Para Ser Ou Para Serem - Para Ser Ou Para Serem - FDPLEARN
Para Ser Ou Para Serem - FDPLEARN

O problema que ninguém explica direito

Você já tropeçou na dúvida entre para ser e para serem? É uma questão que aparece com frequência em revisões de texto, especialmente em documentos formais, contratos e materiais institucionais. A regra gramatical existe, mas na prática as coisas ficam mais complicadas do que a teoria sugere. A norma padrão diz que o infinitivo pessoal varia quando o sujeito é determinado e explícito. Então, se o sujeito está claro e é plural, o correto é usar a forma flexionada: para serem. Se não há sujeito definido, ou se o sujeito é indeterminado, usa-se o infinitivo impessoal: para ser. Simples, certo? Não exatamente.

Diferença prática entre para ser ou para serem

A distinção fundamental é esta: o infinitivo pessoal (serem) exige que o sujeito da oração infinitiva seja identificado. O infinitivo impessoal (ser) funciona quando não há sujeito definido ou quando o sujeito é genérico, indiferente a quem esteja executing a ação. Veja os exemplos básicos. "Há vagas para ser preenchidas" — o sujeito de "preenchidas" não está explícito, é indeterminado, então o infinitivo permanece no singular. "Os candidatos estão aqui para serem convocados" — o sujeito de "convocados" é "os candidatos", claramente identificado e plural, então a flexão aparece.

Mas é nos casos intermediários que as coisas dão trabalho. Eu revisei um edital de concurso público onde a banca examinadora tinha elaborado uma frase como: "Os documentos deverão ser entregues para serem analisados pela comissão." Aqui o sujeito de "analisados" é implicitamente "os documentos", mas ele aparece antes na oração principal. Muitas pessoas acham que isso já basta para justificar a flexão, mas a coisa é mais sutil. O problema nesse tipo de construção é que o sujeito do infinitivo pode ser co-referente a um termo da oração principal, mas a co-referência nem sempre é óbvia. No exemplo acima, a análise da banca considerava que "documentos" era o sujeito de "analisados" e, portanto, "serem" estava correto. Eu apontei que a ambiguity existia porque a estrutura permitia duas leituras: ou "documentos" era o sujeito do infinitivo (flexão justificada), ou havia um sujeito genérico implícito ("alguém" que analisaria os documentos). Recomendei reescrever para evitar a ambiguidade, algo como: "Os documentos deverão ser entregues para que a comissão os analise." Esse tipo de reformulação elimina a dúvida de uma vez.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Outro caso que vejo constantemente envolve orações com verbo no infinitivo introduzidas por preposição e seguidas de complemento. "É necessário ter cuidado para não ser prejudicado." Aqui o sujeito é indeterminado — não sabemos quem será prejudicado — então o infinitivo fica no singular, mesmo que logicamente a frase se refira a várias pessoas. Essa é umapegadinha comum. As pessoas querem flexionar porque pensam no sentido plural, mas a gramática exige que a flexão obedeça à estrutura sintática, não ao sentido pragmático.

Quando a regra falha

A norma culta é clara nos casos óbvios, mas existem situações em que até manuais de referência divergem. O Cegalla, por exemplo, aceita certa flexibilidade quando o sujeito do infinitivo érecoverable a partir do contexto. Já a Gramática do Brasileiro, da Celso Cunha, é mais restritiva e recomenda a flexão apenas quando o sujeito está expresso ou subentendido de forma inequívoca. Na prática profissional, eu sigo este critério: se o sujeito do infinitivo está explicitamente mencionado na oração ou é perfeitamente identificável pelo contexto imediato, uso a flexão. Se há qualquer margem para ambiguidade, prefiro o impessoal ou, melhor ainda, reescrevo a frase para tornar a estrutura transparente. Isso evita retrabalho em revisões posteriores e reduz o risco de críticas de corretores exigentes.

Um detalhe que poucos mencionam: em português de Portugal, o infinitivo pessoal é muito mais frequente do que no Brasil. Frases como "chegados aqui, devemos esperar para serem chamados" soariam naturais em PT-PT, mas em PT-BR muitos leitores achariam estranho. Se o seu público é brasileiro, considere essa diferença dialetal. A flexão excessiva pode soar pedante ou artificial para o ouvido brasileiro. O menor erro comum é aplicar a flexão automaticamente sempre que o sentido for plural. Lembre-se: a flexão do infinitivo é uma questão sintática, não semântica. O que importa é se há sujeito determinado, não quantos agentes estão envolvidos na ação descrita.

Resumindo sem resumar: analise a estrutura da oração, identifique (ou não) o sujeito do infinitivo, e decida com base nisso. Quando a coisa ficar confusa, reformule. Frases ambíguas custam mais tempo para corrigir do que para reescrever desde o início.