Os sofistas na prática
O tema que muitos alunos de filosofia encontram pela primeira vez nos cursos introdutórios é o que os sofistas defendiam como corpo de ideias. A resposta rápida e sem floreios é que se tratava de um grupo de professores itinerantes na Grécia do século V a.C., cobrando taxas por aulas de retórica, política e virtude cívica. O problema é que essa definição sozinha não explica nada sobre como eles operavam ou por que causaram tanto atrito com Platão e Aristóteles.
A pergunta sobre o que os sofistas defendiam não tem uma única resposta
Isso acontece porque "sofista" era um rótulo que mudava conforme o interlocutor. Para Platão, eram charlatões. Para Isócrates, eram os fundadores da educação cívica. Os próprios que se autodenominavam sofistas, como Protágoras e Górgias, tinham divergências significativas entre si. Protágoras de Abdera formulou a frase que viraria manjada em qualquer sala de aula: "O homem é a medida de todas as coisas." Isso não significa relativismo barato, como muitos textos didáticos ensinam. Significa que o conhecimento está vinculado à experiência perceptiva de cada indivíduo. Se o vento parece frio para você e quente para mim, ambos estão certos dentro do seu próprio referencial perceptivo. Protágoras estava descrevendo epistemologia, não moralidade.
Górgias de Lentini foi mais longe. Em "Sobre o que não é," ele apresentou três teses encadeadas: nada existe; se algo existisse, não poderíamos conhecê-lo; se pudéssemos conhecê-lo, não conseguiríamos comunicar esse conhecimento. Isso é um argumento pirrônico contra a possibilidade de discurso verdadeiro sobre a realidade. Não era niilismo. Era uma demonstração retórica mostrando que a linguagem não corresponde diretamente ao ser. Gostaria de mencionar um ponto que raramente aparece nos resumos de manual. Os sofistas não negavam a existência de verdades objetivas por birra filosófica. Eles estavam respondendo a uma pressão social real. Atenas era uma democracia direta onde a capacidade de persuadir na assembleia e nos tribunais determinava resultados políticos e financeiros. Ensinar alguém a argumentar não era ensinar a mentir. Era ensinar a sobreviver institucionalmente.
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O contrato educacional dos sofistas funcionava assim. O aluno pagava uma taxa, muitas vezes elevada, e recebia treinamento em três áreas principais. Retórica, que incluía o uso de recursos linguísticos como antítese, anáfora, hipérbole e paralelismo. Política, ou seja, como participar efetivamente da vida pública ateniense. E areté, conceito grego que significa virtude ou excelência, entendida aqui como capacidade de agir bem na esfera pública. A ideia central era que a excelência cívica poderia ser ensinada. Isso era radical no contexto grego, onde a nobreza tradicional afirmava que virtude era hereditária. Um detalhe técnico que confunde bastante quem lê os fragmentos diretamente diz respeito à diferença entre dislexia e dialegxia. Os sofistas operavam com essas duas formas de discurso. Dislexia era a fala monológica, o discurso de um autoridade. Dialegxia era o diálogo, o debate estruturado onde duas partes se contrapõem. A técnica da dialegxia evoluiu depois para a maiêutica socrática e para o diálogo platônico. Mas a raiz disso tudo está no treinamento retórico dos sofistas.
Tenho experiência prática com um problema específico que surge ao interpretar Protágoras. Quando você lê o parágrafo 158b de "Teeteto," de Platão, onde Sócrates discute com Protágoras sobre a medidade, parece que Platão está distorcendo o argumento para derrotá-lo. O texto mostra Sócrates fazendo Protágoras admitir que sua própria teoria leva a uma contradição. Se todo homem é medida, então as opiniões dos ignorantes também são verdades. Isso significaria que ninguém pode ensinar nada, pois toda opinião já seria correta. Protágoras acaba recuando e dizendo que alguns pareceres são melhores que outros. Os intérpretes modernos chamam isso de "salvaguarda protagórica." O que a maioria dos comentários omite é que essa suposta recuada de Protágoras pode não ser uma contradição. Pode ser uma evolução interna do seu próprio pensamento. A distinção entre parecer individual e parecer coletivo já está implícita na noção de que, numa assembleia democrática, o parecer melhor é aquele que se mostra mais útil para a cidade, não necessariamente o mais verdadeiro em sentido absoluto. Se você tentar aplicar o relativismo protagórico de forma consistente num julgamento jurídico, vai travar. O sistema ateniense funcionava porque aceitava pragmatismo retórico, não verdade absoluta.
A questão do que os sofistas defendiam como posição unificada é um erro de categorização. Eles defendiam que o conhecimento é prático, que a linguagem tem poder constitutivo sobre a realidade social, que a virtude é aprendível e que a tradição não tem autoridade inerente. Esses são pontos sólidos que ainda ecoam em discussões contemporâneas sobre educação, política e linguagem. O custo dessa postura é que os sofistas perderam o controle narrativo. Platão escreveu diálogos brilhantes, envolventes, com personagens carismáticos. Os sofistas deixaram apenas fragmentos e citações de terceiros. A história é escrita por quem tem talento para a narrativa, ponto final.