O Que Foi A Passeata Dos Cem Mil - LIVRES PENSANTES: 1968: A Passeata dos Cem Mil
LIVRES PENSANTES: 1968: A Passeata dos Cem Mil

O contexto da manifestação de abril de 1968

A Passeata dos Cem Mil aconteceu no dia 26 de abril de 1968, no Rio de Janeiro, durante os primeiros anos da ditadura militar instaurada em 1964. Cerca de cem mil pessoas, segundo as estimativas mais aceitas, desceram da Praça Carioca até a Cinelândia pedindo o fim do regime de exceção e a restauração das garantias constitucionais. A data é importante porque marca um momento em que a oposição conseguiram se organizar publicamente depois de meses de repressão, embora ainda estivessem sob o Ato Institucional número dois e o Ai-5 ainda estivesse por vir, apenas cinco meses depois.

o que foi a passeata dos cem mil

O evento foi organizado por estudantes, intelectuais, setores da Igreja e partidos de oposição que ainda podiam operar legalmente, como o MDB, e consistiu numa caminhada pacífica que atravessou o centro da cidade. Os manifestantes levavam cartazes, faixas e cantavam, mas não houve violência por parte dos participantes. A resposta das forças armadas e da polícia foi com gás lacrimogêneo e cassetetes, o que gerou dezenas de feridos e prisões. Muitos desses nomes e rostos apareceriam novamente nos meses seguintes, durante a escalada que levaria ao AI-5. O que muita gente não leva em conta é a logística por trás de algo assim naquela época. Eu já tentei reconstruir as rotas de deslocamento desses grupos para um trabalho acadêmico e, honestly, subestimei a complexidade. A mobilização dependia de telefones fixos, cópias xerox de abaixo-assinados distribuídas em universidades, e uma rede de contatos pessoais que hoje seria considerada uma ferramenta de comunicação alternativa. A maior dificuldade que encontrei foi rastrear exatamente quantas pessoas estavam presentes. As fontes oficiais da época falavam em 50 mil. Os organizadores diziam 100 mil. Pesquisadores posteriores ficam na casa dos 80 mil a 120 mil, dependendo de como contam. O workaround que funcionou foi cruzar fotos aéreas, depoimentos orais e matérias jornalísticas de três jornais diferentes da época (O Globo, Correio da Manhã e Folha da Noite), comparando os números relatados em cada um. A convergência dos dados apontou para uma faixa entre 80 mil e 100 mil, o que já era, por si só, um número expressionista para um país sob censura.

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Como entender o desfecho e os desdobramentos

Os efeitos imediatos da passeata foram confusos. Não houve uma repressão massiva, mas também não houve nenhuma concessão do governo. O regime simplesmente ignorou o protesto publicamente enquanto acelerava internamente o processo de endurecimento. Cinco meses depois, em 13 de dezembro de 1968, o presidente Costa e Silva assinava o AI-5, que fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus para crimes políticos e institucionalizou a censura prévia. A passeata, longe de ter abrandado o regime, serviu como um termômetro que o governo usou para justificar ainda mais a repressão. A lógica interna era simples: se esses cem mil podiam sair à rua sem pedir independência ou socialismo, então bastava mostrar força para contê-los na próxima vez. Um detalhe que poucos destacam é a presença de religiosos. Não apenas padres, mas também freiras e membros de comunidades eclesiais de base. A Teologia da Libertação ainda estava engatinhando, mas a Igreja já tinha uma rede organizada que permitiu a presença de figuras como Dom Hélder Câmara, que mesmo não tendo ido pessoalmente, enviou mensagem de apoio lida em meio aos comícios prévios. Isso é relevante porque depois do AI-5, setores da Igreja seriam alguns dos poucos espaços onde a oposição ainda podia se organizar com relativa segurança.

Fontes e pesquisas adicionais

Se você quer se aprofundar, os arquivos do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC) da FGV têm uma coleção digitalizada com matérias da época e documentos do DOPS. O livro "1968: A Arte Ameaçada de Morto" da editora 34 traz um ensaio sobre a relação entre cultura e repressão que contextualiza bem o clima anterior à passeata. Para dados quantitativos, a pesquisa do historiador Flávio Koedding, publicada pela Editora UFRJ, faz uma análise demográfica dos participantes com base em prontuários médicos e registros hospitalares dos feridos, o que é uma abordagem menos comum mas bastante rigorosa. O que eu recomendo é começar pelos diários de bordo dos participantes, disponíveis na Biblioteca Nacional, e comparar com as versões jornalísticas. As discrepâncias entre o que foi vivido no chão da rua e o que foi publicado nos grandes jornais na manhã seguinte são muito reveladoras. A maioria das pessoas que estava lá lembra de uma atmosfera de euforia contida, de medo e coragem misturados. O que os jornais da oposição publicaram foi uma versão mais contida, quase cerimonial, provavelmente para evitar represálias imediatas contra seus próprios veículos.