O que os fiéis católicos costumam realizar durante a quaresma
Quaresma é um período de 40 dias que antecede a Páscoa, começando na Quarta-feira de Cinzas e terminando na Quinta-feira Santa, antes da Vigília Pascal. A Igreja estabelece três pilares principais para esse tempo: a oração, o jejum e a esmola.
O que os fiéis católicos costumam realizar durante a quaresma na prática
O ritual mais imenso envolve a abstinência de carne nas sextas-feiras e o jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. Isso significa, para adultos entre 18 e 59 anos, uma única refeição completa ao dia, com outras duas menores que não reconstituem uma refeição. Não é opcional quando você está na faixa etária e sem dispensa médica. Uma coisa que ninguém explica direito é a diferença entre abstinência e jejum. Abstinência é abrir mão de carne e derivados de animais. Jejum é controle de quantidade. Muita gente confunde os dois e acaba fazendo apenas uma coisa, achando que cumpriu ambas. O Código de Direito Canônico (cânones 1251 e 1252) deixa isso claro, mas a leitura raramente chega à base.
Outro ponto que as pessoas ignoram: a Quaresma não termina no Domingo de Ramos. Tecnicamente, o tempo quaresmal se estende até a Missa Crismal da Quinta-feira Santa, à tarde. Depois disso entramos na Tríduo Pascal. Esse detalhe importa porque algumas devoções, como o Viacrucis, mudam de ritmo nessa transição. Parei de remar contra essa corrente depois que li o calendário litúrgico oficial da Conferência Episcopal do meu estado. Além dos pilares canônicos, existem práticas devotionais comuns. Muitas paróquias organizam o Viacrucis quaresmal, especialmente nas sextas-feiras. Algumas comunidades rezam o Terço com intenções especiais ou fazem a Adoração do Santíssimo Sacramento em momentos fixos. A prática da confissão quaresmal é extremamente comum e os confessionários ficam lotados na Semana Santa, às vezes com filas de mais de uma hora. Eu cheguei a esperar 50 minutos numa sexta-feira de quaresma em 2019. Minha solução foi ir numa terça-feira qualquer, duas semanas antes, quando o padre estava disponível e pude fazer uma confissão bem mais tranquila e longa.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
A esmola, ou caridade, também recebe destaque. A Caminhada da Esperança, arrecadações para comunidades carentes e a doação de parte do dinheiro economizado no jejum são ações típicas. O projeto "Quaresma Solidária" de várias dioceses pede que os fiéis destinem uma quantia fixa mensal para instituições beneficentes. Funciona bem quando você estabelece um valor que não comprometa o orçamento, senão vira mais uma obrigação financeira do que prática espiritual. Há também o costume de fazer uma penitência pessoal. Pode ser abrir mão de algo prazeroso — redes sociais, doces, cerveja, séries — durante os 40 dias. Eu já vi gente cortar completamente o uso do celular e outras simplesmente não tocam mais no Instagram. O efeito é diferente. Cortar radicalmente funciona para quem tem disciplina, mas gera rebote forte. O método que eu recomendo é substituir, não apenas suprimir. Trocar 30 minutos de TV por leitura de um texto sagrado ou por um caminhada silenciosa produz mais fruto do que simplesmente eliminar o hábito.
O uso do zimínio na Quarta-feira de Cinzas é outro ritual marcante. O padre impõe cinza na testa dizendo "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás". Isso simboliza mortalidade e conversão. Algumas famílias têm o hábito de guardar um pouco do zimínio aplicado em casa como lembrete, o que é perfeitamente válido, embora não tenha base canônica. Outra prática menosfalada é o avanço da liturgia. Os parameteros da igreja mudam para roxo, símbolo de penitência e expectativa. O "Glória" e o "Aleluia" são suprimidos desde o início da Quaresma. Isso cria um clima litúrgico deliberadamente sóbrio. Pessoas que nunca repararam nisso podem achar que a missa ficou mais triste. Na realidade, é um recurso intencional para preparar o espírito para o mistério pascal.
Eu vejo muita gente cometendo o erro de transformar a Quaresma numa dieta restritiva sem conexão espiritual. Jejuar por estética não é o propósito. O jejum quaresmal existe para criar espaço para a oração e a caridade. Se você pula refeições mas não usa esse tempo adicional para rezar ou ajudar alguém, está apenas fazendo dieta. O objetivo é o desapego, não a perda de peso. Uma ressalva importante: há dispensas legítimas. Gestantes, nutrizes, pessoas com condições de saúde que tornem o jejum prejudicial, idosos e crianças estão isentos. Também não é obrigatório para quem trabalha em turnos que tornem impossível cumprir o padrão de uma refeição. O correto é consultar o próprio pároco ou diretor espiritual para entender a situação pessoal. Não adianta se obrigar ao que não pode e depois se culpar por não cumprir.
No final das contas, o que define uma Quaresma bem vivida não é a quantidade de rituais cumpridos, mas a mudança concreta no comportamento. Reduzir o consumo desnecessário, aumentar a presença nos sacramentos e praticar a caridade de forma regular são indicadores reais de que o tempo quaresmal está produzindo efeito. O resto é ornamentação.