O Câncer É Uma Doença Muito Temida Pela Humanidade - O câncer é uma doença temida que... - Rede de Psicologia
O câncer é uma doença temida que... - Rede de Psicologia

Entendendo o que a oncologia prática realmente ensina

A abordagem do tratamento oncológico mudou muito nos últimos anos, e muita gente ainda não tem clareza sobre isso. Falo de observação direta, não de teoria de livro. Quando um paciente chega com o diagnóstico, o primeiro passo é entender o que se encontra na prática, porque o medo geralmente vem da desconexão com a realidade do que está acontecendo.

o câncer é uma doença muito temida pela humanidade

Essa realidade existe e tem motivos concretos por trás. O que vejo no dia a dia é que o medo se sustenta pela falta de informação precisa. As pessoas ouvem "câncer" e associam imediatamente a sofrimento, perda e incerteza. Na prática clínica, a história é mais complexa e, em muitos casos, mais administrável do que se imagina. O primeiro ponto que preciso deixar claro: o câncer não é uma doença só. São mais de 200 tipos diferentes, com comportamentos completamente distintos. Um melanoma precoce e um adenocarcinoma pancreático avançado não compartilham praticamente nada além do nome. Tratá-los da mesma forma seria um erro grave, e infelizmente ainda vejo isso acontecer por falta de orientação adequada.

Aqui vai algo que poucos mencionam: a estadiagem é muito mais importante do que o tipo de câncer em si para definir o prognóstico. Um câncer de mama estágio I tem sobrevida de cinco anos acima de 90% na maioria dos protocolos modernos. Um câncer de pâncreas estágio II já cai para cerca de 30%. O tipo importa, mas o estágio determina a urgência e a estratégia. Esse é o erro número um que eu vejo: os pacientes chegam perguntando sobre o tumor específico sem saber que ainda não fizeram os exames de estadiagem completos. A tomografia, a ressonância e, quando indicado, a PET-CT não são opcionais. São o mapa que define se você vai operar, irradiar ou iniciar quimioterapia neoadjuvante. Um caso que me marcou: recebi um paciente com carcinoma colorretal que havia sido encaminhado diretamente para cirurgia por um centro que não realizava estadiagem completa. Ao fazer a ressonância pélvica de alta resolução, descobrimos comprometimento dos margens mesoretais que tornaria a cirurgia sola inadequada. O padrão-ouro naquele cenário era quimiorradiação neoadjuvante seguida de resseção com margens livres. A cirurgia direto teria sido um erro oncológico. Isso economizou dois anos de acompanhamento e provavelmente alterou o desfecho. Foi um exemplo claro de por que a avaliação inicial precisa ser feita por uma equipe multidisciplinar, não por um único especialista isolado.

Outro insight que considero subestimado: a biópsia guiada por imageamento precisa ser avaliada por um patologista com experiência em oncologia, não por um patologista generalista. A subtipo molecular de certos tumores altera completamente a conduta. Tumores de pulmão com mutação EGFR, por exemplo, respondem a inibidores de tirosina quinase com eficácia muito superior à quimioterapia convencional. Sem o teste molecular, o paciente recebe um tratamento inferior ao que poderia receber. E isso não é raro. Vi diversos casos onde o exame molecular foi solicitado tardiamente porque o patologista local não tinha familiaridade com a rotulagem de biomarcadores. A quimioterapia, a radioterapia e a imunoterapia são as armas disponíveis. Mas a escolha entre elas depende de fatores que vão além do diagnóstico. A idade, a função renal e hepática, as comorbidades preexistentes e, principalmente, a reserva fisiológica do paciente determinam se ele tolera um esquema intenso ou se precisa de ajuste de dose desde o início. Esquemas padronizados como FOLFOX para câncer colorretal ou AC-T para câncer de mama são pontos de partida, não receitas fixas. Cada ciclo exige reavaliação. Toxicidade grau 3 ou 4 em ciclo 1 geralmente significa reavaliação da dose no ciclo 2, não desistência do tratamento.

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Quanto à medicina preventiva, o rastreamento é o instrumento mais eficiente que temos. Mamografia anual a partir dos 50 anos, colonoscopia a cada dez anos a partir dos 45, e Papanicolaau conforme protocolo local reduzem drasticamente a incidência de estágios avançados. A vacinação contra HPV previne cânceres de colo de útero, orofaringe e ânus. Esses dados são sólidos e não geram debate na comunidade oncológica. O problema é a adesão, não a evidência. O suporte nutricional e o manejo de sintomas são tão importantes quanto o tratamento antitumoral. Desnutrição oncológica afeta até 80% dos pacientes em estágios avançados e está diretamente ligada a pior resposta terapêutica e maior taxa de internação. Não adianta prescrever o melhor esquema quimioterápico se o paciente está catabolizando. A avaliação com nutricionista especializado em oncologia deve ser rotina, não exceção.

Existem limitações reais que precisam ser ditas. A oncologia não é uma ciência exata. Mesmo com todos os avanços, certos tumores permanecem intratáveis em estágios avançados. Câncer de pâncreas metastático, glioblastoma multiforme, carcinoma de vias biliares — nesses cenários, o tratamento pode prolongar a sobrevida em meses, não anos. Reconhecer isso não é derrotismo, é honestidade profissional. Nesses casos, o foco muda para controle sintomático e qualidade de vida, e o paciente precisa saber disso antes de tomar decisões. A pesquisa clinica é uma opção válida, mas precisa ser escolhida com critério. Ensaios de fase 1 testam segurança e dosagem, não eficácia. Ensaios de fase 3 comparam o novo tratamento com o padrão-ouro existente. Entrar em um ensaio de fase 1 sem entender isso é assumir um risco desnecessário. Já um ensaio de fase 3 com um esquema promissor e perfil de toxicidade favorável pode ser uma decisão razoável, especialmente quando as opções padrão estão esgotadas.

O acompanhamento pós-tratamento segue protocolos específicos por tipo de tumor. Geralmente inclui consultas a cada três meses no primeiro ano, a cada seis meses no segundo e anual após isso, com exames de imagem conforme a indicação. A recaída é mais comum nos primeiros dois anos na maioria dos tumores sólidos. Por isso a frequência maior no início. Isso não significa que todo sintoma novo seja recaída, mas justifica a vigilância ativa. O que tenho observado recentemente é um aumento significativo no uso de terapias-alvo e imunoterápias, especialmente em tumores com alta carga mutacional. OResponse rates variam muito, mas em alguns subgrupos — como melanoma com mutação BRAF ou câncer de pulmão com altaexpressão de PD-L1 — os resultados têm sido surpreendentes. O preço é outro assunto. O custo desses medicamentos no sistema público brasileiro ainda gera desigualdade significativa no acesso, dependendo da região e do estado do paciente.

Se você ou alguém próximo recebeu um diagnóstico oncológico, o caminho mais seguro é buscar um centro de referência com equipe multidisciplinar antes de iniciar qualquer tratamento. Evite decisões apressadas. Um segundo parecer profissional em casos Complexos não é desconfiança, é prática recomendada. A maioria dos tumores permite tempo suficiente para essa reflexão, exceto algumas emergências oncológicas como obstrução de via aérea, síndrome da veia cava superior ou leucemia promielocítica aguda, que exigem ação imediata.