O que realmente vai na capa e no que vem antes do texto
A banca não lê seu projeto com carinho. Ela vasculha os elementos pré-textuais em busca de falhas formais para justificar uma reprovação ou exigência de correção. E o padrão varia brutalmente entre instituições. A NBR 14724 da ABNT é a referência, mas ela fala mais sobre o que é opcional do que sobre o que é realmente obrigatório. Quem já submeter projeto de mestrado, doutorado ou iniciação científica sabe que a primeira fase de avaliação é sempre uma vistoria minuciosa de formatação.
os elementos pré-textuais obrigatórios de um projeto de pesquisa são
Na prática, o consenso entre as coordenações de pós-graduação e comissões de iniciação científica inclui o seguinte pacote. A capa com nome da instituição, programa, título do projeto, nome do pesquisador, linha de pesquisa se houver, cidade e ano. A folha de rosto idêntica, mas com ficha catalográfica na parte inferior e nota explicativa sobre o trabalho, como Projeto de pesquisa apresentado ao Programa de Pós-Graduação em X como parte das exigências para o processo seletivo. Índice, claro. E a listagem de ilustrações, tabelas e abreviaturas quando existirem, mesmo que seja apenas uma tabela de cronograma. O que quase ninguém menciona e deveria ser obrigatório é o sumário. Sim, algumas bancas tratam o sumário como elemento opcional, mas quando você coloca tabelas, gráficos ou quadros no corpo do projeto, a ausência de sumário gera uma reclamação formal na primeira revisão. É um detalhe chatíssimo que custa dois minutos para corrigir.
Também tem a ficha catalográfica, que parece burocracia pura mas é ponto de reprovação imediata em muitos programas. Você precisa levar o projeto já formatado ao setor de biblioteconomia da sua instituição para que ela gere a ficha no padrão CIP. Sem isso, a comissão devolve na hora. Leva cerca de 15 minutos e uma fila que às vezes dura uma hora. Faça isso antes de qualquer outra coisa. Há ainda um elemento que aparece em quasi todos os editais de fomento, como CNPq e Finep, e que não está na NBR 14724: o currículo Lattes atualizado do pesquisador anexado como justificativa ou documentação complementar. Algumas comissões exigem que o Lattes esteja disponível publicamente e atualizado nos últimos 30 dias. Já vi projeto ser rejeitado por isso, não por conteúdo, apenas porque o link do Lattes apontava para uma versão desatualizada com artigos de 2019.
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O error mais frequente que eu vejo em projetos enviados para revisão é a inconsistência entre o título na capa e o título na folha de rosto. Parece ridículo, mas acontece com frequência suficiente para ser mencionado. A banca nota porque faz a comparação automática. O mesmo vale para o nome do orientador: se está escrito de forma diferente em qualquer um dos elementos, é marcação de irregularidade. Outro ponto queBeginner sempre erra: a margem. A norma pede margem esquerda de 3 cm e direita de 2 cm, com superior e inferior ambos em 2 cm. Esse recuo assimétrico na margem esquerda existe para permitir encadernação sem cobrir o texto. Se você imprimir com margens iguais, a impressora da secretaria muitas vezes corta parte do conteúdo ou a encadernação cobre os números das páginas. Eu resolvi isso usando um atalho direto no LaTeX com o pacote geometry, definindo left=3cm, right=2cm, top=2cm, bottom=2cm. Funciona perfeitamente e evita o problema completamente, ao contrário do Word, onde é fácil esquecer de ajustar manualmente em cada documento novo.
A fonte também merece atenção. A maioria dos programas aceita Arial ou Times New Roman, tamanho 12 para o corpo do texto e tamanho 10 para citações longas, notas de rodapé e legendas. Mas existem programas que exigem especificamente Times New Roman e rejeitam Arial. Antes de formatar qualquer coisa, leia o edital ou a resolução da comissão com calma. Perde-se muito tempo refazendo formatação porque alguém assumiu que Arial era aceito universalmente. Um conselho direto: não confie em templates prontos da internet. Eles são frequentemente desatualizados, usam normas diferentes ou não refletem as exigências específicas do seu programa. O que funciona em um programa de direito pode ser totalmente inadequado para um programa de engenharia. Baixe um projeto aprovado do programa onde você vai inscrever-se na biblioteca digital da instituição e use como referência real, não como modelo genérico.
Se houver orçamento no projeto, a planilha deve seguir a tabela do edital. CNPq tem uma estrutura própria. Finep tem outra. FAPESP e FAPESP têm modelos diferentes entre si. Inserir orçamento em formato errado é uma das causas mais comuns de reprovação em editais de fomento, porque o analista não consegue validar os dados na plataforma. Use sempre o modelo oficial, mesmo que ele pareça limitado ou pouco flexível. Aqui vai algo que pouca gente ensina: o índice deve refletir exatamente a hierarquia das seções do seu projeto, com numeração correspondente. Se você chama uma seção de "2.1 Metodologia", o índice deve mostrar "2.1 Metodologia" com o número correto e página correspondente. Não adianta ter um conteúdo excelente se o índice leva o avaliador à página errada. Eu já perdi uma boa chance de aprovação porque o sumário apontava para a página 8 quando a metodologia estava na página 9. A banca marcava inconsistência formal e pedia correção, o que atrasa todo o processo em semanas.
Resumindo o que eu diria para quem está começando agora: monte a estrutura antes de escrever qualquer parágrafo. Defina os elementos pré-textuais desde o primeiro rascunho. Isso economiza horas de reformatação. Use uma ferramenta de referência bibliográfica desde o início, como Zotero ou Mendeley, para evitar que a lista de referências no final seja um pesadelo de inconsistências. E nunca, jamais, encape o projeto antes de receber o parecer final. Versões revisadas podem alterar paginação, e encadernar antes da versão final é perda de dinheiro e tempo.