Os grandes templos da Mesopotâmia
O nome dado aos grandes templos mesopotâmicos é zigurate (também grafado ziggurat). A palavra vem do akkadiano ziqqurratu, que significa algo como "construção elevada" ou "que se ergue". Os sumérios os chamavam de tu, que basicamente significa "montanha". A tradução mais precisa seria "montanha sagrada artificial".
nome dado aos grandes templos mesopotâmicos
Na prática, um zigurate não é uma pirâmide. As pessoas sempre confundem, mas pirâmides são maciças e servem para enterrar gente. Zigurates são essencialmente terraços empilhados com camadas alternadas de tijolos crus e betume, construídos sobre uma fundação de tijolos cozidos. O núcleo era enchido com entulho e lama. Só a fachada externa e os degraus eram de tijolo cozido, que era muito mais caro e trabalhoso. Aqui vai algo que a maioria dos manuais não explica direito: o topo do zigurate não era acessível ao público. De forma alguma. Era um santuário reservado ao sacerdote, que ali oficiava rituais para o deus patrono da cidade. As camadas inferiores abrigavam escritórios administrativos, cotas de grãos, oficinas e alojamentos para sacerdotes. Não era um prédio único — era um complexo inteiro em formato escalonado.
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O zigurate mais famoso é o de Ur, construído por Ur-Nammu por volta de 2100 a.C., dedicado ao deus lua Nanna. Tem cerca de 64 metros de base por 21 de altura original. Outro exemplo importante é o Etemenanki, em Babilônia, dedicado a Marduk, que muitos estudiosos associam à história da Torre de Babel. A maioria desses edifícios foi reconstruída várias vezes ao longo dos séculos porque o material principal — tijolo de barro — não aguenta milênios em clima chuvoso. A cada geração, vinham e demolhavam a parte deteriorada e reconstruíam por cima. Um problema prático que aparece com frequência quando se estuda zigurates é a confusão entre datação. Como cada fase de reconstrução era erguida diretamente sobre a anterior, as camadas arqueológicas ficam extremamente compactadas. Já vi relatórios onde a cronologia estava errada porque a equipe não distinguiu adequadamente os níveis de betume das diferentes épocas. A solução é olhar a cerâmica encontrada nos pisos, não a arquitetura em si. Os tijolos podem ser reutilizados de construção em construção, mas os cacos de potes normalmente não. Essa distinção economiza semanas de trabalho em campo que, caso contrário, seriam perdidas recalculando estratigrafia de tijolos.
O conceito de zigurate também traz limitações sérias. Primeiro, a preservação é péssima na maioria dos sítios porque a matéria-prima é basicamente lama seca. Nenhum zigurate original permanece intacto — todos os que você vê em fotos são reconstruções modernas ou ruínas parcialmente restauradas. Segundo, a interpretação funcional ainda gera debates intensos na comunidade acadêmica. Há quem defenda que os zigurates tinham função astronômica, mas não existe evidência material consistente para isso. O que temos é uma clara função religiosa e administrativa. Se você está começando a estudar o tema, evite fontes populares que tratam zigurates como pirâmides egípcias ou estruturas funerárias. São coisas completamente diferentes. Comece com literatura especializada em arqueologia mesopotâmica, preferencialmente artigos sobre os programas de escavação de Ur, Chogha Zanbil ou Dur-Kurigalzu. A diferença entre uma visão correta e uma equivocada sobre esses edifícios costuma estar em detalhes construtivos que manuais introdutórios simplesmente ignoram.