Exame de hemograma e jejum: o que realmente importa
Uma paciente veio até meu consultório certa tarde, visivelmente frustrada. Ela tinha acordado às cinco da manhã, ficado em jejum desde as onze da noite anterior, e ainda assim o resultado do hemograma tinha vindo alterado. A creatina estava lá em cima, os glóbulos brancos com levemente elevados. Ela jurava que só tinha tomado um gole de água no meio da tarde. Pergunta legítima que muita gente não faz: para fazer exame de hemograma precisa estar em jejun? A resposta curta é não. A resposta completa é um pouco mais complicada, e é justamente essa complicação que explica por que muitas pessoas acabam com resultados confusos.
O hemograma completo analisa células do sangue: hemácias, leucócitos, plaquetas, hemoglobina, hematócrito. Nada disso é significativamente afetado pela última refeição que você fez. Uma gordura no plasma (quelônia) pode interferir na fotometria de alguns equipamentos, mas isso raramente altera as contagens celulares em si. Então tecnicamente, para um hemograma isolado, o jejum não é obrigatório. Porém existe um porém prático que todo laboratório leva em conta. Quando você pede um hemograma, raramente é só o hemograma. Na maioria das vezes vem junto uma glicose de jejum, um perfil lipídico, às vezes funçao hepática ou renal. A glicose e os triglicerídeos sim são diretamente influenciados pela alimentação. Um triglicerídeo acima de quatrocentos mg/dL turva o soro e o analisador não consegue ler as células direito. Já vi hemogramas retornarem complaquetometria errada por causa de quelônia pesada. O técnico liga para o paciente e pede para coletar de novo.
Para fazer exame de hemograma precisa estar em jejun: a regra prática
A recomendação que eu dou aos meus pacientes é simples: jejum de oito a doze horas. Beber água é permitido e até recomendado, porque hidratação facilita a punção venosa e melhora a qualidade da amostra. Evitar café, chá preto, sucos e qualquer coisa com caloria durante esse período. Se o pedido médico incluir glicose ou lipidograma, o jejum estrito é obrigatório. Se for apenas hemograma, o jejum é uma precaução, não uma necessidade absoluta. Um detalhe que poucas pessoas sabem: o horário da coleta também importa. Colher após o almoço, mesmo em jejum de oito horas, significa que o corpo ainda pode estar processando nutrientes da refeição do dia anterior. O ideal é coletar pela manhã, preferencialmente entre sete e nove horas. Esse é o padrão ouro que a maioria dos laboratórios segue.
Outro ponto negligenciado é o estresse da coleta. Eu tive um caso recente de um paciente que ficou em jejum perfeito, chegou ao laboratório ansioso, e ao ter a agulha na veia passou por uma reação simpática intensa. Os leucócitos dispararam para dezoito mil. Hemograma de quem está sob estresse agudo mostra linfocitose relativa e neutrofilia, padrão que pode ser confundido com infecção bacteriana. Se o número estiver alterado sem sintoma clínico, o primeiro passo é repetir a coleta em dia tranquilo, sem correria. Existem ainda variáveis individuais que afetam o hemograma independentemente da alimentação. Exercício físico intenso nas vinte e quatro horas anteriores pode elevar a hemoglobina em até oito por cento devido à hemoconcentração relativa. Altitude também altera os valores de referência. fumantes costumam ter leucócitos basais mais altos. Mulheres na fase lútea do ciclo menstrual apresentam pequenas variações que não têm relação com nada que você tenha comido.
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O que realmente atrapalha um hemograma é a má coleta. Hemólise intravenosa, tubo mal misturado com EDTA, amostra coagulada. Isso acontece mais do que se imagina. Um técnico experiente sabe que a primeira gota de sangue que sai do dedo não deve ser coletada para hemograma, porque mistura secreção intersticial. Vacinas recentes podem alterar temporariamente os leucócitos. Medicamentos como corticoides elevam neutrófilos e diminuem linfócitos de forma previsível, mas quem lê o exame precisa saber que o paciente está usando those medicamentos. Se você está apenas fazendo hemograma de rotina e quer evitar o jejum, existe uma alternativa: pedir ao laboratório que use um tubo com separador de gel de baixa viscosidade e solicitar coleta matinal após um café da manhã leve e pobre em gordura. Alguns laboratórios aceitam isso. O resultado será confiável para as contagens celulares. Mas se o médico incluiu glicose ou colesterol no mesmo pedido, o jejum é inevitável.
O problema é que muitos pacientes interpretam mal o que significa "jejum". Jejum não significa não comer desde ontem. Significa não ingerir calorias nas oito a doze horas que antecedem a coleta. Água pura é permitida. Chiclete pode ser problemático porque contém açúcar, mesmo que em quantidade mínima. Café sem açúcar também cai numa área cinzenta: a cafeína altera a diurese e pode concentrar levemente o sangue. Minha experiência prática mostra que a maior causa de reimpressão de exames não é a alimentação em si, mas a falta de hidratação. Pacientes que fazem jejum e não bebem água têm veias mais colabadas, a coleta demora mais, e o sangue fica mais propenso a hemólise. Um copo d'água de duzentos mililitros no início do jejum e outro pouco antes da coleta fazem diferença real na qualidade da amostra.
Resumindo sem resumo: para o hemograma em si, o jejum não é essencial. Para o pacote de exames que quase sempre acompanha o hemograma, o jejum de oito a doze horas é o padrão recomendado. Beba água, evite cafeína, chegue cedo ao laboratório e descanse cinco minutos antes da coleta. Se o resultado vier alterado e você não tem sintoma nenhum, repita em outro dia. Isso é mais comum do que muitas pessoas imaginam.