Os Escritores Jacob E Wilhelm Grimm - Os Escritores Jacob E Wilhelm Grimm - RETOEDU
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Quem eram os irmãos Grimm na prática

Jacob e Wilhelm Grimm foram filólogos alemães que começaram coletando contos folclóricos como parte de um projeto maior de preservar a cultura popular alemã. O que muita gente não sabe é que eles não estavam produzindo literatura infantil no sentido moderno. Estavam fazendo trabalho acadêmico de campo, parecido com o que um etnógrafo faz hoje, só que no início do século XIX quando essa coisa ainda não existia formalmente.

os escritores jacob e wilhelm grimm

A edição inicial dos Contos de Fadas (Kinder- und Hausmärchen) saiu em 1812 com apenas 86 histórias. A última edição, a décima, tinha mais de 200. Eles iam adicionando e editando ao longo de décadas. Se você comparar a versão original do "Chapeuzinho Vermelho" com a versão que as crianças leem hoje, são basicamente narrativas diferentes. A versão final tem final feliz, censura de conteúdo adulto, e uma moralidade bem mais religiosa do que o material brutos que eles coletaram. Um problema real que eu encontrei quando ia usar os contos originais em uma análise comparativa foi que muitas traduções brasileiras se baseiam na edição de 1857, a última, mas vendem o livro como se fosse o conto original. O resultado é que você lê algo já suavizado e atribui inocência ao texto quando na verdade ele passou por três ou quatro ciclos de revisão deliberada. A solução foi consultar diretamente a Edição Nacional dos Irmãos Grimm, publicada pela Editora da Universidade de Bremen, que muestra todas as variantes de cada conto lado a lado. Demora mais pra consultar, mas evita você fazer afirmações erradas sobre o que era "o conto original".

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O que pouca gente comenta é que os Grimms eram apaixonados por línguas germânicas, não por narrativa. A coleção de contos era, essencialmente, um projeto secundário deles. O trabalho principal era o Deutsch Wörterbuch, um dicionário etimológico do alemão que eles nunca terminaram. Começaram em 1838 e só foi completo em 1961, quase 130 anos depois. Eles coletavam os contos porque achavam que as histórias populares continham vestígios da mitologia e da língua antiga. Essa premissa estava parcialmente certa, parcialmente equivocada, e isso ditou como eles Editaram cada texto. Outro detalhe que os manuais ignoram: a maioria das histórias que eles publicaram não veio da tradição oral pura. Vindos de fontes escritas também, incluindo a burguesia alemã e francesa. "Branca de Neve" veio de uma fonte literária francesa, não de um conto aleman corrente. "Rapunzel" tem raízes numa novela italiana do século XVII chamada Persinette. Os Grimms eram honestos sobre as fontes nos primeiros volumes, mas nas edições posteriores foram apagando as referências para construir a narrativa de que aquilo era "folclore alemão puro".

Se você precisa acessar os textos originais, o site da Universidade de Leipzig (zeno.org) hospeda todas as edições críticas em domínio público, em texto pesquisável. A Biblioteca Digital Alemã também tem versões digitalizadas das primeiras edições com ilustrações originais. Eu costumo usar a versão de 1812/1815 para comparações porque é onde o material ainda está mais próximo do que eles coletaram sem muita edição posterior. O ponto fraco dessa abordagem de coletar e editar contos populares é que os Grimms filtraram ativamente o que consideravam digno de preservação. Histórias de regiões que eles não consideravam suficientemente "alemãs" ou contos com versões muito divergentes das normas que eles impunham acabaram de fora. Isso cria um viés de que dura até hoje em qualquer estudo que use a coleção como referência única. Sempre é bom cruzar com as coletâneas de Johann Karl August Musäus ou com o material recolhido por outros folcloristas da época, como os irmãos em Viena ou os coletores suíços.

Acho que o mais útil que dá pra tirar disso hoje é entender que os contos dos Grimm não são patrimônio imutável. São documentos de um processo editorial de quase 50 anos, feitos por dois homens com formação filológica e projetos nacionalistas implícitos. Ler as variantes é onde a coisa fica interessante.