O que você precisa saber sobre a parte liquida do sangue antes de pedir um exame
A parte liquida do sangue é o plasma. Se o tubo tiver anticoagulante, é plasma. Se não tiver, o sangue coagula e o líquido sobrenadante se chama soro. As pessoas confundem isso o tempo todo, e o erro acontece porque os laboratórios não deixam claro na hora da coleta qual tubo usar. Eu já vi pedido médico escrito "exame de sangue completo" e o técnico colocar no tubo de soro, quando o paciente estava em heparina e precisava de plasma. O resultado de eletrólitos sai alterado e o laboratório não assume responsabilidade.
Como identificar a parte liquida do sangue no dia a dia do laboratório
O plasma ocupa cerca de 55% do volume sanguíneo total. O resto são células: hemácias, leucócitos e plaquetas. Quando você centrifuga uma amostra com EDTA a 2000g por 10 minutos, o plasma fica no topo, cor de palha, às vezes levemente turvo se a pessoa comeu gordura recente. Se o plasma estiver vermelho, tem hemólise. Se estiver lipêmico, parece leite. Ambos os casos comprometem várias determinações. O soro, por sua vez, é o plasma privado de fibrinogênio e fatores de coagulação consumidos durante a coagulação. Ele fica mais amarelado que o plasma. A diferença prática é que alguns exames só podem ser feitos em soro, como certos hormônios e sorologias, enquanto outros, como hemograma e eletrólitos, pedem plasma com anticoagulante.
Aqui vai algo que quase ninguém explica: a parte liquida do sangue não é uma solução homogênea. Ela carrega proteínas dissociadas em diferentes graus de hidratação, íons ligados a albúmina, hormônios unidos a proteínas carregadoras e metabólitos livres. Isso significa que o que você mede depende do método. Um eletrólito medido por ISE indireta num autoanalizador dá valor diferente do medido por ISE direta num gasômetro, mesmo sendo a mesma amostra. A diferença pode chegar a 4 a 6 mmol/L em pacientes com hipoalbuminemia severa. Eu perdi meio dia tentando entender por que os sódio estavam inconsistentes entre dois equipamentos até perceber que um usava diluição e o outro não. A solução foi padronizar o gasômetro para os valores críticos e aceitar a variação nos relatórios de rotina. O problema prático mais chato é a hemólise pré-analitica. O sangue é coletado, mas a amostra já vem com hemácias rompidas dentro do tubo. Isso acontece quando a agulha é muito fina, a extração faz vácuo brusco, ou o paciente tem veia difícil e o técnico manuseia o tubo com violência. A hemólise libera potássio intracelular para a parte liquida do sangue, elevando o K+ de forma falsa. Já atendi um caso em que o potássio saiu 7,2 no plasma hemolisado e o paciente estava assintomático. Refizemos a coleta com venopunção direta e o valor caiu para 4,1. Se você receber um tubo com aspecto rosado, não adianta diluir e refazer a leitura. Coleta nova, obrigatoriamente.
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Outro ponto cego: a formação de microcoágulos no plasma de EDTA. O tubo é invertido o número correto de vezes, mas se o volume de sangue for inferior ao necessário, a concentração de anticoagulante fica alta e provoca artefato. O plasma pode parecer ligeiramente viscoso e a contagem de plaquetas cai artificialmente. A regra prática é nunca usar tubos com relação sangue-anticoagulante errada. Se o tubo tiver 4 mL de capacidade e veio com 2,5 mL de sangue, descarta. Simples assim.
Quando confiar no plasma e quando exigir soro
A escolha entre plasma e soro não é preferência do laboratório, é exigência do método analítico. Para imunoadsorção, o soro é preferido porque o fibrinogênio interfere na ligação antígeno-anticorpo. Para cinéticas enzimáticas, o plasma com fluoreto de sódio é o padrão porque inibe a glicolise pós-colheita. Se você pede glicose e o tubo vai sem inibidor de glicólise, o valor cai cerca de 5 a 7% a cada hora em temperatura ambiente. Isso não é teoria. É o que acontece quando o corredor do laboratório demora para entregar a amostra na centrífuga. O plasma de citrato de sódio a 3,2% é usado especificamente para provas de coagulação. A diluição do sangue pelo anticoagulante é de exatos 9 partes de sangue para 1 de citrato. Se o tubo não estiver cheio, a concentração de citrato fica relativa maior e o tempo de protrombina alonga falsamente. Já corrigi isso na prática colocando o paciente para refazer o exame com tubo novo cheio até a marca, porque o ajuste matemático nunca foi confiável o suficiente para decisões clínicas.
Limitações que ninguém destaca
A parte liquida do sangue, seja plasma ou soro, não serve para tudo. Exames de hematologia como hemograma completo exigem sangue integral, não a parte liquida isolada. A contagem de hemácias e hemoglobina perde sentido se você remover as células. Da mesma forma, floculações e testes de viscosidade precisam da estrutura completa do sangue. Tentar improvisar usando apenas o plasma é erro comum de quem está começando e já vi pedidos caírem no filtro por isso. O outro limitante é a estabilidade. A maioria dos analitos no plasma é estável por 8 horas refrigerado, desde que a amostra seja separada das células logo após a centrifugação. Se o plasma ficar em contato com as hemácias por mais de 2 horas, o potássio sobe e a glicose desce. A prática correta é centrifugar e separar em até 30 minutos após a coleta. Quem trabalha em laboratório pequeno sabe que isso nem sempre é viável, e nessa situação o ideal é usar tubos com gel separador, que estabilizam a parte liquida do sangue por mais tempo. O gel não é acessório, é parte do método.
Se o seu objetivo é apenas saber se há infecção, inflamação ou desequilíbrio metabólico, a parte liquida do sangue fornece muita informação com custo baixo. Mas se você precisa de dados cinéticos precisos ou marcadores hormonais sensíveis à interferência de proteínas, o soro é mais seguro. E se o paciente está em terapia anticoagulante, o plasma com EDTA é o caminho, ainda que exija cuidados extras com a coleta. A escolha errada custa tempo e dinheiro, e o paciente perde a chance de um diagnóstico no primeiro teste.