Entendendo os hormônios femininos na prática
Vou listar os principais hormônios femininos e o que cada um faz, porque é sempre bom ter isso anotado. Quando você olha para um exame ou precisa explicar para uma paciente, saber o nome correto e a função evita confusão.
Principais nomes dos hormônios femininos
Os hormônios mais relevantes no ciclo feminino são: Estrogênio (Estradiol) — É o hormônio predominante na fase folicular. Responsável pelo espessamento do endométrio, regulação do LH e FSH, e manutenção da saúde óssea e vascular. O estradiol (E2) é a forma mais ativa e a que geralmente se mede.
Progesterona — Produzida pelo corpo lúteo após a ovulação. Prepara o endométrio para a nidação e estabiliza a parede uterina. Sem ela, a gravidez dificilmente se mantém. Os níveis sobem drasticamente após a ovulação e caem se não houver fecundação. FSH (Hormônio Folículo-Estimulante) — Estimula o crescimento dos folículos ovarianos. É liberado pela hipófise anterior e segue um padrão cíclico. Na menopausa, os níveis sobem bastante porque o ovário responde menos ao estímulo.
LH (Hormônio Luteinizante) — Desencadeia a ovulação quando atinge o pico no meio do ciclo. Também é secretado pela hipófise e seu comportamento acompanha o do FSH, mas com amplitude diferente. O pico de LH ocorre cerca de 24 a 36 horas antes da ovulação. Prolactina — Produzida pela hipófise, estimula a lactação pós-parto. Em níveis elevados fora da gestação e amamentação, pode causar amenorreia e infertilidade. Valores acima de 25 ng/mL merecem investigação, principalmente se houver sintomatologia.
Testosterona — Presente em mulheres também, embora em concentração muito menor que nos homens. Cerca de 20% circula livre e o restante ligado à SHBG. Valores altos podem indicar síndrome dos ovários policísticos (SOP) ou tumores androgênicos. O referência para mulheres adultas costuma ficar entre 0,1 e 0,8 ng/mL, variando conforme o laboratório. DHEA-S (Sulfato de Deidroepiandrosterona) — Hormônio adrenal precursor de andrógenos. Muito útil para diferenciar a origem da hiperandrogenia: se o DHEA-S está muito elevado, a origem provável é adrenal. Se estiver normal e a testosterona elevada, o foco vai para os ovários.
Inibina B — Marcador de reserva ovariana. Produzida pelas células da granulosa dos folículos pequenos. Níveis baixos indicam diminuição da reserva. Usada principalmente em clínicas de fertilidade para prever resposta à estimulação ovariana. AMSH (Inibina A) — Outro marcador de função ovariana, mais elevado na fase lútea e na gravidez. Menos usado no dia a dia clínico, mas relevante em monitoramento de gestação e triagem pré-natal.
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SHBG (Globulina Ligadora de Hormônios Sexuais) — Não é um hormônio por si só, mas carrega testosterona e estradiol no sangue. Baixos níveis de SHBG aumentam a fração livre de testosterona, o que explica sintomas androgênicos mesmo com testosterona total dentro da referência. Condições como resistência à insulina e obesidade costumam reduzir a SHBG. Ocitocina — Produzida no hipotálamo e liberada pela hipófise posterior. Essencial para contrações uterinas no parto e para a ejeção do leite. Também atua em aspectos comportamentais e de vínculo, mas sua dosagem isolada tem utilidade clínica limitada.
Cortisol — Hormônio do estresse produzido pelas glândulas suprarrenais. Em excesso crônico, pode suprimir o eixo Hipotálamo-Hipófise-Ovário e provocar irregularidades menstruais. Não é exclusivamente feminino, mas tem impacto direto na fertilidade.
Como interpretar os resultados na prática
A grande maioria das pessoas olha os valores de referência do laboratório e tira conclusões precipitadas. O problema é que os hormônios femininos variam conforme o dia do ciclo, o momento do dia da coleta e até o método analítico utilizado. Quando fiz minha residência em endocrinologia, atendi uma paciente de 34 anos com queixas de ciclo irregular. O painel hormonal parecia tudo normal nos valores absolutos, mas eu não estava olhando o perfil certo. A progesterona foi medida no dia 20 do ciclo, mas ela tinha ciclos de 35 dias. O resultado mostrou progesterona baixa, e a conclusão imediata seria insuficiência lútea. Na verdade, ela simplesmente ainda não havia ovulado. Eu refiz a dosagem no dia 28, com confirmation de que estava na janela correta, e o valor veio adequado. Esse tipo de erro é mais comum do que se imagina, principalmente quando o médico não confirma o dia exato da coleta em relação ao início da última menstruação.
Outro ponto que muita gente perde: a testosterona total pode estar normal, mas a livre, calculada a partir da SHBG, estar alta. Eu vi vários casos assim, especialmente em mulheres com SOP e índice de massa corporal elevado. Recomendo sempre calcular a testosterona livre usando a equação de Vermeulen quando a SHBG estiver disponível, porque o resultado muda completamente a conduta.
Pontos de atenção comuns
Existem armadilhas frequentes que merecem ser mencionadas. A primeira é coletar hormônios sem registrar o dia do ciclo. Sem essa informação, o resultado perde metade do valor clínico. A segunda é confundir referenciais laboratoriais: alguns laboratórios usam faixas para mulheres em uso de anticoncepcional hormonal e outras para mulheres ciclando naturalmente. Os valores são completamente diferentes. A terceira armadilha é o momento da coleta. O cortisol, por exemplo, tem ritmo circadiano claro — de manhã cedo os níveis estão no pico e à tarde caem pela metade. Coletar à tarde sem ajustar o referencial leva a interpretações equivocadas de hipercortisolismo ou insuficiência adrenal.
Também vale lembrar que a AMH (hormônio antimülleriano) pode permanecer estável durante o ciclo, o que facilita a interpretação, mas não elimina a necessidade de contextualizar com outros dados clínicos. Mulheres com SOP costumam ter AMH elevadíssimo, enquanto as que estão próximas da menopausa têm níveis praticamente indetectáveis. Ambos os extremos explicam padrões clínicos distintos.
Conclusão prática
O importante é tratar os exames como parte de um quadro clínico maior, não como verdades absolutas isoladas. Hormônios femininos são dinâmicos e sensíveis a diversos fatores. Quando duvidar, repita a dosagem no momento correto do ciclo, peça a testosterona livre calculada e não despreze a causa adrenal em casos de hiperandrogenia. Isso economiza tempo e evita diagnósticos errados que geram tratamento inadequado.