Entendendo a política na educação segundo Paulo Freire
Quando Paulo Freire disse que toda educação é política, ele não estava fazendo um discurso bonito sobre engajamento social. Ele estava descrevendo algo que acontece na prática toda vez que alguém entra numa sala de aula. O conteúdo que você escolhe ensinar, a forma como corrige um aluno, quem tem permissão para falar e quem cala -- tudo isso carrega uma posição política. Não existe neutro. A ideia central aparece forte em Pedagogia do Oprimido, publicado pela primeira vez em 1968, quando Freire estava no exílio na Chile. A obra já circulava de forma subterrânea no Brasil antes disso, via círculos de cultura que ele desenvolvia nas comunidades de Pernambuco.
Para Paulo Freire toda educação é
política. Esse é o ponto de partida. E a consequência imediata é que qualquer proposta de "educação tecnicista" ou "neutra" que você encontrar escondendo essa dimensão está, na verdade, reforçando o status quo sem admitir. O sistema que ensina competências para o mercado sem questionar quem se beneficia desse mercado também está fazendo política. Só que de forma não declarada. O que Freire chama de modelo bancário de educação é justamente essa versão disfarçada. O professor deposita conteúdo na cabeça do aluno como se fosse um monte de dados brutos, sem espaço para crítica. O aluno memoriza, reproduz, esquece. Esse modelo prepara para obedecer. A obediência é, em si, um ato político. Então essa suposta neutralidade é uma trapaça.
Na prática, eu vi isso acontecer de um jeito bem específico num curso de qualificação profissional que acompanhei em São Paulo há alguns anos. O material didático estava todo em linguagem técnica, com exemplos completamente desconectados da realidade dos trabalhadores. Tinha uma sessão inteira sobre "como apresentar relatórios executivos" que partia do pressuposto de que os alunos já tinham acesso a computadores e internet no trabalho. Boa parte deles nem tinha celular próprio. O conteúdo estava dizendo, sem palavras, que aqueles trabalhadores deveriam se comportar como se fossem funcionários de escritório quando, na realidade, eles eram diaristas, vendedores ambulantes e auxiliares de limpeza. Isso é educação política. Não porque o autor do curso quisesse oprimir ninguém intencionalmente, mas porque o modelo bancário reproduz a lógica de quem decide o que é válido saber. A alternativa que Freire propõe é a educação problematizadora. Nela, o ponto de partida não é o conteúdo, mas a realidade vivida pelos estudantes. Você lê o mundo antes de ler a palavra. Isso significa começar com questões que eles já trazem: por que meu bairro não tem água encanada, por que meu chefe não paga horas extras, por que a escola da minha filha não tem merenda adequada. A partir daí, você constrói vocabulário, gramática, cálculo, história -- tudo conectado a essas questões concretas.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
O problema é que esse método esbarra numa estrutura escolar que não foi feita para isso. Professores são cobrados por aprovação em provas padronizadas. Diretores pressionam por indicadores. O tempo de aula é fragmentado em blocos de cinquenta minutos. Você pode tentar criar círculos de leitura e discussão, mas no final do bimestre a secretaria vai pedir o boletim. Isso não é segredo. Qualquer professor que já tentou implementar isso sabe que o desgaste é grande. Um detalhe que poucas pessoas mencionam: a relação entre professor e aluno na pedagogia freireana não é uma democracia ingênua onde tudo vale. Diálogo não significa que o professor abre mão do seu papel de mediador do conhecimento. Não funciona se você transformA a sala numa roda de conversa onde qualquer opinião tem o mesmo peso, porque isso reproduz outra falsidade -- a de que toda opinião é igualmente válida independentemente de fundamento. O que Freire propõe é que o saber seja construído coletivamente, mas com rigor. O professor conhece mais. Ele não deve esconder isso, mas deve usar esse conhecimento como ferramenta de abertura, não de autoridade fechada.
Outro ponto cego: a conscientização, conceito chave em Freire, não é um evento. Você não faz uma oficina de duas horas e pronto. É um processo lento que depende de continuidade. Eu vi projetos que tentavam aplicar círculos de cultura em escolas com rotatividade alta de professores e o resultado era sempre o mesmo: os alunos percebiam a inconsistência e Desconfiavam. A desconfiança em relação ao projeto educativo mata o diálogo muito mais rápido do que a falta de tempo. Se você quer colocar isso em prática, comece pequeno. Escolha um tema transversal da sua disciplina e construa uma sequência de três a quatro aulas em torno de uma questão real da comunidade. Não precisa ser grandioso. Precisa ser consistente. Anexe materiais de leitura que conversem com a experiência dos alunos, não apenas manuais técnicos. Pergunte antes de tudo o que eles já sabem sobre o assunto. Deixa a resposta guiar o próximo passo.
O resultado nunca será perfeito. A estrutura escolar vai impedir muitas coisas. Mas pelo menos você estará sendo honesto sobre o que a educação é: um ato político. E reconhecer isso já é diferente de fingir que não é.