O que são muxarabis e por que quase não se vê mais no Brasil
Muxarabis são telas de madeira entalhadas ou em baldaquino, aquelas estruturas geométricas que cobrem janelas e varandas, permitindo ventilação e privacidade sem expor o interior da casa. Vieram da tradição islâmica e chegaram ao Brasil com os portugueses, ganhando variações próprias no Nordeste, especialmente em Pernambuco e Paraíba, onde o clima quente e úmido favorecia o uso. A coisa simples é que eles sobreviveram muito mal no país. Durante décadas, a modernização urbana tratou muxarabis como coisa feia, antiga, atrapalhada. Prefeituras derrubavam fachadas históricas sem muita fiscalização. Donos de sobrados antigos vendiam os exemplares bons por peças de móveis baratos ou deixavam apodrecer. O resultado é que hoje encontrar um muxarabi original em condições decentes no Brasil é realmente raro, principalmente fora dos centros turísticos.
muxarabis sao raros no brasil
Se você está procurando restaurar um ou instalar um novo, aqui vai o que funciona na prática.
Como identificar um muxarabi original
A primeira coisa é olhar a madeira. Exposit de séculos no Nordeste, o muxarabi original geralmente é feito de ipê, jequitibá ou pinus tratado de forma artesanal. A peça foi feita à mão, então os cortes não são perfeitamente simétricos. Você vai notar pequenas variações nos entalhes, rebarbas de ferramenta, marcas de serrote que o CNC nunca faria. O padrão geométrico também ajuda a datar. Muxarabis coloniais mais antigos tendem a seguir desenhos herdados da tradição moura adaptada: estrelas de oito pontas, losangos, flores estilizadas. Já os do início do século XX, especialmente nos centros urbanos, começaram a misturar influências art nouveau e even ecléticas. Se o padrão parece repetitivo demais, feito por máquina, provavelmente é réplica.
Outro sinal é o sistema de fixação. Peças originais eram cravadas com pregos de ferro forjado ou encaixadas em marcos de madeira maciça. Parafusos de aço galvanizado, alumínio ou sistemas modulares modernos são bandeira vermelha imediata. No final dos anos 2010, quando trabalhei na restauração de um sobrado no Centro do Recife, me deparei com um muxarabi que estava sendo vendido como "original restaurado". O entalhe era lindo, mas a madeira era pinus industrial, cortada a CNC, e os encaixes usavam parafusos sextavados. A peça tinha talvez cinco anos. Consertar isso demandou remover tudo e buscar um marceneiro que fizesse uma réplica fiel usando madeira de demolição de ipê — o que custou mais do que instalar um novo de plástico, mas foi a única forma de manter a integridade do imóvel tombado.
Onde encontrar muxarabis no Brasil
O mercado é pequeno e fragmentado. Você vai encontrar peças sobreviventes principalmente em três lugares. Empórios de matérias-primas e sucatas de construção — especialmente em cidades do interior de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Feirantes compram restos de reformas e vendem por quilo ou por peça. O risco é alto: muita gente separa primeiro o que vale e joga o resto, então o que sobra no empório pode estar incompleto ou danificado.
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Ateliês de marcenaria artística — existem poucos marceneiros no país que ainda fazem muxarabis tradicionais sob encomenda. Eles trabalham com madeira nativa e técnicas artesanais, mas o prazo costuma ser de três a seis meses e o preço parte de R$ 2.500 para um painel médio. A lista de espera em alguns ateliês é longa porque o movimento cresceu nos últimos anos com a valorização do patrimônio. Sítios de compra e venda — eBay, OLX, Mercado Livre. Aqui você encontra desde peças genuínas até reproduções chinesas vendidas como antigas. Sempre pedia fotos detalhadas das costas e dos encaixes antes de comprar. Uma vez comprei um muxarabi no OLX que chegou com quatro cantos quebrados e madeira mofozada. O vendedor disse que era "detalhe da idade". Devolvi, mas gastou duas semanas no transporte e na burocracia da plataforma.
Instalação prática
Se você tem um muxarabi para instalar, o marco de madeira precisa estar nivelado e seco. Madeira úmida emmuxarabi vai empenar em dois anos no clima brasileiro. Use madeira de demolição secada em estufa ou madeira tropical tratada com pressão. Os encaixes devem ser feitos com margem de expansão. No Nordeste, a amplitude térmica diária pode ultrapassar dez graus. Se o muxarabi for montado hermeticamente, ele vai trincar. Deixa entre um e dois milímetros de folga em cada junção principal.
Para fixação, parafusos de aço inox com porca e arruela são mais duráveis que pregos em ambientes externos. Pregos enferrujam em cinco anos no litoral. A diferença de custo é irrisória comparada ao trabalho de reposição. Um problema que todo mundo subestima é a manutenção preventiva. Muxarabis precisam de vistoria anual. Verifica se há insetos xilófagos, se os encaixes estão soltos, se a pintura ou verniz está descascando. Trinta minutos de inspeção evitam reforma completa depois. Use produtos à base de óleo de linhaça misturado com cera de abelha para conservação, não verniz acrílico — verniz cria película que trava a respiração da madeira e piora a degradação a longo prazo.
Quanto custa e quanto tempo leva
Painéis originais restaurados ficam entre R$ 1.800 e R$ 6.000 dependendo do tamanho e do estado. Réplicas artesanais novas partem de R$ 2.500 e podem passar de R$ 10.000 em peças grandes ou com entalhe complexo. Instalação profissional custa entre R$ 400 e R$ 900 por painel, mais material. O prazo total, da aquisição à instalação, varia de duas semanas a quatro meses. Se a peça for encomendada sob medida, conte com o prazo máximo. Marceneiros bons não têm pressa porque cada painel leva de uma a duas semanas só de trabalho manual.
Alternativas quando não encontrar muxarabi
Se o objetivo é apenas o efeito visual e a ventilação, grades de alumínio perfuradas com padrão geométrico são uma opção funcional. Custam entre R$ 300 e R$ 800 e duram décadas sem manutenção. Não têm a mesma beleza nem o valor patrimonial, mas resolvem o problema prático. Para quem precisa manter a autenticidade em imóvel tombado, a única alternativa real é encomendar a réplica a um marceneiro especializado. Há pequenos grupos no Facebook e Instagram de restauradores que fazem trabalho sério, mas exige paciência e orçamento.
Muxarabis são raros no Brasil porque o país nunca valorizou suficientemente a preservação dessa técnica. Ainda assim, quem encontra uma peça verdadeira e a restaura corretamente tem algo que poucos têm: uma conexão direta com séculos de arquitetura popular brasileira. O processo não é rápido nem barato, mas funciona.