A queda de Vargas e o fim da Era Vargas
Em 1945, o Brasil viveu uma das transições políticas mais relevantes do século XX. Getúlio Vargas, que governava o país desde 1930 com altos e baixos, e particularmente desde 1937 com o regime autoritário do Estado Novo, foi deposto em um golpe militar organizado por seus próprios aliados. O mês de outubro foi decisivo. No dia 29, Vargas renunciou e deixou o poder nas mãos de uma junta militar composta pelo general Higino Cinquentini, pelo almirante João Augusto Raul Moscoso e pelo general Eduardo Gomes. O que aconteceu em 1945 no brasil, resumidamente, é a abertura democrática que se seguiu a 15 anos de governo centralizado. As eleições presidenciais ocorreram em dezembro daquele ano, e Eurico Gaspar Dutra foi eleito com cerca de 55% dos votos, tomando posse em janeiro de 1946. Dutra era general da Primeira Guerra Mundial e tinha ligações com o regime varguista, mas prometia um retorno à normalidade constitucional.
Um detalhe que poucos mencionam: o movimento que derrubou Vargas não partiu de opositores ideológicos tradicionais. Foi liderado por setores das Forças Armadas que se sentiram traídos por Vargas ao tentar prolongar seu mandato através de uma nova constituinte que ele mesmo controlava. A pressão veio principalmente do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, estados que historicamente sustentaram a base política getulista.
O que aconteceu em 1945 no brasil: contexto militar e participação na Segunda Guerra
O Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália em agosto de 1942, após submarinos alemães afundarem navios mercantes brasileiros no Atlântico Sul, matando mais de 600 pessoas. Dois anos depois, em 1945, a Força Expedicionária Brasileira (FEB), conhecida como "Serpente que Fuma", estava ativa na campanha da Itália. A FEB participou de combates decisivos, incluindo a tomada de Monte Castello em fevereiro e a ruptura da Linha Gótica em abril. A rendição alemã na Europa ocorreu em maio de 1945, mas os brasileiros já estavam próximos do final do conflito na Itália. O retorno dos soldados brasileiros, os "pracinhas", gerou grande comoção popular e,ironicamente, acelerou a queda de Vargas, pois os militares que lutaram na Europa tinham uma visão mais alinhada com a democracia ocidental.
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Criticos do regime varguista usaram a participação na guerra como argumento político: se o Brasil lutava contra ditaduras na Europa, por que manter um regime autoritário em casa? Essa contradição foi fundamental para corroer o suporte militar de Vargas dentro do próprio quartel.
Mudanças partidárias e o cenário político
Com a abertura política, novos partidos foram legalizados ou reorganizadosem 1945. O Partido Social Democrático (PSD) reuniu os apoadores locais de Vargas, enquanto o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) surgicomo a base organizadora do trabalhismo getulista. O Partido Democrata Cristão (PDC) e a União Democrática Nacional (UDN) completaram o quadro. A UDN, em particular, foi a principal força oposicionista e teve apoio significativo nos meios universitários e na classe média urbana. O partido comunista (PCB), anteriormente ilegal desde 1947, voltou à legalidade temporariamente. Isso gerou preocupação entre setores conservadores e americanos, já que a Guerra Fria estava começando a se consolidar globalmente. A presença do PCB nas eleições de dezembro acabou sendo um fator que polarizou ainda mais o debate eleitoral.
Questões práticas sobre esse período que você precisa saber
Quando se pesquisa sobre 1945 no Brasil, há uma confusão comum entre os eventos de outubro de 1945 e a Constituição de 1946. Muita gente trata como se a nova carta fosse promulgada em 1945, mas ela só entrou em vigor em janeiro de 1946, elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte eleita ainda em 1945. Os primeiros efeitos práticos dessa constituição — como o restabelecimento do pluripartidarismo e o fim da censura prévia — já começaram a ser sentidos ainda no final de 1945. Um problema que encontro frequentemente ao orientar pesquisas sobre esse período: as fontes primárias sobre a queda de Vargas são fragmentadas. Memórias de participantes diretos tendem a ser tendenciosas, e documentos oficiais do período foram parcialmente perdidos ou destruídos durante as mudanças de governo. Minha recomendação prática é cruzar sempre os diários militares da época com a imprensa alternativa, como o jornal "A Noite" e "O Estado de S. Paulo", que tinham linhas editoriais distintas e registraram os eventos de ângulos diferentes.
Outro ponto que vale destacar é a questão econômica. O Brasil saiu da Segunda Guerra com uma balança comercial favorable devido às exportações de matéria-prima durante o conflito, mas a economia interna estava desorganizada. A inflação estava alta, a infraestrutura de transporte precária, e a indústria nacional, embora tivesse crescido durante a guerra, precisava se adaptar à paz. Esse contextoeconômico explicaparte do apoio inicial de Dutra, que parecia um candidato tecnocrata e estável para muitos eleitores cansados de agitação política. O que ficou de legado em 1945 foi principalmente a demonstração de que o regime militar podia se autoderrubar quando percebia que o líder que o sustentava havia perdido o controle da situação. Isso se repetiria em 1964, com dinâmicas semelhantes mas consequências radicalmente diferentes.