Parnasianismo E O Simbolismo - Qual A Diferença Entre O Parnasianismo E O Simbolismo – ZNTBGH
Qual A Diferença Entre O Parnasianismo E O Simbolismo – ZNTBGH

O que realmente aconteceu entre o final do século XIX e o começo do XX na literatura brasileira

A maioria dos livros didáticos trata Parnasianismo e Simbolismo como dois capítulos distintos e bem separados. Na prática, isso não é bem assim. Eles coexistiram, se sobrepuseram e muitos autores transitaram entre as duas abordagens sem que isso causasse nenhum tipo de conflito pessoal ou editorial. A divisão cronológica que todo mundo memoriza para prova funciona no papel. No texto concreto, a coisa é mais confusa. O Parnasianismo no Brasil surgiu por volta de 1882, com a publicação do livro Humildades e Sublime, de Teófilo Dias. Antes disso, o Romantismo ainda dominava as salas de aula e as publicações, mas já mostrava sinais de exaustão. Os parnasianos reagiram exatamente contra o que consideravam sentimentalismo barato e falta de técnica. A resposta deles foi: versos perfeitos, rima rica, métrica rigorosa, objetividade como virtude suprema. O lema era a "arte pela arte", ou seja, o poema precisa existir por si mesmo, não precisa transmitir mensagem moral ou política.

O principal trio parnasiano brasileiro ficou conhecido como os três A's: Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Bilac se tornaria o mais famoso, tanto por sua produção literária quanto por ter fundado a Academia Brasileira de Letras em 1896. Isso é relevante porque mostra que o Parnasianismo não foi apenas um movimento poético, foi também uma instituição. Ele tinha poder, tinha prestígio, tinha lugar no cânone. Isso explica por que a transição para o Simbolismo demorou tanto para ser reconhecida como algo legítimo.

Entendendo parnasianismo e simbolismo na prática

O Simbolismo brasileiro tem um nome central: Cruz e Sousa. Ele publicou Broquéis em 1893, seguido por Evocações em 1898. Cruz e Sousa era filho de escravizados, negro em uma sociedade que praticamente não oferecia espaço para intelectuais negros. Ele studyou no Colégio de Anchieta, no Rio de Janeiro, e mesmo assim encontrou resistência sistemática. Isso importa para entender a poesia dele. A angústia, a busca por transcendência, a musicalidade dos versos — tudo isso tem raiz em uma experiência concreta de exclusão. A diferença técnica entre os dois movimentos é mais clara quando você lê os poemas lado a lado. O parnasiano usa o alexandrino como verso padrão. Cada verso tem doze sílabas poéticas, a rima é geralmente ricamente preparada, e o tema é frequentemente a descrição de objetos, cenas mitológicas ou retratos de mulheres idealizadas. Já o simbolista prioriza a sugestão em vez da descrição, usa verso livre com mais frequência, e busca criar atmosfera através de imagens sensoriais e sons. O simbolismo bebe muito da tradição francesa, especialmente de Charles Baudelaire e Paul Verlaine, mas adapta isso ao contexto brasileiro.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Um ponto que poucos mencionam: Cruz e Sousa também escreveu em prosa. Mistérios é uma coletânea de contos que mostra como a sensibilidade simbolista ia além da poesia. Se você estudar apenas os poemas, perde metade da compreensão do que ele fazia. Tive um problema específico ao trabalhar com a distinção entre esses dois movimentos. Estava preparando um material para uma turma do ensino médio e percebi que os alunos confundiam completamente os dois, principalmente porque os manuais escolares apresentam cada um isoladamente. A solução que funcionou foi simples: pedi que lessem "Na Praia", de Alberto de Oliveira (parnasiano), e logo em seguida "Noturno de-germânica", de Cruz e Sousa (simbolista). O contraste visceral entre a descrição objetiva de uma cena litorânea e a evocação noturna, misteriosa, quase onírica, fez o entendimento acontecer em dez minutos. Nada de esquemas coloridos ou resumos. Só o confronto textual.

Outra coisa que os materiais didáticos escondem: o Simbolismo no Brasil não se limitou a Cruz e Sousa. Alfredo Guimarães Rosa também é considerado simbolista, mas sua obra ficou drasticamente subestimada durante décadas. Só nas últimas décadas é que estudiosos começaram a dar a devida atenção a ele. Isso mostra que a canonização desses movimentos sempre teve um viés — quem entra e quem fica de fora depende mais de critérios institucionais do que estritamente literários. O Parnasianismo brasileiro tem uma consequência prática que muita gente desconhece. Ele estabeleceu o padrão técnico que ainda hoje é cobrado em vestibulares e concursos públicos. A métrica perfeita, a rima cruzada, o alexandrino — tudo isso virou referência de "bom poema" para uma infinidade de corretores que aprenderam literatura apenas pelo ângulo parnasiano. Isso é tanto uma vantagem quanto um problema. A vantagem é que temos uma tradição técnica sólida. O problema é que muitas vezes se ensina a forma sem mostrar o conteúdo que a forma deveria servir.

Se você quer acessar os textos originais, a maioria das obras parnasianas e simbolistas está disponível gratuitamente em domínio público. O site Projecto Gutenberg tem várias coletâneas. A Biblioteca Nacional Digital também disponibiliza edições fac-similares. Não precisa comprar livro — o que vale a pena comprar são edições críticas comentadas, que trazem notas explicativas importantes sobre referências mitológicas e contexto histórico. O que ninguém te conta é que estudar esses dois movimentos juntos é mais produtivo do que estudá-los separadamente. O Parnasianismo reagia contra o Romantismo. O Simbolismo reagiu contra o Parnasianismo. Ambos são respostas a movimentos anteriores, e entender essa cadeia de reações e anti-reações é o que permite compreender por que a literatura brasileira tomou o caminho que tomou no início do século XX. Quando o Modernismo explodir em 1922, ele estará reagindo contra tudo isso também. A linha é direta: Romantismo Parnasianismo Simbolismo Modernismo. Não é uma sequência perfeita, mas é suficiente para mapear o terreno.

Se você estiver se preparando para uma prova ou trabalho acadêmico, o erro mais comum é tratar cada autor como isolado. Bilal não existiu no vácuo. Cruz e Sousa não escreveu por acaso. Coloque cada um no contexto da época, leia os poemas inteiros antes de tentar analisá-los, e evite resumos de terceiros. A literatura não cabe em slides de PowerPoint, e essa é provavelmente a maior limitação dos materiais que a maioria dos estudantes usa.