O que é um hotspot de biodiversidade
Hotspot de biodiversidade é um conceito aplicado em biogeografia e conservação que define áreas com alta concentração de espécies endêmicas e alto grau de ameaça por perda de habitat. Não é um título honorífico dado por algum prêmio. É uma ferramenta prática de priorização.
O que é hotspot de biodiversidade na prática
A definição formal, estabelecida pela Conservation International a partir dos critérios propostos por Norman Myers em 2000, exige dois quesitos simultâneos: o primeiro é ter pelo menos 1.500 espécies de plantas vasculares endêmicas (ou seja, que não existem em nenhum outro lugar do planeta), o que representa mais de 0,5% do total mundial. O segundo é que a área tenha perdido pelo menos 70% de sua vegetação original. Se uma região cumpre os dois, ela entra na lista. Nada mais, nada menos. No momento, existem 36 hotspots reconhecidos globalmente. Eles cobrem cerca de 2,4% da superfície terrestre, mas abrigam mais de 50% das espécies de plantas vasculares do mundo e cerca de 43% dos mamíferos, aves, répteis e anfíbios como endêmicos. A Mata Atlântica, por exemplo, é um deles. O mesmo vale para os Andes Tropicais, o Cerrado, a Floresta da Costa do Moçambique e a região do Cabo na África do Sul.
O problema é que a maioria dos artigos introdutórios sobre o assunto para nessa definição básica e não vai além. A gente que trabalha com planejamento conservacionista sabe que a aplicação prática traz uma série de questões que o conceito não resolve. O primeiro custo de usar hotspots como critério de alocação de recursos é que ele foca estritamente em plantas vasculares como indicador. Espécies de invertebrados, fungos e microrganismos simplesmente não entram no cálculo. Isso significa que uma área pode ser excepcionalmente diversa nesses grupos e ficar fora do mapeamento só porque não tem número suficiente de plantas endêmicas catalogadas. Eu já vi um caso concreto disso no sul da Bahia, onde uma faixa de floresta atlântica secundária abrigava uma riqueza de anfíbios bromelícolas que ninguém considerava porque os dados botânicos eram escassos e a contagem de plantas vasculares endêmicas na região estava abaixo do limiar. O segundo ponto que muitos não levam em conta é que o critério dos 70% de perda de habitat usa dados históricos de cobertura vegetal, não a situação atual em tempo real. Imagens de satélite mostram que vários hotspots já estão tão fragmentados que parte significativa do que sobrou são remanescentes pequenos demais para sustentar populações viáveis das espécies-alvo. Isso gera um efeito perverso: as áreas que mais precisam de intervenção imediata podem ser as que já estão, de fato, muito além do ponto de reversão pelo método tradicional de restauração passiva.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Uma limitação técnica que eu conheço bem é a escala de análise. Os hotspots são definidos em escala macro-regional. Quando você desce para o nível de municípios ou bacias hidrográficas, a correspondência com os limites do hotspot muitas vezes não se mantiene de forma útil. No meu trabalho, eu costumava cruzar os polígonos do hotspot com camadas de unidades de conservação e que grande parte do território dentro do hotspot não tinha nenhuma UC efetivamente manejada. Isso acontece porque os limites foram desenhados com base em padrões biogeográficos, não em propriedade fundiária ou governança existente. Existe também uma crítica relevante quanto ao viés de megadiversidade. Países com boa capacidade de pesquisa e financiamento tendem a ter seus hotspots melhor mapeados, enquanto regiões similares em países com menos infraestrutura científica podem ser sub-representadas. O hotspot da Bacia do Congo, por exemplo, foi reconhecido mais tarde que outros por causa dessa assimetria de dados. Isso não invalida o conceito, mas precisa ser lido com cuidado quando se planeja ações de conservação.
Na prática, a ferramenta mais comum de uso é o mapeamento pelo Global Nature Fund e pela Conservation International, disponível gratuitamente no site deles. Você baixa os shapefiles, sobrepõe com suas camadas de interesse e faz a interseção. O processo leva cerca de 15 minutos se você já tiver os dados georreferenciados organizados. Se estiver começando do zero, pode levar duas horas, dependendo da qualidade dos seus shapefiles e da versão do software de SIG que estiver usando. Para quem quer ir além do uso básico, o método de complementarity-based gap analysis é mais robusto. Ele não se limita a verificar se uma área está dentro de um hotspot, mas calcula quais conjuntos de áreas protegem o maior número possível de espécies endêmicas com o menor investimento em terreno. Ferramentas como o Zonation e o Marxan fazem isso. O resultado é que você consegue priorizar áreas que não estão necessariamente nos hotspots clássicos mas que têm valor conservacionista alto quando consideradas em conjunto com outras regiões vizinhas.
O grande risco de confiar apenas no conceito de hotspot é tratá-lo como se fosse sinônimo de "área que precisa ser conservada". Ele é um filtro inicial, não uma conclusão. Áreas dentro de um hotspot que estão bem preservadas ainda precisam de manejo. Áreas fora dele que abrigam espécies ameaçadas ou funções ecológicas críticas não deixam de ser importantes. O hotspot é um ponto de partida para a alocação de recursos escassos, não um Juízo Final sobre onde o trabalho deve ou não ser feito.