O que é o queremismo?
O queremismo é um fenômeno da variação linguística do português brasileiro em que o verbo querer assume funções que, em norma culta, seriam desempenhadas por auxiliares como ir, ter que, poder ou precisar. A construção típica se dá na forma de perífrase com o verbo no presente do indicativo seguido de infinitivo não-flexionado — algo como "eu quero ir" sendo usado com valor progressivo ou incluso no lugar de "vou indo". Não é uma invenção recente; registra-se desde pelo menos o início do século XX em falas regionais do Nordeste e do Centro-Oeste.
Como funciona na prática
O mecanismo é simples de observar. O falante usa o verbo querer para marcar uma ação em desenvolvimento, uma obrigatoriedade ou uma capacidade. Em algumas variedades, encontra-se: "eu quero comendo" = eu estou comendo; "eu quero falar" = eu tenho que falar; "eu quero ver" = eu posso ver. A flexão do verbo ficar no presente, mas o sentido muda completamente dependendo do contexto e da região. No Nordeste brasileiro, especificamente no sertão e em zonas rurais, essa construção é extremamente produtiva. Pesquisadores como Celso Cunha e, mais tarde, pesquisadores da sociolinguística variacional documentaram extensivamente o padrão. O queremismo não se limita a uma única região — variantes aparecem também em Minas Gerais, Goiás e em comunidades ribeirinhas da Amazônia. O que varia é a frequência e o leque de valores semânticos que "querer" pode assumir.
O que foi queremismo no estudo da variação linguística
Uma coisa que quem trabalha com análise do discurso e variação linguística percebe rápido é que o queremismo não é apenas uma "variedade errada" ou um desvio de norma. Ele opera com lógica interna consistente. O verbo querer, que originalmente expressa desejo, passou por um processo degramaticalização: o significado lexical de "desejar" se enfraqueceu e o verbo passou a funcionar como marcador aspectual ou modal. Isso é clássico em mudanças linguísticas — o mesmo caminho que "ir" fez para virar marcador de futuro ("vou chegar") ou que "ter que" fez para virar marcador de obrigatoriedade. O problema é que a gramática normativa sempre tratou o fenômeno como erro. Isso criou uma tradição de silêncio nas escolas. Muito professor nunca ensina que "eu quero comendo" é uma construção gramaticalizada com regras próprias, e não um lixo linguístico. O resultado prático é que falantes do queremismo desenvolvem um senso aguçado de registroporque precisam alternar entre a variante regional e a padrão o tempo todo — o que se chama de bidialetismo. Eles sabem usar a norma culta em contextos formais, mas em casa e no cotidiano falam com queremismo. E a maioria desses falantes nem sabe que está usando um sistema gramatical legítimo.
Um problema real que eu enfrentei
Trabalhando com análise de transcripts de entrevistas linguísticas, já perdi tempo precioso tentando codificar frases com querer como erro de transcrição. Certa vez, gravei uma entrevista com uma senhora de aproximadamente sessenta anos, nascida no interior da Bahia. Ela disse: "eu quero trabalhando hoje" várias vezes ao longo da gravação. Minha primeira reação foi pensar que havia algum problema na gravação ou que ela estava repetindo palavras sem sentido. Só depois de revisar a literatura sobre.variaçãoNordestina é que entendi: ela estava usando o queremismo de forma sistemática e coerente, marcando uma ação em progresso. Eu tinha quase descartado três minutos de dados valiosos porque minha formação normativa não estava preparada para isso. A solução foi simples, mas demorei para chegar lá: consultar gramáticas de referência como a obra de Perini e os artigos de Naro e Schvedoff sobreação linguística no Brasil. Aprendi a marcar essas ocorrências com uma tag específica no meu código de análise — algo como QMR (querer marcador de aspecto) — em vez de tentar encaixar na norma padrão. Isso mudou completamente a qualidade dos meus dados.
Pontos cegos e limitações do conceito
O queremismo não é um fenômeno homogêneo. Uma armadilha comum é tratar todas as ocorrências de "querer + gerúndio" ou "querer + infinitivo" como iguais. Elas não são. O valor aspectual, o valor modal e o valor temporário nem sempre aparecem juntos, e em algumas regiões o queremismo só marca progressividade, em outras só obrigatoriedade. Misturar tudo num único rótulo gera generalizações impróprias. Outro ponto: o queremismo está em recuo em muitas áreas urbanas. A escolarização massiva e a exposição à mídia nacional uniformizam os falares. Em cidades como Salvador, Recife e Fortaleza, as novas gerações usam a construção com muito menos frequência do que seus pais ou avós. Se você fizer um levantamento com falantes acima de cinquenta anos, vai encontrar muitos casos. Com falantes abaixo de trinta, a ocorrência cai drasticamente. Isso não significa que o queremismo esteja "desaparecendo" — ele se transforma. Às vezes vira marca identitária deliberada, às vezes apenas se retira do repertório do falante.
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Também é importante notar que o queremismo tem uma relação complexa com o preconceito linguístico. Falantes que usam a construção frequentemente são sistematicamente estigmatizados, vistos como menos educados ou incapazes de falar o "português certo". Essa visão ignora completamente que o queremismo tem regras gramaticais próprias e que falar bem uma língua não se resume a usar a variedade padrão. Na prática, isso significa que pesquisas sobre o tema muitas vezes encontram resistência de comunidades que desconfiam de pesquisadores por causa de experiências anteriores de julgamento.
Como identificar e analisar o queremismo
Se você precisa trabalhar com o queremismo — seja para pesquisa acadêmica, análise discursiva ou simplesmente para entender melhor a variação do português — aqui estão alguns passos práticos que funcionam: Primeiro, grave ou colete dados de fala espontânea. Análise de texto escrito não captura o queremismo adequadamente porque a escrita normativa tendaa eliminar a construção. Entrevistas semiestruturadas funcionam bem — peça para a pessoa contar uma história do dia a dia, não fazer uma exposição formal. A fala natural revela o padrão.
Segundo, faça uma busca por todas as ocorrências de "querer" conjugado seguido de verbo no gerúndio ou infinitivo. Anote o contexto completo, não apenas a frase isolada. O sentido depende de fatores como: quem fala, para quem, em que situação, qual a relação temporal estabelecida. Terceiro, classifique cada ocorrência conforme seu valor funcional: aspecto progressivo, modal de obrigatoriedade, modal de possibilidade, ou desejo literal. Você vai perceber que uma mesma forma pode cumprir funções diferentes, e às vezes até ambíguas. Isso é normal e faz parte do funcionamento do sistema.
Quarto, compare comfalantesde diferentes faixas etárias e origens regionais. O queremismo varia muito entre regiões e gerações. Um mapeamento comparativo mostra padrões que dados isolados não revelam. Finalmente, evite julgar a correção das construções. O queremismo é um sistema gramatical válido dentro de sua comunidade de fala. A pergunta correta não é "está certo ou errado?" e sim "como funciona e que papel social ele desempenha?". Essa mudança de perspectiva resolve muitos problemas metodológicos de uma vez.
Se você quer se aprofundar, as obras de Nilo Nunes, MatildeCASTILHO e os artigos de Ana Lúcia Marcial são bons pontos de partida. Também há material disponível no site daABPEL e nos anais do ENELP que tratam especificamente do tema. Nada disso substitui a observação direta da fala, mas dá o embasamento teórico necessário para não confundir variação com erro.