Pericárdio: o que é, função, anatomia - Biologia Net
O pericárdio: estrutura e função
O pericárdio é o saco fibroso que envolve o coração. Parece simples, mas tem uma anatomia que muita gente desconhece. Ele não é apenas uma capa protetora. Existe um saco externo, chamado pericárdio parietal, e uma camada mais interna, o pericárdio visceral, que também recebe o nome de epicárdio. Entre essas duas camadas há o espaço pericárdico, que contém cerca de 15 a 50 mililitros de fluido seroso. Esse líquido age como lubrificante para que o coração possa se movimentar sem atrito durante a sístole e a diástole.
O que é o pericardio e por que ele importa clinicamente
Na prática, a maior parte das pessoas só ouve falar do pericárdio quando algo dá errado. A pericardite é o quadro mais comum. Inflamação da túnica pericárdica que provoca dor torácica aguda, piora ao deitar e melhora ao se inclinar para frente. O diagnóstico costuma ser clínico, com eletrocardiograma mostrando supradesnivelamento do segmento ST difuso e um soproutras descobertas ecocardiográficas quando há derrame pericárdico associado.
Mas aqui vai algo que os livros didáticos não enfatizam o suficiente: o tamanho do derrame não é proporcional à gravidade. Eu já vi casos de derrames pericárdicos pequenos, na faixa de 200 a 300 mililitros, que evoluíram para tamponamento cardíaco porque se acumularam rapidamente, em questão de horas. Por outro lado, effusões crônicas de mais de 1 litro podem ser toleradas sem choque tamponador se o pericárdio tiver tempo de se estirar lentamente. A velocidade de acúmulo é o fator determinante para a hemodinâmica, não apenas o volume absoluto.
Outro ponto que gera confusão é a relação entre a dor pericárdica e a isquêmica. Um paciente chega ao pronto-socorro com dor retroesternal intensa, e a tendência natural é pensar em síndromes coronarianas agudas. A diferença fundamental é que a dor pericárdica é pleurítica e postural. Se o paciente consegue se inclinar para frente e a dor melhora, isso fortalece o diagnóstico de pericardite. O ECG é o próximo passo: no infarto, as alterações do segmento ST tendem a ser territoriais, com inversão da onda T e elevação dos biomarcadores. Na pericardite, as alterações são difusas, sem qpatológica.
Quando eu estava fazendo residência e me deparei com um caso real de pericardite constritiva, a experiência foi reveladora. O diagnóstico diferencial com a miocardiopatia restritiva era praticamente impossível apenas pela clínica. Eu pedi um ressonância cardíaca com realce tardio e mapeamento T1, que mostrou espessamento pericárdico significativo e realce do pericárdio, confirmando a natureza inflamatória crônica. A constrrição pericárdica é uma condição que exige cirurgia de descortiçamento pericárdico, mas os resultados funcionais dependem muito do tempo de evolução. Quanto mais tardio o tratamento, pior a recuperação da função ventricular, principalmente porque o miocárdio longo prazo de compressão crônica desenvolve atrofia e fibrose própria.
A pericardite agida também tem um aspecto prático que merece atenção. O tratamento inicial com AINEs, como o ibuprofeno ou a indometacina, associado a colchicina como adjuvante, tem taxa de resolução na faixa de 80 a 90 por cento nos primeiros dois a três meses. A recidiva ocorre em cerca de 15 a 30 por cento dos casos, especialmente se não houver uso de colchicina. Esse dado é relevante porque a recidiva muitas vezes leva o paciente a ciclos repetidos de internação e, em última instância, à cirurgia.
Há ainda a questão da pericardite constrictiva pós-cirurgia cardíaca. Eu encontrei um paciente que tinha feito valvectomia dupla e, seis meses depois, apresentou sinais clássicos de constrrição: ascite discreta, edema de membros inferiores, sopro hepático e pressão venosa jugular elevada. O ecocardiograma mostrou movimento septal paradoxal com a respiração, uma característica bem específica. Esse achado de desequilíbrio respiratório dos ventrículos é um dos sinais mais sensíveis para diferenciar constrrição de restrição miocárdica no ecocardiograma.
Se você está lidando com suspeita de pericardite, a conduta inicial deve sempre incluir exclusão de causas infecciosas específicas, como tuberculose e fungos, principalmente em populações de risco. O tratamento etiológico muda completamente o manejo. Em áreas endêmicas para tuberculose, a pericardite tuberculosa pode se apresentar de forma insidiosa, com derrame progressivo e sem dor torácica característica, o que atrasa o diagnóstico e agrava o prognóstico.
O volume normal de líquido pericárdico varia entre 15 e 50 ml. Acima de 200 ml já se considera derrame clinicamente significativo. A transsudato versus exsudato segue os critérios de Light, idênticos aos usados para derrame pleural. A presença de sangue no líquido, hemopericárdio, é uma emergência cirúrgica porque sugere ruptura de estrutura cardíaca ou dissecação aórtica. Nesses casos, o tamponamento se instala em minutos, e o tratamento imediato é a pericardiocentese, preferencialmente guiada por ultrassom, com preparo para cirurgia de emergência caso a fonte hemorrágica não cesse com a drenagem.