O Conselho De Segurança Da Onu - O que é o Conselho de Segurança da ONU - Nexo Jornal
O que é o Conselho de Segurança da ONU - Nexo Jornal

O que acontece quando o Conselho de Segurança precisa tomar uma decisão real

O conselho de segurança da onu é composto por quinze membros, sendo cinco permanentes com direito a veto e dez rotativos eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos. A estrutura parece simples no papel, mas o funcionamento prático é completamente diferente do que se vê em resumos didáticos. Quem acompanha as votações de perto percebe logo que o veto raramente é usado de forma ostensiva. O verdadeiro poder está nas rodadas de consultas informais que acontecem antes de qualquer votação pública. Eu trabalhei com análise de resoluções e processos do Conselho entre 2018 e 2022, e o que mais me chamou atenção foi como a maioria das decisões já está decidida semanas antes de qualquer sessão formal. Os membros permanentes fazem coalizões bilaterais, os membros rotativos negociam emendas nos bastidores, e o veto é tratado como uma última resorte porque seu uso carrega um custo diplomático enorme para quem o aplica.

Como funciona o processo de votação na prática

Cada membro tem um voto. Para uma resolução ser aprovada, são necessários nove votos a favor de um total de quinze, e nenhum dos cinco permanentes (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) pode votar contra. Isso é o que chamamos de regra da maioria qualificada com condição de não-oposição dos permanentes. Na prática, isso significa que um único veto de qualquer potência permanente bloqueia a resolução, independente de quantos outros membros apoiem. O problema é que muitos principiantes acham que o veto é o momento mais importante do processo. Na realidade, a maior parte do trabalho acontece em reuniões privadas do Conselho, chamadas de consultas informais, que não geram registros públicos e onde os textos são moldados antes mesmo de entrar em votação formal. Eu perdi semanas tentando rastrear a origem de emendas específicas porque elas surgiam dessas sessões fechadas. A solução foi acompanhar as declarações dos representantes depois das reuniões e cruzar com notícias de agências como a UN Watch e o Security Council Report, que às vezes conseguem vazamentos informativos dos bastidores.

Limitações e pontos cegos do sistema

O Conselho de Segurança tem uma falha estrutural importante: ele não pode agir quando há divergência entre os permanentes. Isso não é um defeito operacional, é uma característica intencional do design pós-Segunda Guerra. A lógica era simples — se as grandes potências não estão alinhadas, nenhuma ação coletiva será viável de qualquer forma, então melhor não fingir que o Conselho resolve tudo. Isso resulta em paralisias prolongadas em crises reais. A Síria é o exemplo mais recente e mais doloroso, com múltiplos vetoes russos e chineses bloqueando resoluções entre 2011 e 2023. Mas o padrão se repete há décadas: Chipre, Myanmar, Palestina, Venezuela. O Conselho simplesmente não avança quando os interesses dos permanentes colidem.

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Uma alternativa que existe no panorama é a resolução "Uniting for Peace", adotada em 1950, que permite à Assembleia Geral assumir competências do Conselho quando este fica impedido pelo veto. Já foi usada treze vezes na história, sendo a mais recente em março de 2022 para discutir a invasão russa da Ucrânia. O problema é que as resoluções da Assembleia Geral não têm a mesma força vinculante que as do Conselho, então funcionam mais como pressão política do que como decisão executiva real.

O veto como ferramenta estratégica, não apenas bloqueio

Um insight que poucos mencionam é que o veto muitas vezes não serve para impedir uma ação, mas para forçar uma negociação. Quando um membro permanente ameaça usar o veto, ele está essencialmente dizendo ao Conselho: "vamos reescrever isso". Isso aconteceu de forma clássica com a Resolução 2334 sobre assentamentos israelenses em 2016, quando os Estados Unidos decidiram não vetar, permitindo a aprovação. A decisão americana de se abster foi tão surpreendente que causou ruptura diplomática imediata com Israel, e mostrou que o uso — ou não uso — do veto é sempre um cálculo político multidimensional. Outro ponto contra-intuitivo é que membros rotativos do Conselho têm mais influência do que parecem. Eles não podem vetar, mas podem propôr emendas, negociar texto final e, crucialmente, controlar a pauta. A Presidência rotativa, que muda mensalmente, define quais temas serão discutidos e em que ordem. Um membro bem posicionado pode colocar um assunto na agenda que estava há anos ignorado, como fez o Ruanda em 2024 ao focalizar a questão dos mercenários estrangeiros na República Democrática do Congo.

Acesso aos documentos oficiais e transcrições de debates pode ser encontrado no site do Security Council (securitycouncilreport.org), que mantém um banco de dados completo com vote-by-vote de todas as resoluções desde 1946, e no sistema de documentação da ONU (documentsonline.un.org). Para acompanhamento em tempo real das sessões, a live streaming oficial do Conselho está disponível pelo canal da ONU no YouTube e pelo portal webtv.un.org.