Por que o custeio por absorção ainda domina as contábeis brasileiras
A maioria das empresas que eu já vi tentando implementar sistemas de custos internos parte para o custeio por absorção sem analisar até onde isso vai dar certo. O resultado é sempre o mesmo: relatório bonito no papel, mas que não reflete a realidade operacional quando chega no final do mês. Esse método pega todos os custos — fixos e variáveis — e distribui entre os produtos ou serviços. No Brasil, a obrigatoriedade contábil para fins de apuração de lucro real exige essa abordagem, então o o sistema de custeio por absorção é amplamente utilizado principalmente porque a Receita Federal cobra isso. Mas obrigatoriedade fiscal não é o mesmo que utilidade gerencial.
Eu configurei um desses sistemas para uma indústria de alimentos com cerca de quarenta linhas de produto e dezoito centros de custo. O problema não era a teoria. Era que o custo fixo da fábrica incluía depreciação de equipamentos, aluguel, energia básica, salários da supervisão e seguros. A empresa tinha uma linha de produtos sazonais que só era produzida nos meses de novembro a dezembro, concentrando cerca de trinta por cento da produção anual. Quando eu dividia o custo fixo mensal por quilograma produzido, o custo unitário daqueles meses explodia. Os produtos da safra apareciam com margem negativa nos relatórios, embora o caixa da empresa estivesse positivo. A solução foi simples, mas ninguém ensina isso em curso introdutório. Separei os custos fixos em dois grupos: os que são necessários para manter a operação de pé independente do volume, e os que têm relação direta com a capacidade instalada de cada linha. Aí apliquei uma taxa de absorção diferenciada por centro de custo, usando como base de rateio o horas-máquina para os custos de equipamento e o número de postos de trabalho para os custos de infraestrutura. Isso reduziu a distorção de trinta e dois por cento para aproximadamente oito por cento na variação de margem entre produtos.
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O sistema de custeio por absorção é amplamente utilizado, mas com ressalvas importantes
O punto mais sutil que as pessoas perdem é a diferença entre custo total e custo relevante. No custeio por absorção, quando você fecha um pedido especial com preço abaixo do custo unitário completo, a resposta automática do controle financeiro costuma ser negativa. Na prática, se a empresa tem capacidade ociosa e o pedido cobre pelo menos os custos variáveis mais uma parcela dos fixos que ele realmente consome, o preço pode ser aceitável. Outra coisa que eu vejo todo mundo errar é a escolha da base de rateio. Horas diretas funcionam bem em ambientes artesanais ou de pequena produção. Empresas com alta automação tendem a usar horas-máquina ou unidades produzidas. O problema é que bases únicas criam subcusteio em produtos de menorcomplexidade e supercusteio nos mais elaborados. Eu recomendo dividir os custos indiretos em pelo menos três pools: um para custos de preparação de máquina, um para custos de inspeção e controle de qualidade, e um terceiro para custos gerais de fábrica. Cada um com sua própria base.
Aqui vai um exemplo rápido. Temos duas fábricas que produzem o mesmo componente, uma em São Paulo e outra em Camaçari. A de São Paulo tem margem de contribuição por unidade superior a vinte e dois reais, enquanto a de Camaçari fica em quinze reais. Com o custeio por absorção tradicional, o custo fixo rateado acaba sendo maior na unidade de Camaçari simplesmente porque o volume é menor. O analista que não olha para além do número conclui erroneamente que a fábrica baiana é ineficiente. Na verdade, o custo fixo ali é mais alto por natureza logística, e o rateio por volume esconde isso completamente. Se você está começando a estruturar um sistema desses do zero, o caminho mais seguro é mapear primeiro todos os centros de custo, depois classificar cada despesa como fixa, variável ou semivariável, e só aí definir as bases de rateio. Comece simples. Três ou quatro pools de custos indiretos já entregam resultados melhores que tentar absorver tudo em uma única taxa. Se a empresa tiver diversidade de produtos e processos significativamente diferentes entre si, considere complementaresmenteo custeio por atividades junto com o sistema tradicional. Ele resolve granularidade que o absorção puro não alcança.
O único cenário em que eu vejo o custeio por absorção funcionar mal mesmo é quando a empresa opera com estoques altos para mascarar a capacidade ociosa. Neste caso, o custo fixo improdutivo é embutido no valor dos produtos armazenados e só aparece como despesa quando são vendidos. Isso inflaciona o ativo e disfarça a ineficiência operacional por pelo menos um ciclo contábil inteiro. Se você nota isso no seu balanço, o problema não é o método de custeio em si. É a política de produção.