como objeto direto ou indireto dentro da oração, sem preposição obrigatória. Aí começa o problema real. Quem já escreveu um texto formal sabe que há casos em que o pronome precisa vir antes do verbo, e aí entra a próclise. O verbo negativo puxa o pronome para trás, o advérbio também puxa, e você se pega trocando "me" por "mim" por puro automatismo, quando na verdade a regra é diferente.
No dia a dia, eu percebi que o erro mais comum não é confundir "mim" com "me". É esquecer que "comigo" já carrega a preposição embutida. Já vi gente escrever "com comigo" achando que estava sendo enfático. A solução prática é: se a palavra "com" já está ali explicitamente, você não pode repetir o "com" dentro de "comigo". Fica "com você" ou "com ele", nunca "com comigo". Outro ponto que os manuais não explicam bem é a variação regional. Em partes do Brasil, principalmente no Sul e Sudeste, o uso de "mim" como sujeito em registros informais é extremamente comum, ainda que tecnicamente errado. "Mim vai ao mercado" é uma construção que você ouve todo dia. Já "comtigo" caiu em desuso quase total na fala coloquial brasileira. Na prática, substituir por "contigo" ou simplesmente "com você" é mais seguro na maioria dos contextos.
Um exemplo concreto que aprendi na marra: num documento jurídico que elaborei, precisei usar a forma "conosco" versus "em nosso poder". A diferença de registro é abissal. Para fins legais, "conosco" não é equivalente a "comigo" em todos os contextos, e testar isso com uma busca em jurisprudência antes de fixar o termo vale cada minuto investido. A regra mnemônica mais útil que encontrei funciona assim: se a pergunta é "com quem?", a resposta com pronome tônico é "com mim". Se a pergunta é "quem faz algo?", a resposta é "eu", nunca "mim". Trocar esses dois lados da moeda resolve pelo menos 80% dos erros que vejo por aí.