Na Figura Está Representado O Mosaicismo - RETOEDU
O que é mosaicismo genético e por que confunde muita gente
Quando alguém mostra uma figura com células pintadas em cores diferentes e diz "na figura esta representado o mosaicismo", o que está dizendo é basicamente isso: uma pessoa tem mais de um genótipo dentro do mesmo corpo. Não é mitocondrial, não é hereditário no sentido clássico. Ocorre depois da fecundação. Uma célula sofre uma alteração e todas as suas descendentes carregam essa mudança. O resto do corpo continua com o genótipo original.
Isso pode acontecer por várias vias. A mais comum é uma mutação somática pós-zigótica. Pode ser uma substituição de nucleotídeo, uma inserção, uma deleção pequena. Também pode ser uma não-dissjunção cromossômica durante uma divisão mitótica tardia, gerando mosaiscismo cromossômico. Ou seja, parte das células fica trissômica, outra parte euplóide. Existem ainda os mosaicismos de transferência segmentar, onde há trocas desiguais entre cromossomos homólogos ou não homólogos durante a reparação de quebras de fita dupla.
Na figura esta representado o mosaicismo: lendo o desenho corretamente
A figura típica mostra um organismo dividido em regiões coloridas, cada cor representando um linageme celular diferente. Às vezes aparece um karyograma com dois cariótipos lado a lado. O importante é notar que a fronteira entre as regiões não segue padrões anatômicos limpos. Ela é aleatória, dependente do timing do evento mutacional. Quanto mais tarde a alteração ocorre, menor o porcentaje de células afetadas e mais irregular a distribuição.
Na prática, quem trabalha com diagnóstico genético já viu essas figuras em relatórios de CGH array, sequenciamento de nova geração, ou FISH interphase. O problema é que a figura é simplificação. Ela não mostra a profundidade do mosaico. Um artigo pode ilustrar com 50% das células afetadas, mas na vida real a proporção pode ser 5% ou 0,3%. E essa diferença é crítica.
Me lembro de um caso em que uma criança apresentava sintomas neurocutâneos restritos a um hemisfério. O painel de NGS em DNA sanguíneo veio negativo. A princípio parecia não ser mosaicismo. Só que o tecido afetado era pele e tecido neural. Fomos buscar DNA de biópsia de pele e ali encontramos a variante somática em proporção de apenas 8% de allele frequency. No sangue estava indetectável. Se tivesse parado no DNA periférico, o diagnóstico teria ficado para sempre sem explicação.
Como detectar e quantificar
A detecção depende inteiramente do tecido analisado. DNA de sangue periférico é o mais fácil de obter e o menos confiável para mosaicismo somático. Células-tronco hematopoiéticas podem ser normais enquanto o parênquima do órgão afetado carrega a mutação. Urina, saliva, biópsia de pele, músculo, tecido cerebral são alternativas, mas cada uma traz riscos e limitações práticas.
O sequenciamento de nova geração com alta profundidade é a ferramenta padrão. Para detectar mosaicismo, precisa-se de pelo menos 500x de cobertura, idealmente 1000x ou mais. Variantes com allele frequency entre 5% e 40% são suspeitas de mosaicismo. Abaixo de 5% o sinal já compete com o ruído de erro do sequenciador. Acima de 60% começa a parecer uma variante germinativa, a menos que se tenha evidencia clinica contrária.
O CGH array também ajuda, mas com ressalva importante. Ele detecta alterações no número de cópias, não mutações de ponto. Um mosaicismo de deleção 1q21.1 com proporção de 20% nas células analisadas pode dar logR borderline e coeficiente B aleatório, gerando interpretação duvidosa. Nesse ponto, repetir a extração com mais DNA ou mudar de tecido pode resolver.
Armadilhas comuns que fazem o diagnóstico errar
A primeira armadilha é confiar em DNA de sangue como reflexo do todo. Já citei o exemplo acima, mas merece repetição porque acontece com frequência absurda. A segunda é ignorar a qualidade do preparo de bibliotecas. Contaminação com DNA de outro paciente, index hopping, ou PCR duplicates inflados criam falsos sinais de mosaicismo. Ferramentas como GATK BaseRecalibrator e o uso de samtools markduplicates são obrigatórias antes de qualquer chamada de variante.
A terceira armadilha é a interpretação de variantes de significado incerto em baixa frequência alélica. Um VUS em 15% de AF não é automaticamente mosaicismo patogênico. Pode ser um polimorfismo raro somático, um artefato técnico, ou mesmo um evento de envelhecimento clonal. Sem confirmação por método independente e sem correlação clinica, o diagnóstico não deve ser emitido.
Uma quarta questão que as pessoas esquecem: o mosaicismo limitado a uma linhagem germinativa pode existir sem nenhum sinal somático detectável. Uma mãe com mosaicismo gonadal para uma variante dominante letal pode ter filhos afetados repetidamente enquanto seu DNA sanguíneo, bucal e de pele é totalmente selvem. Nesse cenário, o teste de mosaicismo gonadal ainda não é rotina clínica viável. O que se faz é aconselhamento genético baseado na recorrência familiar e, se possível, testar embriões em FET com PGT-M.
O que fazer quando a figura mostra mosaicismo mas o laboratório não encontra
Primeiro, verificar a profundidade de cobertura do sequenciamento realizado. Segundo, solicitar extração de DNA de outro tecido se houver lesão acessível. Terceiro, considerar que a alteração pode ser estrutural e não pontual, exigindo técnicas complementares como MLPA ou sequenciamento de longa leitura para detectar rearranjos complexos.
Não existe solução única. Cada caso exige ajuste fino entre klinické suspicion, qualidade da amostra, e método analítico. E nesse ponto, a figura didática ajuda a entender o conceito, mas não substitui o raciocínio clínico-real.