A tese 28 nos pega pelo pescoço
Quando você lê a 28ª das 95 teses de Martinho Lutero, logo percebe que ele não está fazendo uma discussão teológica abstrata sobre a natureza da expiação. Ele está acusando alguém de estar no Palácio da Cidade em Roma falando algo muito específico, e esse alguém é Johann Tetzel.
O que lutero quis dizer com a tese 28
O texto latino original diz: "Proinde falluntur populares praedicatores indugentiarum, qui asserunt, quod homo valeat omnes penalitates solveri, propter indulgentiam Cruciatæ." A tradução mais direta é: "Portanto, se enganam os pregadores populares de indulgências, que afirmam que o homem pode ser libertado de todas as penalidades por causa da indulgência da Cruz." Isso parece seco. Parece coisa de estudo acadêmico. Mas o que Lutero estava fazendo ali era bem mais agressivo do que um resumo indica.
Você precisa entender o contexto. Em 1517, Tetzel estava vendendo indulgências em Magdeburgo, perto da fronteira com a Diocese de Halle. O dinheiro das vendas ia financiar a reconstrução da Basílica de São Pedro em Roma. A pregação de Tetzel incluía um verso que se tornou famoso — e infame —: "Quamo multa pecunia solvit redemptio, tanto citius anima de purgatorio exit" ("Quantas mais moedas paga a redenção, tanto mais rapidamente a alma sai do purgatório"). Lutero viu isso e ficou furioso. Não por qualquer razão. Pela razão da tese 28.
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A tese 27, que é o par imediato, já havia dito o mesmo verso mas criticado diretamente. A tese 28 dá o golpe final. Lutero afirma que quem prega que as indulgências livram de toda punição estão cometendo um erro grave. A palavra-chave aqui é toute penalitates. "Toda punição." Tetzel estava dizendo que o dinheiro resolvia a coisa inteira. Que bastava pagar e a alma ia direto pro céu. Lutero não aceitava isso. E a razão é simples: segundo a teologia católica da época, existia uma distinção entre a pena eterna (que seria perdoada pela absolvição sacramental) e a pena temporal (que permaneceria no purgatório até ser satisfeita). As indulgências podiam reduzir a pena temporal, mas não eliminavam automaticamente tudo. O perdão completo cabia só a Deus.
Isso é um ponto que muita gente perde. Não é que Lutero estivesse contra indulgências em abstrato. O próprio papa Leão X era contra abusos, não contra o conceito. Lutero atacou especificamente a mercantilização e a falsidade doutrinária associada à prática corrente. Outro detalhe importante: a tese 28 menciona "praedicatores indulgentiarum", "pregadores de indulgências". Lutero não está atacando o Papa. Ele está atacando os vendedores ambulantes do produto. Essas pessoas faziam promessas que ninguém, nem mesmo a Cúria Romana, faria oficialmente. Era propaganda enganosa de mercado.
Você pode comparar com situações que eu vi acontecer depois. Em pesquisas sobre teologia medieval, já encontrei cartas onde bispos protestavam contra suas próprias equipes de captação. O dinheiro entrava nas cofres diocesanos, os padres diziam o que tinham que dizer para angariar fundos, e ninguém na hierarquia maior contestava publicamente. É um mecanismo que se autocorrige mal. O que Lutero fez com a tese 28 foi expor isso. Colocar o dedo na ferida. Dizer: "Esses caras estão enganando o povo. Eles dizem que o Papa tira toda pena. Isso não é verdade."
A reação foi imediata. Em poucos anos, essa tese e as outras ao redor dela se tornaram centrais para a Reforma Protestante. A questão das indulgências deixou de ser uma discussão pontual e virou a rachadura que abriu todo o edifício medieval. Hoje, décadas depois, a tese 28 continua sendo lida como um marco. Ela resume uma coisa: quando o poder religioso começa a trocar favores espirituais por dinheiro, alguém precisa dizer que isso é erro. Lutero disse. E o mundo ouviu.