Como formar o plural em português sem perder a sanidade
A maioria das pessoas aprende no ensino fundamental que se acrescenta "s" ao final das palavras terminadas em vogal. Isso funciona para "casa" virar "casas", mas é apenas a ponta do iceberg. A regra geral já começa a falhar com palavras como "animal" que vira "animais", e a partir daí o terreno fica instável. Na prática, o processo de passe para o plural envolve reconhecer o padrão fonológico e ortográfico de cada palavra. Vou explicar direto pelo método que eu uso, porque é o que funciona.
passe para o plural: o guia definitivo
Cada família de palavras tem seu comportamento próprio. Não existe uma receita mágica única, mas existem padrões que cobrem cerca de 85% dos casos comuns. O resto é memória e consulta. Palavras terminadas em vogal: acrescenta-se "s". Casa-viras casas. Lápis-vira lápis porque o "s" já está no singular, então fica no plural também. Isso é importante, porque lápis e ônibus são nomes comuns que não variam em número, apesar de parecerem que deveriam.
Palavras terminadas em consoante: aqui é onde a coisa complica. Se termina em "r", como "cidadão", vira "cidadões". Se termina em "m", vira "ns". Livro vira livros. Mas se terminar em "ã", como "irmã", vira "irmãs". Se terminar em "ão", as opções são várias: "ões" para "cães", "ões" para "cidadãos", mas "ãos" para "pão". Sim, existem "pães" que não se confunde com "pães" de padaria ou "pães" de forma, mas também temos "ãos" como em "mãos" e "grãos". A exceção é "cães" que vem de "cão" mas se escreve com acento circunflexo. Palavras terminadas em "nz": vira "nzis". "Tonz" não é uma palavra real, mas "renz" viraria "renzi" se existisse. Exemplo real: "froz" não existe. O exemplo correto é "alazão" que vira "alazões" seguindo a regra do "ão".
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Palavras terminadas em "l": vira "is". Exemplo: "felpudo" vira "felpudis" não, espera, "felpudo" vira "felpudos". O certo é: palavras terminadas em "l" mudam o "l" para "is". "Feliz" vira "felizes". "Análise" vira "análises". "Nível" vira "níveis". Palavras terminadas em "s": a maior parte não muda no plural. "Jazz" vira "jazzes" mas "fênix" vira "fênix". Palavras oxítonas terminadas em "s" como "vírus" vira "vírus". Já as palavras paroxítonas terminadas em "s" como "átomo" não têm esse problema porque terminam em vogal. O caso de "lápis" já foi mencionado acima.
Encontrei um problema específico há algum tempo quando estava revisando um texto técnico sobre ecologia. A palavra "mamífero" precisava ir para o plural. Eu sabia que "mamífero" vinha de "mamífero" no singular, mas eu me perguntei se deveria ser "mamíferos" ou "mamífères" por causa da influência do francês. A resposta é simplesmente "mamíferos". O problema real que eu encontrei foi com "caranguejo" que alguns editores insistiam em escrever "caranguejos" quando na verdade deveria ser "caranguejos" mesmo. Não tinha erro, mas a hesitação era a questão. Uma armadilha muito comum que eu vejo todo dia: palavras compostas. "Girassol" vira "girassois". "Segunda-feira" vira "segundas-feiras". Mas "couve-flor" vira "couves-flores". E "bicho-papão" vira "bichos-papões". A regra geral é flexionar apenas o primeiro elemento quando o segundo for um substantivo que não aceita plural, mas isso varia conforme a fixação da expressão. Eu costumo verificar no dicionário qualquer composto que eu não tenha certeza.
Outra nuance que gente nova não percebe: os adjetivos compostos geralmente só variam no último elemento. "Rosa-escura" vira "rosas-escuras", mas "surdo-mudo" vira "surdos-mudos". A exceção é quando o segundo elemento é um adjetivo de cor invariável, aí não varia nada. O maior problema prático é que o português brasileiro atual tende a simplificar. Jargões técnicos muitas vezes ignoram regras tradicionais e adotam formas anglicizadas ou abreviadas. "Data" no sentido de data digital às vezes aparece como "datas" até quando o contexto exige o singular, e vice-versa. Não adianta reclamar, a língua está aí sendo usada.
Se você precisa automatizar algo, a melhor abordagem é construir uma tabela de regras com precedência. Primeiro verifique se a palavra é invariável. Depois aplique as regras específicas por terminação. Por último, recorra a um dicionário de referência. Ferramentas de processamento de língua natural costumam errar em palavras menos frequentes porque os modelos treinam em corpora que privilegiam o uso comum. Aconselho consultar sempre o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa do Acordo Ortográfico de 1990 quando tiver dúvida real. Ele não resolve tudo, mas é a referência mais confiável que existe atualmente para o português padrão.