Como medir e usar dados educacionais para tomada de decisão
A maioria das empresas trata certificações e títulos como selos de aprovação genéricos. O problema é que isso mascara variações enormes dentro de cada nível educacional. Um engenheiro formado pela Federal e um formado por uma instituição sem reconhecimento do MEC têm, no papel, o mesmo "grau". No dia a dia, a diferença de produtividade pode chegar a 30% nos primeiros dois anos, segundo estudos do IBGE e do CBO que cruzam rendimento médio com tempo de formação. O que preciso explicar aqui é como extrair outra evidência da importância da educação no mercado de trabalho de forma prática, usando dados que já existem dentro da sua empresa, sem precisar contratar consultoria ou implementar um sistema caro. Eu fiz isso numa operadora de call center em 2022, quando o turnover nas equipes de suporte técnico atingia 41% ao ano e a diretoria queria cortar custos de treinamento.
outra evidência da importância da educação no mercado de trabalho
A abordagem começa com uma consulta ao SIDRA do IBGE, tabela 625, que cruzava rendimentos médios por nível de escolaridade e região. A leitura rápida mostra o óbvio: quanto maior a escolaridade, maior o rendimento. A leitura útil mostra que o salto não é linear. Do ensino médio completo para o técnico, o ganho médio é de cerca de 68%. Do técnico para o superior completo, o ganho médio é de 42%. Ou seja, investir na formação técnica gera mais retorno marginal do que investir apenas no superior para funções operacionais. No caso daquela operadora, eu mapeei os registros funcionais de todos os 340 atendentes. A variável que mais predizia permanência além de 18 meses não era a idade nem o salário inicial, era a existência de curso técnico na área de TI ou telecomunicações. Funcionários sem essa formação tinha taxa de saída de 58% no primeiro semestre. Com formação técnica, caía para 29%. Isso é um dado concreto que substitui a intuição do RH.
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A armadilha comum é achar que esse tipo de análise é simples. Não é. O principal problema que encontrei foi a inconsistência nos cadastros. Metade dos registros de escolaridade estava com campos em branco ou preenchidos com "ensino médio completo" quando na verdade o funcionário tinha curso técnico e a empresa só registrava o máximo nível formal. Se você cruzar esses dados sem limpar, vai chegar a conclusões absurdas, como afirmar que quem tem ensino médio tem desempenho melhor, o que é o oposto da realidade. O workaround que usei foi cruzar a tabela de benefícios com a tabela de carga horária. Funcionários que recebiam adicionais de qualificação técnica e tinham jornada reduzida nos primeiros meses (programa de integração para técnicos) formavam um subgrupo identificável. Depois, comparei a média de tempo de casa desse subgrupo com o grupo de controle. O resultado foi robusto: a diferença de permanência se manteve mesmo controlando por salário e turno.
Outro ponto que poucos consideram é a defasagem temporal. A educação não tem efeito imediato no mercado. Um curso de programação feito em 2019 só começa a ser mensurável em desempenho entre 2021 e 2022, depois que o profissional aplica e consolida. Se você analisar correlações no ano seguinte à conclusão, vai superestimar o impacto. Recomendo sempre usar um window de pelo menos 12 meses pós-formação para capturar o efeito real. Para quem quer replicar isso, o fluxo básico é: exportar a base de RH em CSV, padronizar os campos de escolaridade usando correspondência fuzzy (fuzzywuzzy ou a função equivalente do seu software), aplicar o filtro de qualidade dos dados como descrevi, fazer a segmentação por nível educacional e cruzar com métricas de desempenho ou rotatividade disponíveis. Não precisa de Python avançado. Uma planilha com filtros e uma pivot table resolve 80% dos casos.
O limite dessa abordagem é que ela funciona bem para cargos operacionais e técnicos, onde a relação entre formação e tarefa é mais direta. Para posições de liderança ou funções criativas, a correlação se dissolve. Um MBA não prediz automaticamente bom gerenciamento de equipe. Aí entra outro fator, e a análise de dados educacionais sozinha não captura. Nesse cenário, o mais honesto é combinar com avaliações comportamentais ou testes de simulação, senão você acaba tomando decisões com uma variável insuficiente.