O Que Pode Causar A Subnutrição - Subnutrição: o que é, causas, no Brasil - Brasil Escola
Subnutrição: o que é, causas, no Brasil - Brasil Escola

O que pode causar a subnutrição: uma visão prática

Subnutrição é um problema complexo que raramente tem uma única causa. Na maioria das vezes, vem de uma combinação de fatores que se sobrepõem ao longo do tempo. A abordagem mais comum é pensar em categorias, mas na prática as coisas são mais confusas do que isso.

O que pode causar a subnutrição

Diferentes situações levam a resultados semelhantes. Uma pessoa pode estar consumindo calorias suficientes, mas ainda assim desenvolvimento deficiências nutricionais sérias porque a qualidade dos nutrientes está comprometida. Já vi isso acontecer com frequência em contextos de baixa renda onde a dieta é baseada principalmente em carboidratos baratos. Arroz e feijão são bons, mas sem variação suficiente, os micronutrientes simplesmente não aparecem no prato. O aspecto mais difícil de identificar não é a falta de comida, mas a incapacidade do corpo de absorver os nutrientes que estão sendo consumidos. Condições como doença celíaca não diagnosticada, síndrome do intestino irritável com comprometimento da mucosa, ou infecções parasitárias crônicas podem transformar uma dieta aparentemente adequada em uma situação de subnutrição progressiva. A pessoa come, se sente satisfeita, mas o corpo não está retendo o que deveria reter.

Causas comuns incluem: Fatores econômicos: acesso limitado a alimentos nutritivos devido ao custo. Grupos familiares com orçamento apertado frequentemente priorizam saciedade sobre densidade nutricional.

Fatores de saúde: condições gastrointestinais, distúrbios alimentares, câncer, hipermetabolismo por doenças tireoidianas, HIV/AIDS, e processos inflamatórios crônicos que aumentam drasticamente a demanda calórica e proteica do corpo. Fatores psicossociais: depressão, ansiedade severa, transtorno de estresse pós-traumático e demência podem reduzir drasticamente o apetite ou a capacidade de preparar alimentos. Idosos vivendo sozinhos representam um grupo de risco real e subestimado.

Fatores relacionados ao estilo de vida: alcoolismo é uma causa particularmente insidiosa porque interfere tanto na ingestão quanto na absorção de nutrientes, além de esvaziar as reservas de tiamina e ácido fólico de forma acelerada. Deficiências específicas conhecidas: falta de ferro, vitamina D, vitamina B12, zinco e iodo são as mais prevalentes globalmente e muitas vezes passam despercebidas porque os sintomas são vagos — fadiga, queda de cabelo, unhas quebradiças — e confundidos com outras condições.

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Um ponto que as pessoas geralmente não consideram é o efeito dos medicamentos na nutrição. Remédios para diabetes, diuréticos, antiácidos e alguns antidepressivos comprometem a absorção de nutrientes de formas que variam conforme o fármaco. Um paciente em polifarmácia crônica pode terminar subnutrido mesmo com uma dieta correta, simplesmente porque os remédios estão bloqueando a absorção. No meu trabalho, encontrei um caso específico que ilustra bem essa complexidade. Um paciente idoso estava sendo tratado por anemia ferropênica refratária — o ferro oral não funcionava, os níveis não subiam apesar da suplementação adequada. O padrão seria investigar perda sanguínea ou má absorção. A causa real era mais simples do que se esperava: o paciente usava omeprazol diariamente há anos para refluxo, e a hipocloridria resultante impedia a conversão do ferro dietético em sua forma absorvível. A solução não foi mudar o suplemento de ferro, mas revisar a necessidade do inibidor de bomba de prótons com o gastroenterologista e ajustar a estratégia. Esse tipo de situação é frequente e passa despercebido porque os profissionais tendem a olhar para o sangue e não para os medicamentos em uso.

Outro aspecto negligenciado é a relação entre estado inflamatório crônico e demanda nutricional aumentada. Pessoas com doenças inflamatórias intestinais, artrite reumatoide ou até obesidade com inflamação de baixo grau precisam de mais proteínas e micronutrientes do que a média. As tabelas de ingestão diária recomendada não compensam essa variável, então recomendações padrão podem ser insuficientes para esses grupos. A desinformação também contribui para o problema. Dietas da moda, jejuns prolongados sem supervisão, e a crença de que substitutos de refeição são nutricionalmente equivalentes a comida real têm levado pessoas a desenvolver déficits importantes. Suplementos isolados não replicam a matriz nutricional completa dos alimentos, e o corpo responde de maneira diferente quando os nutrientes vêm de fontes inteiras versus cápsulas.

O diagnóstico adequado depende de exames específicos. Hemograma completo com contagem diferencial, ferritina, vitamina B12, ácido fólico, vitamina D, perfil lipídico, função hepática e renal, e marcadores inflamatórios como VSG e PCR são o mínimo aceitável. Testes que medem apenas um marcador isolado, como vitamina C ou zinco sérico, têm utilidade limitada porque refletem mais o status recente do que as reservas corporais reais. Em contextos de emergência humanitária, a subnutrição aguda é identificada pela medida de circunferência braquial e presença de edema. Crianças com circunferência braquial abaixo de 115mm ou com edema bilateral nos pés são consideradas com desnutrição aguda grave e precisam de intervenção imediata com fórmulas terapêuticas especiais, não apenas alimentação comum. O processo de refeed deve ser gradual para evitar a síndrome de refeeding, que pode ser fatal se acelerada demais.

Para profissionais que trabalham com população vulnerável, a triagem nutricional deve ser sistemática. Ferramentas como o mini avaliçao nutricional (MNA) para idosos ou o MUST para adultos gerais permitem identificar riscos precocemente. A vantagem é que levam poucos minutos e têm boa sensibilidade para captar casos incipientes antes que se tornem clínicos. A prevenção mais eficaz combina acesso alimentar consistente com educação nutricional básica. Programas de suplementação alimentar direcionados a grupos de risco, hortas comunitárias, e políticas de fortificação de alimentos básicos como farinha de trigo e sal têm demonstrado redução significativa em déficits de micronutrientes em populações vulneráveis quando implementados de forma sustentada.

O grande desafio atual é que a subnutrição coexiste com a obesidade na mesma comunidade, às vezes na mesma família. Isso reflete uma má nutrição em nível celular apesar do excesso calórico, um paradoxo que exige abordagens diferentes das tradicionais focadas apenas em quantidade de alimentos. Se você está investigando o problema para si ou para alguém, o primeiro passo é um avaliação nutricional completa, não apenas um hemograma básico. Anotar o histórico alimentar dos últimos três meses, os medicamentos em uso, e quaisquer sintomas gastrointestinais crônicos dá ao profissional informações que mudam completamente a direção da investigação.

Referências úteis incluem as diretrizes da ESPEN para triagem e manejo nutricional em adultos, as normas do Ministério da Saúde brasileiro para vigilância alimentar e nutricional, e a classificação da OMS para desnutrição proteico-calórica. A informação técnica está disponível gratuitamente nos portais dessas instituições. O tema é amplo e a maioria dos casos na prática clínica envolve mais de um fator simultaneamente. Reconhecer isso desde o início evita a armadilha de procurar uma causa única quando o problema é multidimensional.