O básico que você precisa saber antes de complicar
Verbo impessoal é aquele que não tem sujeito. Só isso. A maioria dos verbos na língua portuguesa exige um sujeito — quem chove? Ninguém. Quem é que chove? A chuva, dizem alguns, mas isso não é sujeito gramatical, é só uma ideia solta. O verbo impessoal simplesmente não combina com sujeito. Ele aparece no singular porque não se aplica a ninguém. Isso parece simples até você tentar aplicar e começar a ver coisas como "fazem dois anos que não o vejo" e perceber que está tudo errado. Isso é um caso específico que depende do verbo fazer, que aqui é impessoal, mas muita gente acha que é um erro porque o sujeito "dois anos" parece lógico. Não é. O verbo faz permanece no singular mesmo que a lógica pareça pedir o plural.
O que verbo impessoal: definição prática
Na prática, verbo impessoal é qualquer verbo que, por sua natureza, não pode ter sujeito. Os principais são os que indicam fenômenos da natureza — chover, trovejar, relampejar, nevar — e o verbo fazer quando indica tempo decorrido ou fenômeno climático. Também entram aí verbos como bater e soar quando se referem a horas: "Batem três horas".
A regra que quase ninguém explica direito
A regra mais conhecida é a do verbo fazer indicando tempo: "Faz dois anos que não o vejo" — e não "fazem dois anos". Isso vale também para temperaturas: "Faz quarenta graus hoje". O verbo fica no singular porque não há sujeito. A confusão acontece porque o falante médio percebe "dois anos" como se fosse o sujeito do verbo, mas gramaticalmente não é. O sujeito nesse caso não existe. Outro detalhe importante que muitos professores não ensinam: quando o verbo impessoal é usado em locução verbal, o verbo auxiliar também não varia. "Devia fazer frio ontem" — e não "deviam fazer". Ambos no singular. Isso se aplica ao verbo haver no sentido de existência também: "Deve haver muitos problemas" e não "devem haver".
Um caso real que me custou dias de retrabalho
Eu estava revisando um contrato de prestação de serviços onde o redator original havia escrito "Houveram muitas diferenças entre as partes". Meu instinto gritou que aquilo estava errado, mas eu precisava ter certeza absoluta antes de apontar o erro. Eu verifiquei o caso em várias gramáticas, including a do Celso Cunha, e encontrei a regra clara: o verbo haver no sentido de existir é impessoal. A forma correta seria "Houve muitas diferenças entre as partes". Eu usei essa correção no documento e o cliente questionou, mas depois que mostrei a regra, aceitou. O detalhe prático que ninguém conta é que em textos formais, como contratos, esse tipo de erro aparece com frequência porque o redator sente que "houveram" soa mais natural. Soa, mas está errado. A solução que eu adotei foi incluir uma nota explicativa curta no próprio documento, citando a regra, para evitar que o cliente achasse que eu estava apenas sendo chato com gramática.
Erros comuns e como evitá-los
O erro mais frequente é o uso do plural com verbos impessoais. Você vai ver "Choveram folhas na calçada" em textos de gente que deveria saber melhor. Está errado. O correto é "Choveram folhas na calçada"? Não. É "Choveram folhas na calçada" — o verbo chover é impessoal, então não concorda com "folhas". O certo seria algo como "Folhas caíram na calçada", usando um verbo pessoal. Não force uma concordância que não existe. Outro erro comum é com o verbo precisar. "Precisa-se de funcionários" — isso não é impessoal, é sujeito indeterminado. Não confunda. Verbos impessoais não têm sujeito de jeito nenhum. Verbos no infinitivo implícito com "se" partícula apassivadora são outra coisa completamente diferente.
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Quando a regra não se aplica
Existem situações em que verbos que normalmente são impessoals podem ter sujeito. O verbo dar, por exemplo, pode ser impessoal em expressões como "Dá uma hora" (indicando tempo), mas também é perfeitamente pessoal em "O menino deu uma soco no rival". O contexto é tudo. O mesmo vale para passar: "Passa bem" (impessoal, indicando tempo) versus "Ele passou a bola" (pessoal). Eu já vi alguns manuais tratarem o verbo existir como impessoal, mas ele não é. "Existem many problemas" — aqui existem concorda com "problemas", que é o sujeito. Isso é frequente em textos informais, onde as pessoas escrevem "Existe muitos problemas", mas a forma correta com sujeito plural é o plural do verbo. A confusão surge porque o sentido de existência é próximo do de haver, mas grammaticalmente são coisas distintas.
A alternativa prática
Se você estiver inseguro sobre se um verbo é impessoal ou não, a solução mais segura é reescrever a frase usando um verbo pessoal equivalente. Em vez de "Faz dois anos que não o vejo", tente "São dois anos que não o vejo". Em vez de "Houve many problemas", diga "Existiram many problemas". Essa técnica é útil em revisões rápidas, porque verbos pessoais têm concordância mais previsível e você evita erros comuns.